Como educar mal seu filho!
Pais superprotetores
cruzam limites por filhos
e “roubam” seu
amadurecimento
Claire Cain Miller & Jonah
Engel Bromwich
The
New York Times
Criação
que livra caminho das crianças de obstáculos pode prejudicar aprendizado de
resolução de problemas
![]() |
O que está na moda, hoje em dia, é uma educação "limpa-trilhos", que tenta retirar da vida dos filhos todos os problemas, dificuldades e obstáculos para o seu sucesso. |
O filho mais velho de Nicole
Eisenberg, 49, queria ser um astro dos palcos desde que era bebê. Ele teve aulas de canto, dança e teatro e frequentou o famoso acampamento de verão Stagedoor Manor por cerca de seis anos, mas
ela estava ansiosa porque talvez isso não bastasse
para colocá-lo nos melhores cursos de artes cênicas.
Por isso, Eisenberg e
outros em Bloomfield Hills, no estado de Michigan, nos EUA, a ajudaram a fundar
uma entidade sem fins lucrativos com amigos que levantou mais de US$ 250 mil
(R$ 950 mil) em quatro anos.
"Fomos quatro ou cinco
mães que começamos isso. Nós a criamos, ajudamos, mas não o fizemos por
eles", disse Eisenberg. "Nós pedimos patrocínio para
eles? Sim. Pedimos dinheiro por eles? Sim. Mas eles tinham de fazer o
trabalho."
Ela até pensou em fazer uma
doação à faculdade que ele escolhesse. "Não há valor que poderíamos
pagar para colocá-lo lá dentro", disse Eisenberg. "Porque,
acredite, meu sogro perguntou." (O filho de Eisenberg foi admitido em dois
dos melhores cursos de teatro musical dos Estados Unidos, segundo ela,
juntamente com mais nove das 26 escolas em que ele se inscreveu.)
A faculdade estava no
radar deles desde que o filho usava fraldas. "Tive de levá-lo a 20 audições de teatro musical. Mas ele fez
tudo comigo. Não sinto que eu fiz isso. Eu o apoiei. Não fui uma
mãe-helicóptero. Fui uma copiloto."
Os pais-helicópteros, que pairam ansiosamente perto dos filhos,
monitorando toda a sua atividade, são muito século 20. Algumas mães e pais
ricos hoje são mais como limpa-trilhos: máquinas que avançam na frente,
limpando qualquer obstáculo no caminho de seus filhos para o sucesso, para
que eles não encontrem fracassos, frustrações ou oportunidades perdidas.
Levado ao extremo
criminoso, isso significa subornar os bedéis no teste de aptidão escolar
(SAT, na sigla em inglês) e pagar treinadores de colégios para colocar seus
filhos nas faculdades de elite — e depois fazer o possível para garantir
que eles nunca enfrentem a humilhação de saber como chegaram lá.
![]() |
FELICITY HUFFMAN atriz do famoso seriado norte-americano "Desperate Housewives", envolvida em escândalo de suborno em faculdade em favor de seu filho |
Essas são algumas das
denúncias no recente escândalo de suborno em faculdades, em que 50
pessoas foram acusadas em uma extensa fraude para garantir a admissão de
estudantes. Entre elas estavam atrizes como Felicity Huffman (de
"Desperate Housewives") e Lori Loughlin (de "Full
House"), além de empresários e técnicos esportivos de prestigiosas
instituições de ensino como Yale e Stanford.
Segundo a investigação, um
pai mentiu sobre seu filho jogar polo aquático, mas depois ficou preocupado
que a criança fosse vista pelos colegas como uma "pessoa que segura lugar
para outras". (Garantiram a ele que o filho não precisaria participar
realmente do time.)
Outro, segundo as acusações, pagou
a alguém para fazer o exame ACT, equivalente ao vestibular, por seu filho —
e depois fingiu aplicá-lo ao jovem pessoalmente em casa, para ele pensar que
estava realmente fazendo o exame.
