A profundidade da crise da Igreja
Não soubemos
discernir os “sinais dos tempos”
Jorge Costadoat
Teólogo jesuíta chileno
Esta
Igreja, em que a instituição eclesiástica não soube
discernir
no advento da modernidade um grande sinal dos tempos,
está
com graves problemas, justamente por
não
ter dialogado com a modernidade,
para
discernir outros sinais dos tempos e se somar
à
ação de Deus na história
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JORGE COSTADOAT padre e teólogo jesuíta chileno |
A crise dos abusos sexuais
do clero e de seu acobertamento não tem precedentes na história da Igreja
e, provavelmente, será recordada como a maior catástrofe depois das Guerras de
religião do século XVI, e quem sabe se depois do próprio cisma de Lutero.
Assim como estas rupturas, a
atual crise abarca muitos aspectos: Há vítimas que foram
crentes que deixaram de acreditar ou que, ao contrário, sua própria fé as levou
para frente. Há perpetradores que foram principalmente sacerdotes
que causaram danos devastadores para muita gente. Há uma instituição
eclesiástica que, para se defender das acusações que lhe são feitas,
fez de tudo para ocultar verdadeiros crimes e reage com enorme lentidão para
abordar o problema com a seriedade que se requer. Há também uma sociedade
estremecida que não deseja jamais que o clero lhe fale de sexo e que
dificilmente reconhecerá autoridade à hierarquia católica para que se refira a
outros temas.
A crise da Igreja, no
entanto, deve ser vista como uma guinada triste de mudanças culturais
extraordinariamente positivas para os vulneráveis e, em particular, para as
crianças e as mulheres. Nossa sociedade está em um processo de “conversão”
ao próximo que deve ser considerado como um importantíssimo crescimento em
humanidade.
Estamos diante de uma nova explicitação da convicção da
inviolabilidade da pessoa humana.
No entanto, para entender
esta grande crise é preciso ir mais longe ou se aprofundar em outros assuntos.
Por certo, esta é uma crise de toda a Igreja, ou seja, da institucionalidade
e das pessoas. A instituição eclesiástica, já há séculos, teve
grandes dificuldades para processar as conquistas da modernidade. Esta,
em meu parecer, é a principal causa da crise eclesial atual. A própria Igreja
não fez caso de sua condenação ao fideísmo (Concílio Vaticano I, 1870), heresia
que em termos populares pode a identificar com “a fé do carvoeiro”. A
hierarquia não pôde, nem quis integrar fé e razão, fé e ciência, e fé e cultura.
Tomemos dois exemplos:
1º) A institucionalidade na Igreja é a de uma
monarquia absoluta ao modo das monarquias bourbons. É governada por um Papa
eleito em vida. Ele próprio tem o poder de nomear a todos os bispos do mundo e
pedir conta de seus atos a 1,2 bilhão de católicos. A estrutura
institucional sabe pouco de divisão, de repartição
e de controle de poderes, de transparências e de accountability.
Um camponês católico da zona de San Fernando me dizia, há pouco, perplexo
diante do desempenho do clero: “Não se responsabilizam por nada”.
O caso chileno é ilustrativo.
Francisco repreende desafortunadamente os osorninos [= fiéis da diocese chilena
de Osorno] por não aceitarem a nomeação do bispo Barros. Depois, pede
perdão às vítimas por suas palavras talhantes em Iquique [Chile]. Em correção seguida,
em razão da gravidade da situação e dos muitos problemas, Francisco chama a
Roma os 31 bispos da Conferência Episcopal, pede a renúncia de todos igualmente
e os devolve ao país completamente desautorizados. Os bispos partiram
humilhados e voltaram humilhados. Na Catedral, Francisco lhes havia advertido
contra o flagelo do “clericalismo”. Mas, o Comitê Permanente dos bispos não
havia pedido ao Papa que não nomeasse a Barros?
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PAPA FRANCISCO discursa aos bispos do Chile, na Catedral de Santiago, a capital Dia 16 de janeiro de 2018 |
2º) Um segundo exemplo é de ordem doutrinal. O
caso da proibição do uso de meios artificiais de anticoncepção, há 50
anos atrás, com a encíclica Humanae vitae (1968) é tão emblemático
como a condenação a Galileu. O estamento eclesiástico patriarcal e
androcêntrico condenou as mulheres a ir, em nome da fé católica, contra sua
razão e seu sentido de responsabilidade. Para as católicas que não fugiram
em debandada da Igreja, esta as convida a confessar regularmente o pecado de
usar a “pílula”. Resultado: Há muito tempo que a instituição
eclesiástica não tem competência reconhecida para ensinar em matérias de
sexualidade, mas parece não se dar conta.
