O que se espera do cristão, hoje?
Cristãos: o problema é a
insignificância,
não os números baixos
Domenico Agasso Jr.
Vatican
Insider
31-03-2019
O que se pede aos cristãos
católicos não é tanto o proselitismo,
mas o testemunho que
renda significativa e
transformadora a vida
do fiel
![]() |
PAPA FRANCISCO Em sua visita ao Marrocos, norte da África, março de 2019 |
A Igreja deve "entrar em diálogo" não por
"modismo", muito menos por "estratégia" para "aumentar
o número de membros". O problema
dos cristãos é a "insignificância, não os números baixos". O Papa
Francisco afirmou isso em seu encontro com os padres, religiosos e o Concílio
Ecumênico em seu segundo e último dia de visita
ao Marrocos. O Pontífice citou Bento XVI, lembrando que o crescimento eclesiástico acontece
"não por proselitismo, mas por atração".
Na catedral de Rabat,
ele enfatizou que "os cristãos são
um número pequeno neste país. Mas essa realidade não é, aos meus olhos, um
problema, embora eu reconheça que às vezes pode se tornar difícil de ser vivida
para algumas pessoas”. Francisco disse: "Sua situação me faz lembrar a
pergunta de Jesus: ‘Com o que se
assemelha o reino de Deus, com o que posso compará-lo? É semelhante ao
fermento, que uma mulher pegou e misturou a três medidas de farinha, até tudo
ficar levedado’".
Parafraseando as palavras "do Senhor, poderíamos nos perguntar: com o que se assemelha um cristão
nessas terras? Com o que o posso comparar? É semelhante a um pouco de fermento
que a mãe Igreja quer misturar com uma grande quantidade de farinha, até que
toda a massa seja fermentada". De fato, Jesus "não nos escolheu e nos enviou para nos tornarmos os mais
numerosos! Ele nos chamou para uma missão. Ele nos colocou na sociedade
como aquela pequena quantidade de fermento: o fermento das bem-aventuranças e do amor fraterno em que, como
cristãos, todos podemos nos encontrar para tornar presente o seu Reino”.
Isto significa que "nossa
missão como batizados, como sacerdotes, como pessoas consagradas, não é
determinada particularmente pelo número ou quantidade de espaço que ocupamos,
mas pela capacidade de gerar e despertar
mudança, assombro e compaixão"; e também pelo modo como "vivemos como discípulos de Jesus, no meio
daqueles com quem compartilhamos a vida cotidiana, as alegrias, as tristezas,
os sofrimentos e as esperanças".
Em outras palavras, os
caminhos da missão não passam "pelo proselitismo". Aqui ele citou
o papa emérito: "A Igreja cresce não por proselitismo, mas por atração,
por testemunho". Para Francisco o proselitismo "sempre leva a um beco
sem saída".
Portanto, o problema não é "ser em número
reduzido,
mas ser insignificantes,
tornar-se um sal que não tem mais o sabor do
Evangelho,
ou uma luz que não ilumina mais nada".
Bergoglio pensa “que a preocupação surge quando nós,
cristãos, somos atormentados pelo pensamento de sermos significativos apenas se
formos a massa e ocuparmos todos os espaços. Vocês sabem muito bem que
a vida é jogada com a capacidade que temos de "levedar" ali onde
estamos e com quem nos encontramos. Embora isso possa não levar aparentemente a
benefícios tangíveis ou imediatos". Porque ser cristão não é "aderir a uma doutrina, nem a um templo, nem a
um grupo étnico. Ser cristão é um encontro.
Somos cristãos porque fomos amados e encontrados e não fruto do proselitismo”.
![]() |
CATEDRAL DE SÃO PEDRO - RABAT - MARROCOS Local da pregação de Papa Francisco ao clero |
Francisco relembrou então "aquela palavra do Papa São
Paulo VI na Encíclica Ecclesiam suam:
‘A Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se
palavra, faz-se mensagem, faz-se colóquio’". Dizer que "a Igreja deve
entrar em diálogo não depende de uma moda, muito menos de uma estratégia para
aumentar o número de seus membros". Se
a Igreja deve entrar em diálogo é por fidelidade ao seu Senhor e Mestre que,
desde o início, movido pelo amor, quis entrar em diálogo como amigo e
convidar-nos a participar na sua amizade”.