Os pais acusados na
investigação, cujo codinome é Operação Varsity Blues (algo como
"depressão no time"), estão muito longe da norma. Mas eles agiram
como perfeitos limpa-trilhos: liberando o caminho para seus filhos entrarem
na faculdade, enquanto os protegiam de qualquer dificuldade, risco e possível
decepção nesse processo.
Em sua forma menos ofensiva —
e totalmente legal —, limpar trilhos (também conhecido como "roçar gramados"
ou "escavar") se tornou o modo mais ousado de criar filhos
privilegiados na geração "todo mundo
ganha um troféu".
Começa cedo:
a) quando os pais entram em listas de espera para
pré-escolas de elite, antes de seus bebês nascerem, e
b) tentam garantir que os pequenos jamais serão
obrigados a fazer nada que possa frustrá-los.
c) Fica mais intenso quando a escola começa: levar
uma tarefa esquecida correndo até a escola, ou telefonar para o
treinador pedindo que a criança entre no time.
d) Mais tarde, é escrever desculpas se eles atrasarem
nos trabalhos de casa,
e) pagar a um conselheiro de faculdade milhares de
dólares ou ligar para professores para discutir notas.
O escândalo de propinas
"apenas salientou um lado incrivelmente escuro do que se tornou a norma,
que é garantir que seu filho tenha o melhor, seja exposto ao melhor,
tenha todas as vantagens, sem compreender como isso pode ser
prejudicial", disse Madeline Levine, psicóloga e autora de
"Teach Your Children Well: Why Values and Coping Skills Matter More
Than Grades, Trophies or ‘Fat Envelopes’" (Ensine seus filhos direito:
por que valores e técnicas de relacionamento são mais importantes que notas,
troféus ou 'envelopes recheados').
"Eles tiraram tudo do
caminho de seus filhos", disse
ela.
Em seu consultório, Levine
disse que vê com frequência calouros de faculdade que "tiveram de voltar
para casa de universidades como Emory ou Brown porque não tinham as mínimas
capacidades adultas necessárias para estar na faculdade".
* Um voltou para casa porque tinha um rato no
dormitório.
* Alguns não gostavam dos colegas de quarto.
* Outros disseram que era trabalho demais e eles não
tinham aprendido técnicas de estudo independente.
* Uma não gostava de comer alimentos com molho. Durante
toda a sua vida, seus pais a ajudaram a evitar molhos, ligando antes para
os amigos quando iam jantar em suas casas. Na faculdade, ela não sabia lidar
com as opções da lanchonete — cobertas de molho.
"São pais que passaram
18 anos cuidando de seus filhos com o que eles consideravam vantagens, mas não
são", disse Levine.
Sim, é tarefa de um pai ou
uma mãe apoiar e usar sua sabedoria de adultos para preparar os jovens para o
futuro quando eles ainda não têm maturidade suficiente.
Mas se as crianças nunca
enfrentam um obstáculo, o que acontece quando elas entram no mundo real?
Elas fracassam, disse Julie Lythcott-Haims, ex-diretora de
novos alunos em Stanford e autora de "How to Raise an Adult: Break Free
of the Overparenting Trap and Prepare Your Kid for Success" (Como
criar um adulto: livre-se da armadilha da criação exagerada e prepare seu filho
para o sucesso).
Em Stanford, ela disse que
viu alunos contarem com os pais para marcar datas de jogos com colegas de
dormitório ou reclamar com os chefes do filho quando um estágio não levava à
contratação. A causa original, disse ela, eram pais que nunca deixaram seus
filhos cometer erros ou enfrentar desafios.
“O
negócio é preparar a criança para a estrada,
em
vez de preparar a estrada para o filho”,
diz
Lythcott-Haims.
Pais-helicópteros é uma expressão que entrou na moda nos anos 1980 e
surgiu do medo sobre a segurança física dos filhos — que eles caíssem de um
brinquedo no playground ou fossem sequestrados no ponto de ônibus. Nos anos
1990, ela evoluiu para cuidados intensivos, o que significava não apenas
monitorar as crianças constantemente, mas também ensiná-las.
