Quem com ferro fere, com ferro...
Auto de fé e linchamento
Roberto Romano*
Que não joguem livros
à fogueira, como Savonarola,
sobretudo o volume da
Constituição
Quem deseja salvar a Pátria deve pesar as próprias forças e
fraquezas. Caso contrário pode acabar nas fogueiras. Após impor em Florença [Itália] um regime de medo para vencer os corruptos, Savonarola foi às chamas
sob vaias. No afã de eliminar todo o luxo, o frade jogou livros ao fogo e
abriu sendas para fatos espantosos do século 20 na Alemanha. Profeta cuja arma
era o terror, ele não contou com o cansaço popular em sua higiene política.
Quem
condena sem as regras do Direito morre sem direitos. Maquiavel
fala contra os justiceiros: a corrupção
é fato constante mesmo entre pessoas educadas para o bem. “Em todas as cidades e povos há e sempre
houve os mesmos desejos e humores, sendo fácil para quem examina com diligência
o passado prever o futuro de toda república e aplicar os remédios empregados
pelos antigos ou, caso não se encontre nenhum usado por eles, imaginar outros
novos segundo os acontecimentos” (Discursos
sobre a Primeira Década de Tito Lívio, livro I).
Ética é o
sistema de atitudes e hábitos que se tornam “naturais”. O povo
adere a valores positivos ou negativos. Ainda segundo Maquiavel, para mudar hábitos arraigados o governante
deve fingir que o costume permanece mesmo quando a sua mudança é querida nos
palácios. “Quem deseja reformar o estado de uma cidade, ser aceito e manter
a satisfação de todo mundo, necessita manter pelo menos a sombra dos modos
antigos, de tal jeito que possa parecer
ao povo que não houve mudança nas ordens, embora as novas sejam inteiramente
distintas das velhas. A grande maioria
dos homens se contenta com as aparências como se fossem realidades e amiúde
se deixa influenciar mais pelas coisas
que parecem do que por aquelas que são” (Discursos, livro I).
Gabriel
Naudé usa a mesma tese para justificar os golpes de Estado.
No Brasil surgem fogueiras acesas por êmulos de Savonarola.
Real ou imaginária, a corrupção é amaldiçoada por hábito, não pelos fatos. Quem
estuda o empreendimento italiano chamado Mãos
Limpas sabe do que falo. De tanto
exorcizar a corrupção, a massa hipnotizada se contenta em moer pessoas, sem
buscar novas saídas políticas e jurídicas. Brasileiros
em massa assumem costumes hostis à democracia e ao Estado de Direito. Um
deles é o vezo de atacar, antes do julgamento legal, reputações de acusados.
Lembremos o caso da Escola
Base. A lei de Lynch cresce nas redes “sociais”, atos vis ocorrem sem informações corretas e prudência. Na internet
se cumpre agora a profecia de Diderot,
o grande enciclopedista do século 18:
“Temos na sociedade tantos impertinentes papagaios que falam, que falam,
que falam sem saber o que dizem, e mostram tanto prazer
quando expandem o mal, que o maledicente ou caluniador consegue num dia mil
cúmplices”
(Apologia do Padre
Raynal).
Não devemos mascar as palavras: quem banaliza as doutrinas sobre o bem gera o mal.
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DENIS DIDEROT (1713-1784): Filósofo e escritor francês, notabilizou-se por ser o cofundador, editor chefe e contribuidor da famosa Encyclopédie (Enciclopédia) no período do Iluminismo |
O costume faz dos indivíduos impiedosas bocas do Destino. O dogmatismo das massas sustenta as piores
ditaduras, à direita e à esquerda. “Nos últimos 60 anos, aproximadamente
1,5 milhão de brasileiros tomaram parte em linchamentos. No Brasil, as massas rebeladas matam, ou tentam matar, mais de um
suspeito por dia” (Latin America, Awash in Crime, Citizens Impose Their Own
Brutal Justice, em The Wall Street
Journal, dezembro, 2018).
Os desonestos retiram das mesas o alimento necessário à vida.
Larápios públicos ou particulares merecem punições. Movimentos surgiram para a
luta contra o roubo dos erários. O Instituto
Não Aceito Corrupção, liderado por Roberto
Livianu, reúne um programa livre de partidos ou ideologias. Trata-se,
naquele coletivo, de pesquisar os fatos em amplas dimensões, além de empreender
análises para reduzir a sua efetividade social e política. Temos ali um esforço que merece apoio, pois combate os malefícios
da corrupção sem preconceitos. Para
vencer qualquer doença é preciso estudo, técnica médica, diálogo respeitoso
entre o clínico e a pessoa por ele assistida. Diagnósticos parciais ou
apressados causam mais dores ou mortes. Mazelas exigem cuidados não genéricos. Apelar para um só
remédio significa piorar o malefício.
O ressentimento
das massas é desafio, impede soluções.
Lutar contra a corrupção requer o contributo dos três
Poderes e
de setores lúcidos na sociedade.
Isoladas, a promotoria
ou polícia produzem resultados
parciais, inoperantes.
Certas iniciativas da Justiça têm falhas na busca de combater
as práticas corrosivas. A entrevista sobre a prisão de Michel Temer concedida
pelo Ministério Público e pela Polícia Federal me preocupa. Antes do julgamento definitivo os acusados nela recebem epítetos
infamantes, como “líderes de quadrilha”, e adjetivos depreciativos. Se
posteriores à condenação definitiva, tais palavras já seriam indevidas. Até contra cidadãos de quem foi retirado o
livre movimento é vetada a injúria. Acusados servem como bode expiatório
para os acusadores. As falas com apodos aos políticos mostram o costume de
mover ressentimentos populares.
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HERÁCLITO FONTOURA SOBRAL PINTO (1893-1991): jurista brasileiro, árduo defensor dos direitos humanos, especialmente durante a ditadura do Estado Novo e a ditadura militar de 1964 em diante |
Não é de hoje que tal hábito torce ações judiciais no Brasil.
Sobral Pinto e demais causídicos,
nas ditaduras do século 20, enfrentaram parquets ágeis na hora de acusar,
lentos ao corrigir erros. Recordo o tratamento
cruel aplicado ao magnífico reitor da Universidade de Santa Catarina dr. Luiz Carlos Cancellier, sem provas
contra ele. A UFMG foi invadida e seus dirigentes, humilhados, sem provas. A corrupção (lembro Savonarola) não é vencida com autos de fé, mas com
pesquisas minuciosas, cautela, respeito à Carta Magna. O linchamento impera se existe a guerra de todos contra
todos.
No Estado de Direito a ira das multidões é afastada e nunca
seguida pelos que têm o múnus de zelar por todos e cada um dos cidadãos. Que
eles não joguem livros à fogueira, como o dominicano, sobretudo o volume da
Constituição.
* ROBERTO ROMANO DA SILVA possui
graduação em Filosofia pela Universidade de São Paulo (1973) e doutorado na
mesma área pela École des Hautes Études
en Sciences Sociales (1978 – Paris, França). Atualmente é professor titular
da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Tem experiência na área de
Filosofia, com ênfase em Filosofia Ética
e Política, além de História da Filosofia, atuando
principalmente nos seguintes temas: ética, democracia- ciência política, crise universitária,
crise política, religião e universidade pública.
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