C U I D A D O ! ! !

Civilização em risco

Marcelo Marthe

Entrevista com Yascha Mounk
Cientista político alemão radicado nos Estados Unidos
Doutorado em Harvard e Professor da Johns Hopkins University

O cientista político Yascha Mounk diz que a ligação histórica entre liberdade individual e instituições democráticas está se esgarçando
YASCHA MOUNK
Cientista Político e Professor da Johns Hopkins University - Estados Unidos

Com seu inglês carregado de sotaque, o cientista político Yascha Mounk roda o mundo imbuído de uma causa: salvar a democracia liberal da ameaça do novo populismo. Nascido na Alemanha, filho de mãe judia polonesa, o intelectual, de 36 anos, aprendeu em casa sobre as tragédias do nacionalismo e do totalitarismo do século XX. Em sua carreira acadêmica nos Estados Unidos — doutorou-se na Harvard e é professor da Universidade Johns Hopkins —, ele se devota a entender e combater uma forma completamente nova de populismo. Em O Povo contra a Democracia, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, Mounk apresenta a perturbadora tese de que o casamento entre democracia e liberalismo, que trouxe estabilidade e progresso ao Ocidente, está sob risco — e também a paz e a liberdade. Mounk, que virá ao Brasil em 24 de abril, expõe aqui suas ideias.

Muito se fala dos riscos da ascensão do populismo para a democracia. Ela está mesmo em perigo?

Yascha Mounk: Dois fatores levam o mundo a subestimar as investidas dos populistas contra a democracia. O primeiro é que as pessoas ainda conservam a ilusão de que o regime democrático é uma conquista inexorável da civilização. O segundo é que os países — e a história da América Latina revela-se pródiga nesse sentido — se acostumaram a lutar contra inimigos que anunciavam explicitamente seu desejo de destruir a democracia, como comunistas e fascistas. Mas as democracias agora enfrentam ameaças muito mais sutis. O dado que torna complexo lidar com o fenômeno é que as pulsões antidemocráticas vêm do seio da sociedade e de líderes que se dizem os únicos tradutores da vontade popular, em contraposição ao sistema político instituído.
 
VIKTOR ORBÁN
Primeiro-Ministro da Hungria - extrema-direita
Seu inventário vai do americano Donald Trump ao húngaro Viktor Orbán, passando pelo brasileiro Jair Bolsonaro. O que há em comum entre os novos populistas?

Yascha Mounk: Os populistas sabem dar voz às frustrações do cidadão médio com uma linguagem simples e emocional. Eles sabem, sobretudo, vender-se como outsiders que se opõem radicalmente ao sistema político vigente e alardeiam sua pureza em relação aos demais políticos. Quando os políticos tradicionais já não conseguem acenar com melhorias expressivas na vida das pessoas, o populista se coloca como a única alternativa capaz de derrubar o status quo e encarnar uma ação de mudança positiva, a partir da destruição da velha política.

Seu livro argumenta que a ascensão do populismo passou despercebida da maioria dos analistas do século XXI porque eles imaginavam que democracia e liberalismo seriam conceitos inseparáveis. Por que a distinção é importante?

Yascha Mounk: Para entender isso concretamente, é preciso distinguir a contribuição de cada uma dessas facetas da chamada democracia liberal. Uma qualidade fundamental desse arranjo é garantir que todo indivíduo tenha liberdade de decidir o que quer ou não quer falar, de escolher qual deus cultuar e de fazer o que bem entende na vida privada. E é a tradição do liberalismo político, que remete à Inglaterra da Revolução Gloriosa e ao modelo engendrado pelos fundadores da democracia americana, que nos dá garantias contra os abusos do Estado, inclusive dos governantes eleitos, e protege as minorias impopulares.

E o outro elemento da equação, a democracia em si?

