Ser cristão é ser benevolente


Telmo José Amaral de Figueiredo
Padre, teólogo e biblista
Diocese de Jales – SP
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É quaresma!
Tempo de revisão de vida, tempo de olhar para si, tempo de enxergar os outros e os que sofrem, tempo de conversão, tempo de partilha, tempo de graça!
Neste domingo, dia 14 de abril, a Igreja Católica faz um apelo a todos os homens e mulheres de boa vontade para que colaborem com a Coleta da Campanha da Fraternidade. Neste ano, a Campanha nos convida a refletirmos e agirmos sobre a “Fraternidade e Políticas Públicas”.
Contudo, eu gostaria de conversar com você, especialmente, sobre o sentido dessa coleta da fraternidade. Afinal, não é de hoje que a Igreja nos convida a um gesto concreto de solidariedade, de amor e de compromisso.
No Antigo Testamento da Bíblia, não encontramos uma palavra exata para “coleta”, apenas para “esmola” (tsedaqá = beneficência, esmola). Há, também, o verbo “recolher”, no sentido de “coletar, ajuntar” (cf. 2Rs 22,4 – ’asephû – lê-se: assefû). Interessante observar que a expressão hebraica tsedaqá, quando empregada como esmola (cf.: Eclo/Sir 3,14.30; 7,10; 40,17.24), exprime o sentido de generosidade, de retidão, justiça. Portanto, quando se dá uma ajuda, um auxílio a algo ou alguém, a pessoa livra-se de seus pecados (Eclo 3,30); torna sua oração mais concreta (Eclo 7,10); tem reconhecimento eterno (Eclo 40,17) e contribui para libertar as pessoas (Eclo 40,24). Mais interessante, ainda, é o fato da palavra tsedaqá exprimir não somente uma conduta moral, mas também um estado prazeroso de saúde e bem-estar. Isso revela que, para a Bíblia, o meio e o fim formam uma unidade, ou seja, o fim é todos terem uma vida de alegria, de bem-estar e felicidade, mas o meio para se atingir isso é a justiça, a conduta reta, a honradez e a generosidade (esmola).
No Novo Testamento, encontramos a palavra “coleta” (grego: logueía) apenas em 1Cor 16,1-2: «Quanto à coleta em favor dos santos, segui vós também o que ordenei às igrejas da Galácia. Todo primeiro dia da semana, cada qual separe livremente o que tenha conseguido economizar, de modo que não se espere a minha chegada para, então, fazer as coletas.» Paulo solicita aos coríntios que colaborem com a comunidade de Jerusalém (os santos). As justificativas para o apóstolo solicitar essa coleta foram:
a) a fome na Judeia, região onde estava Jerusalém, durante os anos 40 da era cristã (At 11,27-30);
b) é uma forma das comunidades retribuírem a participação nos bens espirituais dos santos de Jerusalém (o Evangelho que receberam – Rm 15,25-27);
c) é um modo dos perseguidos e pobres colaborarem com outros irmãos e irmãs necessitados (2Cor 8,1-4);
d) finalmente porque, ajudar os pobres, partilhar com os mais necessitados é uma das principais missões de um apóstolo de Cristo (Gl 2,6-10).
Paulo, é preciso observar isso, jamais motivou a coleta empregando palavras como: obrigação, taxa, condição para a salvação etc. Ele utiliza termos como:
* cháris (= graça, dom, oferta – 1Cor 16,3; 2Cor 8,4);
* koinonía (= colaboração, contribuição – Rm 15,26);
* diakonía (= serviço, auxílio – Rm 15,31; 2Cor 8,4; 9,1);
* euloguía (= bênção, oferta – 2Cor 9,5).
Portanto, eu, você, todos nós teremos, nesta quaresma, a oportunidade de participar, também, de uma coleta! No próximo domingo, façamos como propôs Paulo:

«E como transbordais em tudo: 
na fé, na palavra, no conhecimento, em toda solicitude e em vosso amor para conosco, transbordeis também nesta obra de generosidade. 
Não é uma ordem que estou dando, mas... 
dou-vos ocasião de provardes a sinceridade do vosso amor» 
(2Cor 8,7-8).

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