Sínodo dos Jovens – Papa publica sua exortação
“Christus Vivit” – Cristo
vive:
comentário e guia de
leitura da Exortação Apostólica pós-sinodal sobre os jovens
Rossano Sala
Padre salesiano, professor de Teologia Pastoral
na Pontifícia Universidade Salesiana de Roma
Giacomo Costa
Padre jesuíta, diretor da revista «Aggiornamenti Sociali»
AGGIORNAMENTI SOCIALI
02-04-2019
Foi
publicada nesta terça-feira, 2 de abril, a
Exortação
Apostólica pós-sinodal do Papa Francisco Christus Vivit,
que
apresenta, comenta e aprofunda os conteúdos da
XV
Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos,
realizada
em outubro de 2018 sobre o tema
“Jovens,
fé e discernimento vocacional”
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PAPA FRANCISCO assinando a Exortação Apostólica Pós-Sinodal "Christus vivit" Santuário de Loreto, Itália - 25 de março de 2019 |
No último dia 25 de março, o
Papa Francisco deixou o Vaticano para uma breve visita a Loreto: dentro da Casa
Santa - um lugar extremamente simbólico - ele assinou a Exortação
Apostólica pós-sinodal Christus vivit [doravante Christus vivit =
CV]. Dirigido aos jovens cristãos de todo o mundo e a todo o povo de Deus (CV
3), este documento representa mais um passo no caminho, iniciado em outubro de
2016, com o qual a Igreja vem se questionando sobre o tema "Jovens, fé
e discernimento vocacional". Um longo caminho preparatório, que
solicitou a contribuição de todas as Conferências Episcopais do mundo e
ofereceu várias oportunidades para ouvir diretamente a voz dos jovens,
conduziu, em outubro de 2018, à celebração da XV Assembleia Geral Ordinária do
Sínodo dos Bispos. Esta concluiu seus trabalhos com a aprovação de um Documento
Final [doravante DF], apresentado ao Pontífice e divulgado em vista à fase
de implementação que envolverá todas as Igrejas particulares.
Leia,
baixe e imprima Christus vivit na íntegra, em português,
clicando
aqui.
O
documento final da XV ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA DO SÍNODO
sobre
«OS JOVENS, A FÉ E O DISCERNIMENTO VOCACIONAL
está
acessível aqui.
Numa Igreja que considera o
ato de "fazer sínodo" ou, em palavras mais acessíveis, "caminhar
juntos" o seu próprio símbolo de identidade, o texto coloca-se
expressamente em continuação com todos os passos precedentes do percurso
sinodal e abre o caminho para realizar novos avanços.
Em particular, pode ser
entendida como uma releitura ponderada e dialógica,
de especial significado por sua autoridade, do Documento Final e do trabalho da
Assembleia da qual o Papa Francisco participou pessoalmente.
Isto é claramente afirmado
desde o começo, remetendo ao conjunto do DF, que é então assumido além das
várias passagens citadas textualmente e daquelas, bem mais numerosas, das quais
percebe-se um eco e um reproposição na Christus Vivit (CV):
"Deixei-me
inspirar pela riqueza das reflexões e diálogos do Sínodo do ano passado. Aqui
não poderei recolher todas as contribuições – podereis lê-las no Documento
Final –, mas procurei assumir, na redação desta carta, as propostas que me
pareceram mais significativas. Assim, a minha palavra será enriquecida por
milhares de vozes de crentes de todo o mundo, que fizeram chegar ao Sínodo as
suas opiniões. Mesmo os jovens não crentes, que quiseram participar com as suas
reflexões, propuseram questões que fizeram nascer em mim novos
interrogativos". (CV 4).
A tudo isso, o Papa Francisco
também combina os estímulos de numerosas Conferências Episcopais de todo o
mundo e alguns toques mais pessoais, que remetem à América Latina e a figuras
da Companhia de Jesus, como Pedro Arrupe e Alberto Hurtado. Nas páginas
seguintes, vamos oferecer uma primeira apresentação do conteúdo da CV.
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Exemplares da Exortação Christus vivit em espanhol e italiano |
1.
Um diálogo entre gerações
A CV começa expressando a intenção
de abrir um diálogo com os jovens e dentro dela alterna passagens em que se
dirige diretamente ao leitor e outras de discurso indireto. O Papa Francisco
não separa os jovens do resto da Igreja, mas através deles pretende dirigir-se
a todos os cristãos. Como a Assembleia do Sínodo tinha enfatizado com
força, os jovens são protagonistas do nosso tempo e membros ativos da Igreja,
não objeto de discursos que recaem sobre eles vindos de cima. As relações entre
as gerações são, portanto, fundamentais, partindo de uma profecia de Joel e do
trabalho da Assembleia do Sínodo (ver CV 192-201):
"Na
profecia de Joel, encontramos um anúncio que nos permite entender isto duma
maneira admirável. Diz assim: “Depois disto, derramarei o meu espírito sobre
toda a humanidade. Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos
anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões” (Jl 3,1; cf. At 2,17). Se
os jovens e os idosos se abrirem ao Espírito Santo, juntos produzem uma
combinação maravilhosa: os idosos sonham e os jovens têm visões. Como se
completam reciprocamente as duas coisas?" (CV 192).
