Como viver a Quaresma
O soldado, o atleta, o lavrador:
as virtudes da Quaresma
Nico Guerini
Padre
italiano, estudioso de literatura e especialista em textos de mística
Settimana
News
09-03-2019
A Quaresma retorna
todos os anos para apresentar-se como um
tempo de
discernimento (somos cinzas) e de
treinamento (mas
somos chamados à luta)
As duas coisas andam juntas, porque o juízo da mente sempre corre o risco de turvar-se na confusão, e os músculos do coração, de enfraquecer na
inércia.
A lucidez do olhar
é uma premissa importante para não se perder ou perder tempo; a agilidade da vontade, de fato, não pode
exercitar-se adequadamente se não se souber para qual propósito operar, mas, ao
mesmo tempo, é a mesma correta atuação que ajuda a enxergar com clareza.
A estação que marca a transição do verão para o outono nos
oferece quarenta dias de revisão e de
exercitação.
Encontro na Segunda Carta a Timóteo um grupo de três figuras que, acredito, constituem
um excelente programa para viver bem a
Quaresma. Esse texto, atribuído a Paulo, é dirigido a uma comunidade que
precisa fazer as contas com numerosos «adversários», em um contexto de luta,
portanto, e que corre o risco de ficar desencorajada porque o «seu» apóstolo
está «acorrentado». Contra esse pano de fundo, a Segunda Carta a Timóteo foi
sugestivamente descrita como uma «exortação
testamentária na forma de uma carta de amizade» (Weiser).
Os dois aspectos indicam a relevância do que está escrito lá. No testamento encontra-se a síntese
de uma vida, as coisas mais importantes que foram aprendidas e se pretende
deixar para pessoas percebidas como amigas, uma relação que não só introduz no
discurso um aspecto afetivo comovente, mas que também é um indicador da maneira
pela qual a mesma mensagem de fé é transmitida: não apenas, e nem mesmo
principalmente, de mestre a discípulo, mas muito mais de amigo para amigo.
A passagem que pode fornecer um bom programa para a Quaresma diz:
«Nenhum soldado se deixa envolver pelos
negócios da vida civil,
já que deseja agradar aquele que o alistou.
Semelhantemente,
nenhum atleta é coroado como vencedor, se
não competir de acordo com as regras.
O lavrador que trabalha arduamente
deve ser
o primeiro a participar dos frutos da colheita». (2Tm
2,4-6).
Por trás
dessas três imagens está um convite preciso: «Como bom soldado de Jesus Cristo, sofra comigo», diz o apóstolo, no
qual fica claro que o acento está no
esforço, no empenho, no compromisso, embora se deva notar que isso é feito «juntos»,
e à luz do acompanhamento de Jesus.
Mas o discurso não é de via única, porque nas três imagens também se fala da
recompensa:
* o «prazer» daquele que nos alistou,
* o «prêmio» para aquele que competiu na
luta,
* o «fruto» para aquele que semeou e
cultivou.
Nessas três «figuras» do cristão, sobre o qual fazer
discernimento, é fácil ver três «virtudes»
correspondentes que colocam em causa a vontade, as duas coisas juntas, como
foi dito.
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FORMIGAS - exemplo de disciplina |
A disciplina do soldado
Perturbados e inquietados como somos pelas tantas guerras que
continuam a assolar o mundo, o léxico militar não está mais na moda. Mas uma
coisa é a guerra, outra é a linguagem da
militância, que nada perdeu em relevância. Era mais fácil compreender o
sentido e até seu fascínio em tempos em que a hostilidade contra os cristãos se
exercia com virulência, como acontece ainda hoje em certos lugares e situações.
Mas não se deve esquecer que essa linguagem emerge não só em coincidência com
hostilidades externas, mas também em períodos em que um generalizado torpor da
vida de fé incita pessoas e grupos a uma
sacudida de radicalidade.
Não é coincidência que esta seja a figura que abre a Regra de São Bento, onde o monge é
descrito como aquele que «pega nas armas gloriosas e poderosas de obediência
para militar a serviço do verdadeiro rei, Cristo, o Senhor» (Pról. 3), e os
cenobitas são aqueles que «militam sob uma regra e um abade» (1,2),
constituindo o que depois foi definida como fraterna
acies, ou seja, «tropa de irmãos» (1,5).
A frase não contém nenhuma contradição, porque não nos
reunimos para «guerrearmo-nos», mas para estar em condição, em um esforço
comum, de «guerrear» contra toda forma
de mal: pugnare contra diabolum.
Parece-me apenas natural ligar a figura do soldado com a
disciplina, lembrando também que exército
e exercício têm a mesma raiz: vêm de um verbo, exerceo, com sentido bastante rude se
não decididamente violento: literalmente «sair
de um estado de repouso».
E disciplina
significa tanto o «aprender» (discere) como o «esforço» necessário para chegar a isso. Não há espaço para entrar
em detalhes, mas acredito que seja fácil
para cada um se questionar sobre como vive aquela dimensão da fé que é o empenho,
muitas vezes obscuro e pouco gratificante, mas que torna o coração ágil e
disponível mesmo para grandes feitos.
Sob essa luz, os «assuntos comuns», que não devem ser um
obstáculo, não poderiam ser lidos como aquelas numerosas «picuinhas» às quais damos
talvez demasiada importância e que arriscam roubar energias que deveriam ser
direcionadas a objetivos mais essenciais e, em última análise, mais
gratificantes? Há «distrações» até mesmo boas e necessárias, e outras que não o
são.