Foi quando os pais
começaram a encher as tardes e fins de semana com aulas, tutores e esportes.
Os pais de hoje gastam mais com a criação dos filhos do que qualquer geração
anterior, segundo dados da Pesquisa de Despesas do Consumidor analisados
pelos sociólogos Sabino Kornrich e Frank Furstenberg.
Segundo dados de uso do tempo
analisados por Melissa A. Milkie, socióloga na Universidade de Toronto, as
mães trabalhadoras de hoje passam tanto tempo fazendo atividades práticas com
seus filhos quanto as mães que não trabalhavam nos anos 1970. As mensagens
eletrônicas e redes sociais permitiram que os pais acompanhem cada vez mais de
perto seus rebentos.
A criação
limpa-trilhos é uma forma ainda mais
obsessiva.
"Há um monitoramento
constante de onde o filho está e o que está fazendo, tudo com a intenção de
evitar que algo aconteça e se torne um obstáculo para o sucesso da criança",
disse Laura Hamilton, autora de "Parenting to a Degree: How
Family Matters for College and Beyond" (Criação até certo ponto: como
a família é importante para a faculdade e depois) e socióloga na Universidade
da Califórnia em Merced.
O destino no fim da estrada é
muitas vezes a admissão na faculdade. Para muitas famílias abastadas, sempre
foi um símbolo necessário de realização para a criança — e para os pais. Um
diploma universitário também se tornou cada vez mais essencial para ganhar um
salário de classe média.
Mas a admissão nas faculdades
tornou-se cada vez mais competitiva. O número de inscrições nos EUA duplicou
desde os anos 1970, e o aumento do número de vagas não acompanhou, continuando
basicamente o mesmo nas escolas mais cobiçadas.
Ao mesmo tempo, não é mais
garantido que as crianças se sairão tão bem quanto seus pais. Jovens nascidos
em 1950 tinham uma probabilidade de 80% de ganhar mais que os pais, segundo o
trabalho de uma equipe de economistas chefiada por Raj Chetty, em Harvard. Os
nascidos em 1970 tinham probabilidade de 61%. Mas desde 1980 os filhos têm a
probabilidade de ganhar menos ou o mesmo que seus pais.
É doloroso para qualquer pai
ver seu filho se sair mal ou não realizar seus objetivos (ou os dos pais?).
Hoje, porém, as apostas são muito mais altas.
O problema é que limpar
trilhos é um hábito de criação difícil de romper.
"Se você faz isso no
colégio, não vai parar na faculdade", disse Lythcott-Haims. "Se você faz na faculdade, não
consegue parar quando chega ao local de trabalho. Você criou um papel para
si mesma de sempre estar lá para cuidar das coisas para seu filho, então isso
piora porque seu jovem adulto está mal equipado para cuidar das tarefas
básicas da vida."
[...]
Não são só os
ricos. Pesquisa recente sugere que pais
de todas as camadas sociais e raças estão adotando a ideia da criação
intensiva, quer possam pagar por ela quer não.
Muitas vezes isso envolve
intervir em nome dos filhos. Em um estudo recente que pesquisou um grupo
nacionalmente representativo de pais sobre quais opções de criação eles
consideravam melhores, as pessoas, independentemente de raça, renda ou
educação, disseram que os filhos deviam ser matriculados em atividades
extracurriculares para que não se sentissem entediados. Se uma criança não
gostava da escola, eles achavam que os pais deviam falar com o professor para
dar trabalho diferente ao filho.
Mas a verdadeira criação
limpa-trilhos é feita principalmente por pais privilegiados, que têm dinheiro, conexões e informação para se
manter dois passos à frente dos filhos. Famílias sem esses recursos não têm
necessariamente o dinheiro para investir em aulas e conselheiros educacionais,
e talvez não tenham experiência em admissões em faculdades ou mercados de
trabalho ultracompetitivos.
[...]
Traduzido do inglês por Luiz
Roberto Mendes Gonçalves.
Comentários
Postar um comentário