De acordo com as modalidades
expressivas e comunicativas típicas de nosso mundo, o texto da CV não se
apresenta como um percurso estruturado, declarado no início e depois realizado
de maneira geométrica, mas alterna gêneros e modos de diálogo e argumentação.
Ao lê-lo, questionamo-nos
se o formato textual clássico escolhido para sua apresentação não estaria
restringindo-o e se a mensagem não resultaria facilitada pelo recurso às
tecnologias da comunicação multimídia hoje disponíveis, que permitem
articular uma pluralidade de linguagens, incluindo imagens e vídeos, e permitem
ao usuário mover-se até mesmo ao longo de trajetórias não lineares graças à
rede de links.
Trata-se de
potencialidades comunicativas que o magistério da Igreja não usou até agora, mas que seria bom começar a explorar para poder
alcançar com maior eficácia gerações cada vez mais numerosas que crescem em uma
cultura multimídia e não apenas na da palavra escrita.
Em todo caso, é um texto
"poliédrico", que articula uma pluralidade de abordagens e de
percursos dentro dele.
No entanto, uma segunda
leitura permite que aflore uma estrutura, que permanece delicadamente
subjacente e não se impõe, mas na qual o leitor pode se apoiar. Os nove
capítulos que compõem o texto podem ser agrupados de três em três. Parece
legítimo reconhecer nestes três blocos a divisão dos passos do
processo de discernimento:
* RECONHECER,
* INTERPRETAR,
* ESCOLHER,
sobre os quais havia se
articulado o trabalho da Assembleia sinodal e que serve de estrutura de
sustentação do DF, com o qual a CV se coloca constantemente em diálogo.
2.
Ouvindo a realidade
O primeiro bloco (capítulos 1
a 3) retoma o trabalho de escuta da realidade à qual a Assembleia
sinodal tinha se dedicado a partir dos materiais preparatórios para um
discernimento compartilhado. O objetivo é começar deixando espaço ao que emerge
quando a Palavra de Deus encontra os jovens e interage com as relações que eles
tecem entre si, dentro das famílias, das comunidades e das sociedades. Só assim
os eventos poderão desdobrar seu significado e oferecerão estímulos para um discernimento
que visa reconhecer a vontade de Deus não no abstrato, mas na concretude da
história e até da vida cotidiana.
O ponto de partida é,
portanto, a Palavra de Deus e, em particular, os muitos encontros de
jovens com o Senhor que ela narra (capítulo 1).
Contudo, não é apenas nas narrativas das Escrituras que Jesus encontra os
jovens; ele é Palavra viva, Aquele que torna novas todas as coisas, o eternamente
jovem (ver CV 13) pois "Ser jovem, mais do que uma idade, é um estado
do coração" (CV 34).
O segundo
capítulo entrelaça esta Palavra com as nossas vidas: em todas as
épocas, incluindo a nossa, é justamente o encontro com Jesus que ilumina a vida
dos jovens e de toda a Igreja, chamada a renovar-se continuamente para voltar
ao "seu primeiro amor" (CV 34) e assim conseguir entrar em contato
com os jovens em uma época em que muitos "não a consideram
significativa para a sua existência" e lhe pedem, aliás, que os deixe em
paz (ver CV 40, que retoma tanto DF 53, como IL 66).
Entre outras coisas, são
precisamente os jovens que podem "evangelizar" e ajudar a manter-se
jovem, a não cair na corrupção, a não se transformar em seita, a ser uma
testemunha autenticamente pobre e humilde:
São precisamente os jovens
que a podem ajudar a permanecer jovem, não cair na corrupção, não parar, não se orgulhar, não se transformar numa
seita, ser mais pobre e testemunhal, estar perto dos últimos e descartados,
lutar pela justiça, deixar-se interpelar com humildade (CV 37).
A juventude de Jesus e a
perene novidade do Evangelho manifestam-se vigorosamente na vida de Maria e na
dos muitos jovens capazes de alcançar a santidade; são assim recordados
jovens santos que viveram em todas as épocas da história, em todos os
continentes e em todas as culturas.
Somente neste ponto estamos
prontos para rever a situação dos jovens no mundo contemporâneo (capítulo 3): quanto mais o olhar é animado pela
confiança e pela esperança, mais ele pode permitir-se deixar que as sombras e
as dificuldades também apareçam. O objetivo do capítulo é evitar o risco de
pensar nos jovens de maneira abstrata ou estereotipada (positiva ou
negativa), para colocar no centro da atenção a sua vida real (CV 71), a
partir da enorme variedade das condições em que eles se encontram:
A juventude não é algo que se
possa analisar de forma abstrata. Na realidade, “a juventude” não existe; o
que há são jovens com as suas vidas concretas. No mundo atual, cheio de
progresso, muitas destas vidas estão sujeitas ao sofrimento e à manipulação (CV
71).
