A continuar, assim, estamos perdidos!
Bibi Trump e Donald Netanyahu
Thomas Friedman
Jornalista especializado em questões
internacionais e Oriente Médio
«The New York Times»
Ambos
veem os problemas do mundo como oportunidades
para
consolidar seu poder
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Primeiro Ministro Netanyahu (Israel) encontra o Presidente Trump na Casa Branca - Washington Março de 2019 Foto: Doug Mills (The New York Times) |
Há dois países com os quais estive
envolvido profissional, emocional e intelectualmente durante minha carreira de
jornalista – os Estados Unidos da América [EUA] e Israel. Nunca fiquei tão
preocupado com ambos quanto agora, porque o
presidente Donald Trump e o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu são
essencialmente a mesma pessoa.
Ambos são homens totalmente desprovidos de vergonha, apoiados por partidos
sem dignidade e protegidos por nichos da grande mídia totalmente sem
integridade. Ambos são bancados por um
magnata dos cassinos de Las Vegas, Sheldon
Adelson. Ambos apoiam uma causa “republicana” em Israel – não mais uma
causa bipartidária. Podem atirar num
inocente em plena luz do sol na Quinta Avenida e seus apoiadores dirão que são
vítimas.
Cada um deles está livre para
ultrapassar limites que seus predecessores nunca teriam ousado. É por isso que
acredito que mais quatro anos para Netanyahu e mais seis para Trump, uma
possibilidade real, vão levar ao surgimento de uns EUA e um Israel nos quais respeito à civilidade, democracia,
Judiciário independente e mídia independente não serão mais exemplos a serem
seguidos.
Em vez disso, os dois países serão
exemplos de como as preciosas normas e instituições que dão liga a uma
democracia podem ser facilmente solapadas por líderes dispostos a contar qualquer mentira, esmagar qualquer competidor
e cortejar qualquer extremista para se manter no poder.
A primeira providência de Netanyahu será fazer um acordo com seus
potenciais parceiros de coalizão, a maioria de extrema direita, no qual, segundo informou o jornal Haaretz, esses partidos vão concordar em criar uma legislação que livre
Netanyahu de seus muitos indiciamentos por corrupção – em troca do que ele concordará em anexar assentamentos na
Cisjordânia a Israel. E Trump vai concordar com isso, talvez como parte de
seu próprio plano de paz. Seguramente,
será um negócio sujo.
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Primeiro Ministro Benjamin Netanyahu na sede de seu partido político, o Likud, em Tel Aviv Quarta-feira, 10 de abril de 2019 Foto: Thomas Coex/Agência France Presse |
Mas que mais poderíamos esperar? Netanyahu abraçou abertamente um partido
israelense racista e antiárabe e uma retórica também antiárabe, diferentemente
de qualquer primeiro-ministro israelense anterior. Ao mesmo tempo, ele vem
ininterruptamente embaçando a Linha Verde que separa Israel da Cisjordânia e
seus 2,5 milhões de palestinos – com ajuda do embaixador de Trump em Israel –, tornando cada vez mais improvável que
Israel vá algum dia se separar dessa área e cada vez mais provável que Israel venha a se tornar um Estado
binacional no qual judeus desfrutarão de direitos negados aos palestinos.
Enquanto isso, Trump vem cada vez mais depressa transformando os EUA numa república
de bananas, demitindo funcionários do governo e altos burocratas que se
recusam a cumprir suas ordens temperamentais, geralmente ilegais e na maioria
das vezes destinadas a impedir a imigração ilegal e legal e a conceder asilo ao
longo da fronteira México-EUA.
Trump prefere governar através de secretarias “atuantes” – ele
demitiu os chefes e não os substituiu –, que são muito mais vulneráveis a seus
desígnios e aceitam melhor suas mais de 10
mil mentiras e falsidades acumuladas desde que ele assumiu o poder.
Netanyahu, por sua vez, prefere
acumular múltiplas funções: durante boa parte de seu último mandato, ele foi ao
mesmo tempo primeiro-ministro, ministro da Defesa, ministro do Exterior e
ministro da Saúde.
Nenhum dos dois têm amigos próximos. A maior diferença entre os
dois é que Netanyahu é muito esperto,
ávido leitor e hábil em administrar relações com vizinhos de Israel e com
grandes potências, como EUA, Rússia, Índia e China. Trump também é esperto, mas provavelmente há anos não lê um livro.
Ele é informado pela Fox News e
outros veículos da mídia de direita e, mais do que manejar Putin, é manejado
por ele.
Tanto Trump quanto Netanyahu são investigados por sérias impropriedades
financeiras. O procurador-geral de Israel recomendou que Netanyahu seja
indiciado por acusações de fraude, suborno e quebra de confiança em três casos
de corrupção. Trump foi inocentado pelo procurador especial em casos de conluio
com a Rússia na eleição de 2016, mas continua sob investigação. Cinco assessores próximos a Trump já
admitiram culpa ou foram condenados.
Nenhum dos dois têm interesse em
liderar seu povo. Ambos optaram por
governar dividindo a população, mais que a unindo. A cada um deles basta
ganhar por 50,1%, usando o medo do estrangeiro e salientando diferenças
culturais ou religiosas entre seus cidadãos.