Em seu momento, Paulo VI fez
uma importante tentativa de diálogo com a modernidade. Formou comissões para
abordar o tema da contracepção. Delas participaram cardeais, bispos, padres,
teólogos, mas também leigos e leigas, especialistas em temas de família e
demografia. O Papa, no entanto, considerou o voto da minoria, que refletia a
opinião dos varões celibatários, entre estes o muito influente João Paulo II.
Em nosso caso chileno, então,
com que autoridade os bispos podem se opor à lei que permite o aborto em três casos,
se eles próprios, forçados pela encíclica, precisaram ensinar às mães que devem
ter tantos filhos quanto Deus queira lhes mandar? Nossa hierarquia eclesiástica
– é inevitável recordar – se opôs à lei de filiação das crianças nascidas fora
do matrimônio, às diretrizes do MINEDUC sobre a educação sexual nas escolas e
colégios (JOCAS), à lei do matrimônio civil que torna possível o divórcio, à
lei do acordo de vida em casal e à possibilidade de distribuir preservativos
para impedir a propagação da AIDS.
A doutrina da Humanae
vitae, que restringe a legitimidade dos atos sexuais àqueles abertos à
procriação, como é de imaginar, tem amarrado os pés e as mãos do próprio
magistério no momento de dizer uma palavra orientadora aos jovens que se
relacionam antes de se casar e às pessoas homossexuais.
Nestas circunstâncias, que
autoridade um sacerdote celibatário, que já não espera que valorizem seu voto
de castidade, pode ter hoje? Um sacerdote a quem a doutrina da Igreja não
convence nem a ele próprio? E que não sabe se relacionar com os leigos e as
comunidades, a não ser de um modo autoritário?
Esta Igreja, em que a
instituição eclesiástica não soube discernir no advento
da modernidade um grande sinal dos tempos, está com graves
problemas, justamente por não ter dialogado com a modernidade, para discernir outros sinais dos tempos e se somar à
ação de Deus na história.
Neste contexto, a hierarquia e também os pais e mães de família,
agentes
pastorais e catequistas têm hoje uma enorme dificuldade
para transmitir a fé às
gerações seguintes.
Como resultado desta grave
desconexão das autoridades eclesiásticas com a época, a Igreja sofre uma
profunda falta de comunicação entre seus dirigentes e os batizados e batizadas.
Como consequência de mudanças culturais múltiplas, imprevisíveis, globais e cada
vez mais aceleradas, os católicos vivem em duas velocidades:
* a da(s) cultura(s) atual(is) e
* a de uma tradição traída pelo tradicionalismo
de líderes representantes de um fideísmo institucionalizado.
Os leigos, e inclusive muitos
sacerdotes, anseiam um catolicismo de adultos,
diria Kant. Se a hierarquia eclesiástica não começar a aprender do esforço dos
fiéis em integrar fé e razão, se não basear seu ensinamento nesta experiência
espiritual, a melhor coisa que os católicos podem fazer é não lhe considerar. O
fideísmo é um erro que provoca dano.
À frente, os católicos
poderão avançar sozinhos com sua fé e seu sentido comum. Mas eles, e também os
sacerdotes, devem reconhecer que seu cristianismo, por causa do atrofiamento do
catolicismo romano, não tem entusiasmo, nem convicção, nem ideias, nem
perseguições, nem mártires. Sendo assim as coisas, o que fará a Igreja católica
ocidental e chilena para examinar, tão fragilizada como está, um dos maiores
sinais dos tempos na história da humanidade? Esta enfrenta a possibilidade
de desaparecer. O panorama do desastre ecológico é
assustador. Hoje, nada torna mais necessária a Igreja que o desafio da
sobrevivência de um planeta que, para os cristãos, é criação de Deus. Mas,
poderá a Igreja se repor e aceitar este desafio?
Parece-me que são duas as
condições que tornariam isso possível:
1º) que acabe de desmoronar esta figura de Igreja
monárquica impedida de processar as mudanças da vida humana, regida por
sacerdotes celibatários, incapaz de se reformar a si mesma, ao menos na
velocidade que se requer.
2º) que novas gerações de cristãos redescubram o Deus
de Jesus, que entendeu que o poder é para servir, que ensinou que o grande
se encontra no pequeno e que a fé autêntica coabita com a razão.
Entretanto, sempre é possível
o fundamental: viver o Evangelho no presente. Os cristãos podem, em tais
momentos, imaginar um mundo distinto e o construir com um amor inteligente. De
momento, a pirâmide eclesiástica lhes ajudará pouco ou nada. Contudo, isto não
pode ser uma desculpa. Sempre é possível viver sub specie aeternitatis.
Tampouco o panorama do cataclismo socioambiental pode lhes impedir de amar com
lucidez e esperar contra o pior dos prognósticos.
Traduzido do espanhol pelo Cepat. Acesse
a versão original do artigo, clicando aqui.
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