Primeiro compromisso: examinar como administramos o
tempo, os interesses, os relacionamentos, até mesmo certa maneira de trabalhar
que gera apenas inquietação e agitação. Há, portanto, uma recentralização em coisas essenciais a serem implementadas e, como
reflexo, uma obra de poda e
simplificação em relação ao que causa dispersão; há um «jejum» a ser feito, e não apenas de comida.
O entusiasmo do atleta
Quem sentiu algum desconforto com a metáfora e o léxico
militar pode se sentir mais confortável adotando aquele esportivo. Desde que
fique claro que não se trata aqui do esporte dominical a ser apreciado em uma
poltrona na frente de uma televisão ou mesmo sentado nas arquibancadas de um
estádio, mas aquele que é praticado nos
treinos semanais, chatos, repetitivos, sem espectadores para aplaudir: esporte sim, mas do dia-a-dia!
Toda disciplina é cansativa, e só é aceita e suportada se, e
enquanto que, nos sustenta o fervor gerado por um objetivo próximo que queremos
muito. Para um atleta é uma vitória em uma competição, para um músico é um
sucesso em um show. É fácil ficar encantado diante de um «resultado» triunfal,
mas também é igualmente fácil esquecer o
preço do triunfo, dias e dias de exercícios repetidos, muitas vezes
praticados na solidão, e tudo pela emoção final, que nem sempre é garantida.
A mesma coisa acontece na vida espiritual. Contra a sensação de cansaço, é necessário
manter aquecido o encanto do ideal, regenerá-lo quando se torna morno,
reavivá-lo à luz dos exemplos daqueles que, mais generosos que nós,
caminham na frente, convidando-nos a segui-los tacitamente.
A banalidade, a monotonia, exemplos deprimentes do
comportamento insulso de indivíduos e grandes instituições, todas, Igreja,
incluída, são cinzas que arriscam sufocar o que às vezes sobrevive como débil
brasa, a mísera remanescente de um sonho, de um ideal que um dia aqueceu nossos
corações. Acredito que um bom exercício
de Quaresma possa consistir no reacender o entusiasmo pelas coisas grandes.
Além disso, permanecendo na metáfora do atleta, Paulo nos diz
que «Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm,
mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. E todo aquele
que luta de tudo se abstém; eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível;
nós, porém, uma incorruptível.» (1Cor 9,24-25).
Há muitas
áreas da cristandade onde pessoas altamente generosas trabalham em condições
terríveis para trazer alívio e conforto para aqueles que estão mal: nunca
acabam nas manchetes dos jornais, mas há livros e revistas que contam suas
labutas diárias.
A história da Igreja e do mundo é rica não só de catástrofes
vergonhosas, mas também de figuras
esplêndidas que, de entusiasmo pela
caridade e pela justiça, fizeram o objetivo de sua competição com a vida,
até, às vezes, morrer por ela.
Segundo compromisso: a leitura é um exercício recomendado para a Quaresma: a Regra Beneditina prescreve que o monge
receba um livro no início deste período com o compromisso de lê-lo (RB
49,15-16): antigamente eram as Instruções
de Cassiano ou os exemplos da Vida
dos Padres, com a intenção, precisamente, de iluminar a mente e aquecer a
vontade. Por que não programar para esta
época litúrgica um período em que, lendo um bom livro ou uma revista
missionária, cultivemos o entusiasmo? Por que não participar daqueles
encontros com «testemunhas» que são frequentemente organizados nas paróquias e
em outros centros?
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"AS RESPIGADORAS" Pintura a óleo sobre tela do francês Jean-François Millet - 1857 |
A paciência do lavrador
O terceiro passo a ser dado é essencial se não se quiser que
tudo desmorone. A figura do camponês torna-se decisiva a esse respeito. Há um elemento de «passividade» nele que é
importante. Enquanto no exercício de mortificações e esmolas, bem como no
suscitar o entusiasmo em nós, é fácil sentir-se protagonistas in toto, o lavrador sabe que ele tem que lidar com forças que não dependem dele:
se quer ver o fruto, deve esperar (cf. Tg 5,7).
O
desaparecimento da cultura rural na maioria das nossas terras resultou no
desaparecimento da paciência, bem
como da lentidão. Um
exemplo prático. Se depois de uma conversa cativante com um estranho, ele me
pede o endereço de e-mail com o evidente propósito de continuar o contato,
assim que descobre que eu não tenho e-mail, o que parecia ter-se acendido como
entusiasmo comunicativo desaparece instantaneamente. Sem comentário. Mas ainda
é claro que, se o entusiasmo é
necessário para começar, a paciência é necessária para chegar. Vem por
último, mas é a salvação de tudo.
E, portanto, seria uma bela contradição decidir sobre
renúncias e sacrifícios voluntários, que poderiam servir sub-repticiamente
também para satisfazer o ego, e depois não conseguir suportar as coisas, e as
pessoas, que se atravessam, que nos forçam a permanecer em situações de que não
gostamos, a fazer coisas que não queremos.
Terceiro compromisso: já foi lembrado várias vezes que o termo grego que indica a paciência também pode ser traduzido como constância
e perseverança.
Esse é o traçado mais importante da jornada quaresmal, e é algo que provavelmente
brilha menos (há, por acaso, medalhas para competições de paciência?), mas que tem a vantagem certa de «trazer frutos».
Traduzido do italiano por Luisa Rabolini. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.
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