A estratégia de Netanyahu foi demonizar árabes-israelenses. A de Trump foi demonizar muçulmanos, mexicanos e
imigrantes. Nenhum dos dois está totalmente errado sobre o mundo em torno
deles. Os EUA têm um problema de imigração ilegal que os democratas não levaram
suficientemente a sério. Israel tem inimigos como o Irã e outros próximos a
ele. Mas os inimigos externos de Israel estão bem contidos. A verdadeira ameaça para Israel é interna
– é anexar a Cisjordânia e sua população palestina, e ser visto pelo mundo com
a África do Sul do apartheid.
[Comentário pessoal: impressionantes as semelhanças no
modo de agir de Trump-Netanyahu e Bolsonaro no Brasil! Dividindo para reinar!
Colocando-se como a “única” opção antipetista e conquistando o poder via a
demonização de seus adversários! Qualquer semelhança, então, não é mera coincidência!
O Brasil, ora o Brasil! O importante é vencer, dominar, esmagar o adversário!]
Para Netanyahu, pensar
imaginativamente sobre como se separar da Cisjordânia, e para Trump, como
administrar o problema da imigração com uma estratégia nacional coerente, é um
sacrifício que vai exigir de cada um que confronte os ultranacionalistas que
formam a base de seu apoio. Nenhum dos dois tem coragem ou vontade de fazer
isso.
Na verdade, Netanyahu foi tão fundo que nesta última
eleição aceitou como parceiro um partido antiárabe pequeno e racista – um
partido tão vil que a
Suprema Corte de Israel
impediu que seu líder disputasse a eleição.
Não preciso dizer até onde
Trump foi em desculpar supremacistas
brancos.
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BERNARD AVISHAI Professor de Administração (Business) na Hebrew University (Jerusalém), Duke University, Massachusetts Institute of Technology (MIT) e Dartmouth College (Estados Unidos) |
Netanyahu passará à história como o
líder israelense que concretizou a distinção entre “israelenses” e “judeus”,
como notou Bernard Avishai num ensaio na New Yorker: “A ameaça,
entende Netanyahu, não são apenas os árabes, mas o que pode ser chamado de
“israelismo” – uma identidade legal e cultural disponível para qualquer cidadão
que participe da sociedade civil e fale hebraico, incluindo os 20% que são
árabes”.
Netanyahu fez aprovar a recente Lei da Nação-Estado, que estipula que Israel é “a pátria nacional do
povo judeu na qual esse povo exerça seu direito natural, cultural, religioso e
histórico à autodeterminação”. Embora muitos judeus americanos que apoiam
tradicionalmente Israel possam tentar “blindar
Netanyahu, é cada vez mais claro que ele está em atrito com os padrões
democráticos desses judeus americanos, que estão cada vez mais sob ataque”,
concluiu Avishai. “Judeus americanos, como eleitores israelenses, têm escolhas
a fazer.” Será Israel um Estado para
judeus ou para todos esses cidadãos?
Já Trump pode não dizer explicitamente, mas sua visão é que, basicamente,
verdadeiros americanos são brancos judeus-cristãos – certamente, não
muçulmanos – e todo imigrante negro ou mestiço é suspeito.
Finalmente, tanto Trump como Netanyahu idolatram apenas uma coisa – o poder nu,
explícito, e não se acanham em exercê-lo. Netanyahu está convencido de que,
se Israel for forte militar, econômica e tecnologicamente, o mundo se curvará a
sua vontade e virá bater a sua porta. Os palestinos
vão se render; os árabes terão de ir
à mesa de negociação; e China, Índia e
Rússia correrão a comprar softwares
israelenses. E até agora ele tem acertado. Netanyahu acredita que os judeus
americanos liberais têm pouco valor e logo desaparecerão pelo casamento entre
raças, e os judeus ortodoxos e cristãos
evangélicos terão poder suficiente para representar Israel em Washington.
[Comentário pessoal: o mesmo está se passando no
Brasil! Seria pura coincidência?!]
THOMAS L. FRIEDMAN Autor deste artigo |
Trump está substituindo toda a lógica da política exterior dos EUA desde
a 2.ª Guerra – a de que mais integração global e regras e instituições
globais mais fortes levarão a um mundo mais próspero e, se os EUA estão pagando
um pouco mais que os outros por isso, é porque colherão mais benefícios, pois
afinal são a maior economia do mundo.
Para Trump, todas as instituições globais criadas após a 2.ª Guerra – Otan,
Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, Organização Mundial do Comércio,
Nações Unidas – são apenas instrumentos
para pequenos países sugarem os EUA. Trump
na verdade quer ver a União Europeia fracionada, pois entende que, se os
EUA negociarem bilateralmente com cada nação, terão mais meios de impor a essas
nações acordos comerciais assimétricos.
Assim, não tenham dúvidas: quatro
anos mais para Netanyahu e seis mais para Trump não vão mudar apenas os EUA e
Israel. Vão mudar o mundo – e não para
melhor.
Traduzido do inglês por Roberto Muniz. Acesse a versão original
deste artigo, clicando aqui.
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