ALERTA!!!
Os oceanos estão com
febre
Amélia Gonzalez
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Estudo analisa ondas de calor nos oceanos Foto: dimitrisvetsikas1969/Creative Commons |
Num dos lados de um pedaço de
papel cuidadosamente preso a um cabo que a moça ostentava como se fosse
bandeira, estava escrito: “FUI!” Assim mesmo, com letras maiúsculas e
exclamação. No outro lado, com o mesmo esmero, estava escrito: “FORA DA ÁREA DE
COBERTURA”. E assim a foliã seguia brincando seu carnaval, sozinha em meio à
multidão.
Não, caros leitores, podem
ficar sossegados que não vou tecer teorias sociológicas a respeito da farra
anual, zombeteira, vinculante, que lava a alma de muita gente. Quando posso, eu
mesma sigo pelas ruas como observadora e, sorte a minha, só o que vejo é
leveza.
Não por acaso, talvez, depois
de um ano tão pesado para todos os brasileiros, sobretudo os cariocas, por
aqui a fantasia de rua que mais “pegou” foi a de bailarina. Saias de filó
transparente de várias cores e maiôs também coloridos estão sendo vendidos em
cada camelô de cada esquina dos locais onde há muita gente passando. O conjunto
fica tão bonito que muitos homens decidiram adotar. Eles vestem rosa, elas
vestem azul, e saem assim singularizados, felizes, nem ligam para as ordens
autoritárias. Pelo menos até quarta-feira, o melhor é não pensar em nada que
quebre esta magia.
Concordo.
Mas, para os que me seguem
aqui neste espaço e querem aproveitar os dias de folga para obter mais
informações sobre o ambiente que nos cerca, sigo cumprindo meu ofício. E lá
vai uma notícia preocupante. (Porque, infelizmente, os arroubos da
humanidade sobre a natureza deixa poucas chances de trazer boas notícias.) Mais
uma pesquisa, publicada no site da Nature Climate Change, mostra que aumentou
drasticamente o número de ondas de calor que estão afetando os oceanos,
como se fossem incêndios no mar. Trata-se da primeira análise global
sistemática das ondas de calor oceânicas, quando as temperaturas atingem
extremos por cinco dias ou mais, segundo reportagem publicada no “The
Guardian” pelo jornalista Damian Carrington.
No longo prazo, o número
de dias de ondas de calor aumentou mais de 50% entre 1986 e 2016, em
comparação com o período entre 1925 a 1954. Florestas de algas marinhas,
tapetes de ervas daninhas e recifes de coral foram perdidos por causa do
fenômeno, sobretudo na Califórnia e na região costeira da Austrália à Espanha.
“Há incêndios que devastam
florestas inteiras produzidos pelas ondas de calor que se percebem nos
continentes, mas é importante saber que o mesmo ocorre nos oceanos, debaixo
d'água”, disse Dan Smale, da Associação de Biologia Marinha, em
Plymouth, no Reino Unido, que liderou a pesquisa.
A questão é que, como as
temperaturas já estão elevadas por causa do fenômeno El Niño, que aquece
as águas do Pacífico, uma onda de calor, quando ataca, causa muito mais
impacto. Alguns animais poderiam se safar, tentando buscar águas mais
frias, mas o calor em excesso impede que eles façam isso. E isto, lembram os
pesquisadores, pode provocar problemas socioeconômicos. Basta lembrar o que
aconteceu em 2012, quando os estoques de lagostas baixaram, criando tensões
entre Estados Unidos e Canadá.
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MALIN PINSKY Universidade Rutgers - Estados Unidos |
A reportagem do “The
Guardian” ouviu o professor Malin Pinsky, da Universidade Rutgers,
nos Estados Unidos, que não fez parte da equipe deste estudo, mas confirma o
laudo:
“Esta pesquisa deixa claro
que as ondas de calor estão atingindo o oceano em todo o mundo... Os
oceanos estão com febre. Esses eventos provavelmente se tornarão mais
extremos e mais comuns no futuro, a menos que possamos reduzir as
emissões de gases de efeito estufa”, disse ele. Outro estudo, conduzido
pela Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth
(CSIRO), na Austrália, e publicado na semana passada, também comparou ondas de
calor oceânicas a incêndios florestais. E mostrou que o aquecimento dos
oceanos está reduzindo as capturas sustentáveis de peixes de 15 a 35% em
diversas regiões, incluindo o Mar do Norte e o Mar da China. Esta
constatação deixou os pesquisadores surpresos, segundo declarou uma delas, Éva
Plagányi, à reportagem do jornal britânico.
Se ainda é possível reverter
este problema? Sim, admitem todos os pesquisadores. Desde que a humanidade
passe a encarar seriamente a necessidade de rever
paradigmas de produção e consumo. Os cidadãos comuns têm, sim, uma
parte importante no rumo desta prosa, mas o timão está mesmo é com os
governos e com as empresas.
É bom, é mesmo saudável,
ficar “fora da área de cobertura” em certas ocasiões. Até para repor as
energias necessárias às mudanças que se precisa fazer. Bom carnaval a todos e
todas!
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