O machismo e a Bíblia
O fundamentalismo está presente
Ed René Kivitz
Pastor
da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo
O uso de textos
sagrados para reforçar comportamentos misóginos
deve ser rechaçado a
partir de uma leitura que considere
o contexto histórico
das Escrituras
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FÉ E IGUALDADE Feministas protestam contra o sexismo na religião: é hora de mudar a visão evangélica sobre a mulher (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil) |
Os equívocos
hermenêuticos da visão bíblica e teológica a respeito da mulher deveriam
ter ficado na poeira da história, mas ressurgiram com força no Brasil
contemporâneo — um reflexo de antigos ensinamentos fora de contexto propagados
em igrejas lideradas por homens e da mentalidade de setores evangélicos que ocupam a cada dia mais espaço no noticiário.
Intérpretes fundamentalistas defendem a
ideia de que os textos bíblicos exigem a subordinação total da mulher ao homem
ou, no mínimo, sendo a mulher casada, que ela deva ser submissa ao marido.
As passagens mais utilizadas para sustentar essa desigual
relação entre homem e mulher são extraídas dos escritos de São Paulo. Diz, por
exemplo, o apóstolo: “Vós, mulheres,
sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da
mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja” (Efésios 5,22-23), e “a mulher aprenda em silêncio, com toda a
sujeição. Não permito que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o
marido, mas que esteja em silêncio” (1 Timóteo 2,11-12). Interpretados fora de seu contexto
histórico e tomados como mandamentos literais, tais textos perpetuam a
estrutura patriarcal e machista das culturas que foram o berço da tradição
bíblica.
Os tempos
bíblicos, tanto do Velho quanto do Novo Testamento, eram absolutamente
masculinos. Dias difíceis para ser mulher. O mundo helênico onde viveu
o apóstolo Paulo não guardava o menor apreço pelo gênero feminino. Aristóteles acreditava que a mulher era “um
homem malfeito”. Seria destituída de alma racional e destinada apenas à
procriação. Platão e Sócrates citam um dito popular que encorajava os homens a
agradecer três bênçãos ao destino: ter nascido humano, e não animal; homem, e
não mulher; grego, e não bárbaro. Talvez daí tenha vindo a oração comum aos judeus dos dias de Jesus, que agradeciam a Deus o fato
de não terem nascido mulher, cachorro ou samaritano — isto é, miscigenado.
Por isso, o bom entendimento da Bíblia nos dias atuais exige que se leve em
conta o mundo em que ela foi escrita.
O apóstolo Paulo
é, na verdade, um injustiçado nessa matéria. Embora ainda limitado às tradições
de seu tempo, ele foi responsável por
grandes guinadas na maneira como a mulher passou a ser percebida e tratada.
É de sua pena também a expressão que demanda
que o marido ame a esposa como Cristo amou a Igreja (Efésios 5,22-33), conceito subversivo e revolucionário para
os ouvintes originais, de um período em que o cuidado com a mulher não se
mostrava uma prioridade. Em sua epístola de orientação ao jovem Timóteo,
Paulo trata da questão da relação homem-mulher, discorrendo a respeito dos dois
principais argumentos utilizados em sua época para afirmar a primazia do homem:
“Primeiro foi formado Adão, e depois Eva.
E Adão não foi enganado, mas sim a mulher, que, tendo sido enganada, tornou-se
transgressora” (1 Timóteo 2,13-14). Os dois argumentos fundamentais são o
princípio da ordem da criação — o homem foi criado primeiro — e o princípio da
ordem do pecado — a mulher foi enganada primeiro.
Ao voltarmos ao início da Bíblia, encontraremos no Gênesis a
ordem da criação acompanhada de versículos que, se lidos com a intenção de
exaltar o gênero masculino, reforçam a condição subalterna da mulher. “E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem
esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea” (Gênesis 2,18). As traduções
restringem a mulher aos papéis de “ajudadora
idônea (para o homem)”, “auxiliar que
corresponda (ao homem)”, “alguém que
ajude (o homem) como se fosse sua
outra metade”, “alguém que ajude e
complete (o homem)”. O acolhimento
literal e isolado desse relato reforça a noção de que a mulher foi criada por
causa do homem e está a serviço dele.
Não se deve
esquecer, entretanto, aquilo que diz o mesmo Gênesis, em seu primeiro capítulo,
versículos 26 e 27: “Então disse
Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele
sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda
a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão. Criou
Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”.
Ou seja: homem e mulher foram criados à
imagem de Deus — e em pé de
igualdade. Na ordem da criação, portanto, a relação homem-mulher
articula-se a partir de conceitos como a diversidade
e a complementaridade. A imago Dei — ou seja, a imagem de Deus — não repousa
exclusivamente no homem ou na mulher, mas na unidade humana; não foi
somente o homem criado à imagem e semelhança de Deus, mas toda a raça humana,
numa unidade indissociável entre
masculino e feminino.
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ED RENÉ KIVITZ Autor deste artigo |
Desde Eva, a mulher foi estigmatizada como causadora de
males. Uma ideia perigosíssima que, perpetuada, faz com que até hoje mulheres
sofram abusos e violências físicas. Basta ver os absurdos ditos por Tertuliano (160-220), o primeiro autor
cristão, chamado de “Pai da Igreja”: “Você,
mulher, é o portão de entrada do inferno; é a primeira desertora da lei divina.
Você destruiu, e de modo tão frívolo, a imagem de Deus, que é o homem. Como
consequência da sua deserção — isto é, a morte —, até mesmo o Filho de Deus
teve de morrer”.
É
imprescindível que líderes religiosos revejam a maneira como a mulher é tratada
dentro dos templos — até pelo impacto que suas pregações possam ter
sobre o destino delas fora das igrejas. A
síntese bíblico-teológica da equidade na relação homem-mulher é irrefutável.
Apesar de ter sido criado primeiro, o homem perpetua sua existência ao nascer
da mulher, e nisso se reafirma a interdependência de ambos — verdade
fundamental do Novo Testamento, outro conceito revolucionário de São Paulo (1
Coríntios 11,11-12). Machismo e
misoginia são heranças históricas, sociais e culturais sustentadas por
equivocadas tradições da interpretação bíblica e precisam ser urgentemente
rechaçadas, inclusive com a autoridade da própria Bíblia. O texto sagrado aponta sempre na direção da
superação de todas as injustiças e da afirmação de todos os seres humanos no
mesmo patamar de dignidade, como seres criados à imagem e semelhança de
Deus.
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