Milicianos + Policiais = morte de Marielle
Caso Marielle, uma
investigação radioativa
para os Bolsonaro
Flávia Marreiro
Elo
de familiares de foragido com gabinete de Flávio Bolsonaro
e
a conduta pública da família presidencial elevam a voltagem
da
trama que se aprofunda no crime organizado do Rio
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Presos no Rio de Janeiro, acusados de serem os executores do assassinato da vereadora Marielle Franco, em março de 2018 |
Um dos acusados de ter
participado diretamente da execução de Marielle Franco foi preso nesta
terça-feira ao sair de sua casa na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, que fica
no mesmo complexo de alto padrão onde Jair Bolsonaro possui residência. Até o
momento, nas palavras das promotoras à frente do caso, trata-se de uma
coincidência. Assim como é irrelevante até agora, disse uma das integrantes do
Ministério Público do Rio, o fato de que um dos filhos do presidente tenha
namorado a filha do vizinho policial reformado — que as autoridades
acusam de ter atirado com precisão na cabeça da vereadora em março de 2018.
Os detalhes do cruzamento de
personagens mostram, pelo menos, como a elite do Rio compartilha ambientes,
sabendo ou fazendo vista grossa, com atividades suspeitas. Os dados também são,
por óbvio, irresistíveis para os críticos do presidente da República, que
replicaram uma foto do mandatário com o apontado como coautor material do crime
e puseram fogo na repercussão do caso nas redes sociais. Esse jogo de
conclusões apressadas e muita batalha política os Bolsonaro conhecem como
ninguém.
Essa pode permanecer apenas
como a faceta mais anedótica da investigação, mas há, no entanto, motivos
mais profundos pelos quais o caso Marielle se tornou radioativo para os
Bolsonaro [conferir: aqui]:
* Um deles é de ordem política e de responsabilidade
exclusiva do presidente e de sua família. Quando Marielle e seu motorista
Anderson Gomes foram assassinados, há um ano, Bolsonaro foi o único
presidenciável a não comentar ou condenar a execução, um crime que cruzou a
linha vermelha da violência política no Brasil antes mesmo do atentando contra
o agora o presidente.
* Um dos filhos do mandatário também criticou
duramente quem levantava suspeitas sobre policiais. Não foi exatamente uma
surpresa.
* Em 2011, o então deputado estadual Flávio Bolsonaro
achou oportuno frisar, por exemplo, que a juíza Patrícia Lourival Acioli,
executada após viver anos como jurada de morte por grupos de extermínio,
gostava de «humilhar policiais».
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FLÁVIO BOLSONARO Eleito Senador pelo PSL-RJ: já homenageou milicianos e fez repugnantes comentários quando do assassinato de uma juíza que investigava militares assassinos |
Se o histórico de defender, a
priori, PMs acusados de assassinatos e discursos no mínimo complacentes com as
milícias jogam a repercussão do caso no colo do Governo e da família
presidencial, falta ainda o desdobrar da parte mais delicada da
investigação: rastrear os possíveis mandantes. As promotoras Simone Sibílio
e Letícia Emile Petriz deixaram claro nesta terça que segue em curso, e sob
sigilo, a parte da investigação que apura o papel na execução do Escritório
do Crime, um sofisticado grupo de extermínio ligado a milícias e
contraventores. Um dos apontados como integrante do grupo, Adriano
Nóbrega, que está foragido desde janeiro, tinha duas parentes lotadas no
gabinete de Flávio Bolsonaro até o segundo semestre de 2018 [conferir: aqui].
Tanto ele quanto Ronald Pereira, outro acusado de participação no Escritório
do Crime, foram homenageados na Assembleia Legislativa do Rio à petição
do primogênito de Bolsonaro. «Espero que realmente a apuração tenha chegado
de fato a esse, se é que foram eles os executores, e o mais importante, quem
mandou matar», limitou-se a dizer Bolsonaro, que também afirmou que posa para
fotos com «milhares» de policiais.
Nas declarações das
promotoras, e em reportagens elucidativas como a da revista Piauí
[conferir: aqui],
fica evidente como tudo caminha em um campo minado em um Estado do Rio
infiltrado pelo crime organizado. O retrato é bastante gráfico:
* ex-governadores atrás das grades,
* um terço da Assembleia Legislativa também,
* uma segurança pública em colapso que passou
por um ano de intervenção militar com resultados fracos.
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Simone Sibílio (à esquerda) e Letícia Emile Petriz (à direita) promotoras do caso Marielle Franco na Justiça do Rio de Janeiro |
Nesta terça, as promotoras
fizeram questão de dizer que os acusados presos confessaram que foram
avisados da operação. A reportagem da Piauí narra também como
Sibílio e Petriz tentaram evitar ao máximo o vazamento da operação que tentaria
prender a cúpula do Escritório do Crime em janeiro, mas sem êxito total:
Nóbrega escapou. Há incômodo claro entre Polícia Civil e Promotoria,
enquanto também é desconcertante saber que foi apenas meses depois da
investigação começada que a unidade responsável pelo crime organizado no MP, o
Gaeco, finalmente entrou no caso. A investigação é alvo ainda da apuração
paralela e tardia da Polícia Federal. Merece discussão os motivos pelos
quais a procuradora-geral Raquel Dodge não buscou ativamente, ao contrário do
que sinalizou no início, a federalização do caso, o que de resto também não foi
defendido pela cúpula do PSOL. Agora, resta à PF tentar buscar dentro das
corporações quem tem interesse em bloquear a apuração. É pertinente outra
pergunta: terá independência para fazê-lo?
A vereadora do PSOL, com seu
rosto estampado em murais, se inscreveu de maneira trágica e decisiva no
imaginário político brasileiro (a potência e as implicações disso, inclusive
para algum incômodo da esquerda tradicional, fica para outra hora). Do ponto
de vista da investigação, é agora que começa a parte mais delicada. Tudo
remete a um país corroído por dentro e não é exagero dizer que o desfecho
que formos capazes de dar ao caso Marielle será determinante para o futuro.
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