Grande descoberta!
O futuro no passado
Sabrina Brito
A descoberta de fósseis do dia em que um meteoro atingiu
a Terra,
há 66 milhões de anos, lança luz sobre as consequências
da colisão,
que mudou o planeta
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CRATERA DE CHICXULUB - Península de Iucatã, no México Local onde teria caído o asteroide que mudou o destino do planeta Terra |
Foi tudo muito rápido — e avassalador. Quando, há 66 milhões de anos, um asteroide de 12 quilômetros de diâmetro
atingiu a Terra em um ponto do Oceano Atlântico, perto da atual Península
de Iucatã, na costa do México, o planeta experimentou o que poderia ser o
prenúncio do fim. O impacto provocou
incêndios, terremotos e tsunamis violentíssimos, que logo afetaram regiões
localizadas a milhares de quilômetros de distância.
A colisão, aventada pela primeira vez na década de 1980, acabaria por
obliterar cerca de 75% da flora e da fauna de então, incluindo os dinossauros, répteis monumentais que, à época,
dominavam o mundo. Com o choque, uma
infinidade de criaturas marinhas foi arrastada por ondas gigantescas e atirada
à superfície terrestre, onde se misturou a peixes de água doce — cuspidos
de lagos e rios —, a outras espécies, ao barro, ao caos.
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Cratera de Chicxulub na Península de Iucatã - México O círculo mostra a sua exata localização |
Um extraordinário sítio arqueológico situado nos Estados Unidos e
formado por todo esse material fossilizado acaba de ser revelado por um grupo
de doze cientistas de diferentes universidades americanas e europeias. A
descoberta está lançando novas luzes sobre aquele que foi, sem dúvida, um dia histórico para a Terra — e,
acima de tudo, sobre suas consequências,
que a levariam a se tornar o planeta dos
humanos.
Em um artigo publicado na revista
científica americana Proceedings of the
National Academy of Sciences, os pesquisadores afirmam haver encontrado no
tal sítio, denominado Tanis, em Dakota do Norte, fósseis que têm sua origem no dia exato do impacto. O local fica a
3.500 quilômetros do ponto onde o meteoro teria atingido o globo,
abrindo a submersa cratera de Chicxulub.
Segundo Phillip Manning, coautor da
pesquisa e professor de história natural
na Universidade de Manchester, na Inglaterra, a imagem de nosso planeta imediatamente após a colisão se assemelharia
à do interior de uma barulhenta e agitada máquina de lavar roupa — até que
uma repentina calmaria fez com que tudo assentasse. Depois de milhões de anos,
os despojos se transformaram em rochas, que mantiveram os fósseis intactos.
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Peixe fossilizado encontrado em Dakota do Norte: preservado |
A certeza dos cientistas de que
todo aquele material data precisamente do dia em que o asteroide se chocou com
a Terra está baseada em evidências
concretas. O primeiro indício foi a constatação de que os fósseis estavam cobertos de irídio, metal muito mais comum em
meteoros do que no solo terrestre. A segunda pista veio do fato de que as guelras dos peixes encontrados em Tanis
estavam repletas de tectitos, minúsculas pedras de vidro que teriam
“chovido” dos céus após a colisão. A terceira — e mais contundente — das
evidências surgiu porque os cientistas
descobriram lado a lado no sítio arqueológico de Dakota muitos exemplares
fossilizados de animais e vegetais que só existiam em áreas distintas e
distantes. Assim, a única explicação para que estivessem reunidos naquele
lugar seria terem chegado lá por meio de ondas como aquelas que se formaram em
decorrência do impacto do asteroide contra o globo.
A nova descoberta é resultado de um
demorado trabalho de investigação. Robert
DePalma, curador de paleontologia do Museu de História Natural de Palm
Beach, na Flórida, e o principal autor do estudo recém-divulgado, está
explorando Tanis desde 2012. No entanto, só agora considerou haver encontrado
os elementos mais importantes de sua pesquisa: ossos de vários grupos de dinossauros.
O peso desse achado deve-se ao seguinte:
apesar da frequente associação feita por cientistas entre a
colisão do meteoro
com o nosso planeta e a extinção daqueles répteis,
faltava um elo mais direto entre os dois eventos.
É claro que não se deve imaginar que todos os exemplares de dinossauro
espalhados pela Terra tenham desaparecido ao mesmo tempo em razão da colisão
com o asteroide. O impacto do evento sobre eles teria sido sobretudo
indireto — em razão, isso sim, das consequências da catástrofe. O choque teria levantado uma quantidade
enorme de fuligem, suficiente para bloquear os raios solares. Resultado:
além de derrubar a temperatura no planeta, essa situação teria prejudicado o
desenvolvimento das plantas, desequilibrando toda a cadeia alimentar que
mantinha os dinossauros vivos. Há ainda outras hipóteses para o desaparecimento
daqueles répteis, como fortíssimas
erupções vulcânicas.
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Robert DePalma, paleontólogo do Museu de História Natural de Palm Beach e estudante de pós-graduação da Universidade do Kansas, trabalha em um local de fósseis na Dakota do Norte. |
Em entrevista a VEJA, David Burnham, coautor do estudo
encabeçado por Robert DePalma e
professor de geologia da Universidade do Kansas, disse que a exploração em
Dakota do Norte “nos permite analisar, por exemplo, os meios pelos quais os mamíferos sobreviveram ao choque do meteoro com
a Terra — e o porquê de tantas espécies não terem tido a mesma sorte”. A
teoria é que, enquanto os grandes
répteis comandavam o ambiente global, o número de mamíferos era reduzido —
acredita-se que só existissem os terrestres — e eles não se atreviam a sair à
luz do dia, temendo os predadores. A extinção dos dinossauros teria sido o
primeiro passo para que os mamíferos se espalhassem e evoluíssem — até que um
de seus representantes, o Homo sapiens,
surgido há 300.000 anos,
dominasse o planeta. Assim, quando, 66 milhões de anos
atrás, a Terra foi atingida por um
gigantesco asteroide, ela não experimentou apenas o que poderia ser o prenúncio
do fim. Aquele também foi o primeiro dia
do seu futuro.
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