Yascha Mounk: O voto é o que garante que tenhamos controle sobre nosso destino, em vez de deixar que algum ditador tome decisões por nós. Por muito tempo, democracia e liberalismo se harmonizaram no Ocidente, dando-nos a sensação de que seriam um só ente imutável. Mas o equilíbrio foi rompido quando os eleitores começaram a abraçar populistas que prometem resolver os problemas minando as salvaguardas institucionais e as proteções às minorias indesejadas. Isso nos coloca diante de um dilema:
* temos a opção de conter os instintos destrutivos das maiorias que se manifestam através do voto, por meio dos usuais contrapesos institucionais — ou
* suprimir os direitos de alguns para que essa mesma maioria imponha seu modo de pensar a todos.
DONALD TRUMP
Presidente dos Estados Unidos e megaempresário

O nacionalismo, que historicamente levou a impasses dessa natureza, voltou à pauta com a ascensão de líderes como Trump. Como lidar com o fenômeno?

Yascha Mounk: Como um europeu cuja família teve de fugir de seu país por causa da II Guerra, sei dos perigos do nacionalismo do século XX. É compreensível que várias gerações tenham preferido manter essa face da história enterrada. Mas não julgo realista ignorar a força do novo nacionalismo. Quando submetidas a certas pressões da sobrevivência, as comunidades humanas têm a tendência instintiva de reagir com força bruta — e, historicamente, o nacionalismo tem sido uma válvula de escape. O jeito certo de lidar com o nacionalismo é vê-lo como um animal semidomesticado que retornará ao estado selvagem se não o canalizarmos. Por que não usar os sentimentos nacionalistas para compor uma sociedade em que pessoas de diferentes fés e cores de pele possam conviver em paz, como sempre ocorreu no Brasil? A promessa da democracia multiétnica, na qual pessoas de todos os matizes sejam de fato iguais, é a única alternativa realista à tirania e à guerra civil. Mas, em vez disso, o discurso de populistas como Trump e Bolsonaro alimenta a besta do nacionalismo.

Um traço em comum entre Trump e Bolsonaro é culpar o que chamam de “globalismo” pelos males de suas nações. Por que o argumento se revela tão atraente?

Yascha Mounk: O ressentimento contra qualquer tipo de superioridade social, econômica ou intelectual é que impulsiona o populismo, e é disso que esses políticos extraem seu veneno contra a globalização. A ideia de que alguém de fora está drenando recursos e minando a cultura de seu país é poderosa. Daí, no entanto, a negar que a globalização traga certos problemas reais só estimula esse discurso. Abraçar o fim do Estado-nação em favor de uma ordem global, como querem certos filósofos e economistas, é uma abordagem errada. Para que a globalização continue a ampliar seu potencial emancipador, é preciso um ponto de equilíbrio. Os países têm de ter o controle de seu destino. Sem aceitarmos isso, só daremos combustível a políticos como Trump.

Por que a chamada correção política também é visada pelos populistas?

Yascha Mounk: Eis uma área em que, para recolocar o debate num eixo civilizado, será necessário superar as análises muito polarizadas, na linha do “é tudo ou nada”. Não podemos deixar de denunciar o fato de que, do Brasil à Austrália, a bandeira da luta contra a correção política nutre um discurso francamente racista, sexista e homofóbico. Ao mesmo tempo, contudo, muitas pessoas sentem sua liberdade de expressão cerceada: qualquer deslize de linguagem pode ferir suscetibilidades e sujeitá-las à execração pública, mesmo quando não há má intenção. Expande-se cada vez mais o rol de condutas e palavras tidas como inaceitáveis. O resultado do excesso é a reação feroz contra a correção política. O modo certo de combater a reação não é deixar de denunciar seu vizinho racista ou aceitar como normais os insultos de Trump. É combater o preconceito sem posar de guardião da moral absoluta — o que, de novo, só alimenta a ideia populista de que a correção política é uma arma da elite contra o cidadão comum.

Por decorrência, deve-se inferir que as chamadas políticas identitárias são equivocadas?