Nesse espírito, "encontramos irmãos mais velhos que nos
mostram o caminho, porque com suas vidas eles testemunharam que isso é
possível, uma ‘medida alta’ que nos desafia e estimula. Como não lembrar a figura de São Francisco de Assis que, no auge da
cruzada, foi ao encontro do sultão al-Malik al-Kamil? E como não mencionar
o Beato Charles de Foucault que, profundamente marcado pela vida humilde e
escondida de Jesus em Nazaré, que adorava em silêncio, queria ser um ‘irmão
universal’? Ou ainda aqueles irmãos e irmãs cristãos que escolheram se
solidarizar com um povo a ponto de dar suas próprias vidas?".
Francisco falou de "um diálogo que se torna oração
e que podemos realizar concretamente todos os dias em nome da ‘fraternidade
humana’ que abraça todos os homens, os une e os torna iguais. Em nome dessa
irmandade dilacerada pelas políticas de integralismo e divisão e por sistemas
de ganhos desmedidos e tendências ideológicas odiosas, que manipulam as ações e
destinos dos homens", disse, retomando o "Documento sobre a fraternidade humana" assinado em Abu
Dhabi com o grande Imam de Al-Azhar em 4 de fevereiro. Uma oração "que não
distingue, não separa e não marginaliza, mas que se torna eco da vida do
próximo; oração de intercessão que é
capaz de dizer ao Pai: ‘venha o teu reino’. Não com a violência, não com ódio, nem com a supremacia étnica,
religiosa e econômica, mas com a força da compaixão derramada na Cruz por todos
os homens".
O Papa agradeceu a Deus "pelo que vocês fizeram, como
discípulos de Jesus Cristo, aqui no Marrocos, encontrando todos os dias no
diálogo, na colaboração e na amizade as ferramentas para semear o futuro e a
esperança. Assim vocês desmascaram e conseguem colocar em evidência todas as
tentativas de usar as diferenças e a ignorância para semear o medo, o ódio e o
conflito. Porque sabemos que o medo e o
ódio, alimentados e manipulados, desestabilizam e deixam nossas comunidades
espiritualmente indefesas”.
Para testemunhar "a presença permanente e duradoura de
pessoas consagradas no Marrocos" estava presente na Catedral de Rabat,
para se encontrar com o Papa, também a Irmã Ersilia Mantovani, franciscana
italiana de 97 anos que recentemente celebrou 80 anos de vida religiosa.
![]() |
PAPA FRANCISCO Em visita ao Centro Rural dos Serviços Sociais em Temara, Marrocos |
Antes do encontro religioso, no início de seu segundo dia no
Marrocos, despedindo-se da Nunciatura Apostólica, o papa Francisco chegou em
visita particular ao Centro Rural dos
Serviços Sociais de Temara, uma cidade na costa do Atlântico a 15 km ao sul
de Rabat. O Centro é dirigido pelas
freiras vicentinas e atua no setor social graças às religiosas e numerosos
voluntários, oferecendo diversos serviços à população local: alfabetização
para adultos; serviço escolar para os mais jovens; serviço de refeitório;
jardim de infância para crianças de 2 a 7 anos; ajuda psicológica para os mais
necessitados e cuidados médicos para os doentes, em particular para as vítimas
de queimaduras, que recebem o acompanhamento sanitário necessário.
Após a sua chegada, o Papa foi recebido na entrada pelas
quatro irmãs que trabalham no Centro e por duas crianças que lhe oferecem
flores como presente. Enquanto o Pontífice foi cumprimentar os pequenos
doentes, um coral de 150 crianças entoou um canto. Antes de deixar o Centro, o
Papa despediu-se das irmãs e dos voluntários e finalmente cumprimentou os pais
das crianças assistidas enquanto estas cantavam.
Traduzido do italiano por Luisa Rabolini.
Comentários
Postar um comentário