Yascha Mounk: Não há dúvida de que muitos grupos humanos sofrem pesadamente com a discriminação, e deve-se lutar contra tal injustiça. Mas há que enfatizar, sempre, que se está fazendo isso para promover a inclusão social de mais pessoas, não para separá-las em categorias que supostamente competirão com o resto da sociedade. Nisso, o velho ideal americano de que todos os homens são iguais traz um ensinamento. Devemos lutar pelos negros não porque eles são negros, mas por serem cidadãos como nós e merecerem seu lugar ao sol. Isso também se aplica ao Brasil, onde tantos indivíduos são desprovidos da cidadania plena por serem negros, pobres, mulheres ou gays. Trata-se de uma equiparação, não uma luta por privilégios.
JAIR BOLSONARO
Presidente do Brasil e capitão reformado do exército

Malhar os tuítes indecorosos de Trump virou esporte da imprensa americana, e Bolsonaro repete seus passos com manifestações consideradas desastrosas, como um vídeo obsceno postado no Carnaval. Esses lances minam ou melhoram a credibilidade?

Yascha Mounk: Nisso, há mais estratégia do que se pensa. Um dos objetivos dessas provocações é condenar não o ato em si, mas todo um grupo ou vertente política. Parece-me esse o caso do vídeo de Bolsonaro. Os populistas apanham da imprensa e da opinião pública de modo calculado: se por um lado muitos gastarão energia para criticá-los, parte considerável do público vai gostar dessa postura indomável. “Se os poderosos da imprensa e da política estão falando mal, é porque meu líder os incomoda”, pensam essas pessoas.

Advertência séria:

A bandeira do combate à CORRUPÇÃO foi decisiva para a eleição de populistas. A promessa é para valer?

Yascha Mounk: Ao contrário: com o tempo, regimes populistas tendem a ampliar a corrupção. Dados que coletei sobre governos populistas desde 1990 provam que a corrupção cresceu muito em todo lugar onde eles ascenderam ao poder. À medida que esses líderes impõem sua agenda de enfraquecimento das instituições, os políticos que lhes dão suporte entram em conluio com os interesses econômicos, drenando a riqueza para seus bolsos. Na Hungria, um amigo do premiê Orbán tornou-se bilionário graças à ajuda do governo. Da Venezuela à Polônia, a corrupção se multiplica.

Afinal, qual é a culpa das redes sociais na ascensão do populismo?

Yascha Mounk: As novas mídias permitiram aos populistas explorar medos de diversas fatias da população de forma customizada, além de disseminar ideias como o muro de Trump. Mas, como vocês viram no Brasil com Bolsonaro, as redes sociais servem especialmente de palanque para o líder populista vender sua maior mercadoria: a miragem da comunicação direta com o povo, sem intermediação dos políticos ou da imprensa. De certa maneira, é preciso admitir, eles expuseram uma demanda justa por maior participação democrática. O problema é que, uma vez no poder, invariavelmente tentam minar a própria democracia.

O que fazer para salvar a democracia?

Yascha Mounk: É necessário que os políticos, inclusive as forças antagônicas, se unam para fazer frente aos avanços populistas contra as instituições. Mas o mais importante é reformar essas mesmas instituições, para que se reconectem e tragam melhorias para a população. É pôr a casa em ordem para que o sistema político não apenas perpetue o status quo, mas traga prosperidade.

L I V R O

Título: O povo contra a democracia: Por que nossa liberdade corre perigo e como salvá-la
Autor: Yascha Mounk
Tradutores: Cássio de Arantes Leite e Débora Landsberg
Editora: Companhia das Letras (São Paulo)
Publicado: 25 de março de 2019
Preço de capa: R$ 79,90

Fonte: revista VEJA – Edição 2630 – Ano 52 – Nº 16 – 17 de abril de 2019 – Págs. 13-15 – Internet: clique aqui.

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