Além disso, foi justamente a
Assembleia do Sínodo que indicou como particularmente apropriada para o nosso
mundo, a possibilidade que algumas línguas têm de falar de
"juventude" no plural (ver DF 10 e CV 68). Do DF, a exortação retoma,
quase ao pé da letra, a abordagem de três situações que se colocam como
emblemas da condição dos jovens (e não apenas) no mundo de hoje.
1ª) a crescente penetração do ambiente digital,
com todas as suas potencialidades como oportunidade de encontro e diálogo, mas
também as suas sombras e seus riscos de manipulação e exploração (CV 86-90).
2ª) é a condição dos migrantes, autêntico paradigma
do nosso tempo e da condição dos crentes, que a Carta aos Hebreus define como "estrangeiros
e peregrinos" (CV 91-94).
3ª) a emergência dos abusos, com respeito aos
quais é reiterado, também com base no Encontro sobre "A proteção dos
menores na Igreja" (21-24 de fevereiro de 2019), a necessidade de
transparência, a impossibilidade de retroceder em matéria de medidas de
prevenção e na solicitação de que os jovens colaborem para transformar essa
crise em uma oportunidade de autêntica reforma da Igreja (CV 95-102).
Embora com foco em analisar a
realidade sociocultural, a intenção desta primeira seção permanece
profundamente espiritual: o objetivo não é acumular dados, mas apelar à
capacidade de chorar, isto é, à disponibilidade dos cristãos, da Igreja e
da sociedade de sentir em relação aos jovens, especialmente a aqueles que
sofrem violências e injustiças, sentimentos de autêntica maternidade (CV
75-76). Igualmente espiritual é a conclusão do terceiro capítulo, que
convida a ter esperança: os jovens – é apresentado o exemplo do servo de
Deus Carlo Acutis (CV 104-106) – têm os recursos da criatividade para habitar o
nosso mundo sem se deixarem esmagar pelas suas contradições e a elas o Papa
Francisco apela. Cabe às Igrejas locais aprofundar a análise do mundo
juvenil de cada território, para preparar as linhas pastorais mais
adequadas (CV 103).
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AULA DO SÍNODO Papa Francisco está ao centro, de costas, em vestes brancas O sínodo sobre os jovens e a vocação concluiu-se no dia 28 de outubro de 2018 Vaticano |
3.
No coração do texto
O segundo bloco de três
capítulos representa o coração e o fulcro de toda a exortação, que também
justifica seu título. Para cada jovem, nas circunstâncias concretas em que
se encontra, a Igreja não tem mais nada a oferecer senão o encontro com aquele
Deus vivo que ela continua a experimentar como amor, como salvação e como
fonte de vida, sabendo que será este encontro a desdobrar novas
possibilidades de orientação para a vida de cada um, isto é, tornar-se
chamado e vocação.
O objetivo dos três capítulos
é fazer emergir - este é o coração de um verdadeiro e próprio caminho de
discernimento - qual é o dinamismo que coloca em movimento uma resposta
autêntica ao desejo de vida que a juventude traz consigo e que o Senhor não
quer apagar, ou ao contrário, o que é um engano que manipula e escraviza.
No quarto
capítulo, o Papa Francisco começa referindo-se diretamente, na segunda
pessoa, a cada jovem o anúncio que vem da fé: Deus te ama; Jesus Cristo te
salva, está vivo e quer que tu vivas; Ele está sempre contigo e não te
abandona! Ao dar corpo com simplicidade e profundidade a essas frases, ele
mostra concretamente o que significa pôr em prática o n. 133 do DF, que
reiterava a centralidade do "anúncio de Jesus Cristo, morto e
ressuscitado, que nos revelou o Pai e doou o Espírito" como um dom
irrenunciável a ser oferecido aos jovens e como isso também seja
intrinsecamente um chamado que sacode e convida a colocar em jogo a própria
liberdade.
Esse apelo apaixonado para
entrar numa autêntica relação de salvação e de amizade oferece a
perspectiva dentro da qual considerar os itinerários dos jovens e as decisões
que são chamados a tomar, desde aquelas ligadas ao compromisso profissional,
social e político, até as que dizem respeito. a configuração geral da
existência (capítulo 5):
Como
se vive a juventude, quando nos deixamos iluminar e transformar pelo grande
anúncio do Evangelho? Trata-se duma pergunta importante que devemos nos colocar,
pois a juventude não é motivo de que possamos vangloriar-nos, mas um dom de
Deus: “Ser jovem é uma graça, uma ventura”. É um dom que podemos malbaratar
inutilmente ou recebê-lo agradecidos e vivê-lo em plenitude (CV 134).
Reaparecem nessa página
expressões caras ao papa Francisco e às quais recorre com frequência quando se
dirige aos jovens: a importância de ousar arriscar, de agir mesmo à
custa de cometer erros, em vez de ficar na sacada ou no sofá. Os
jovens que têm em mente o Papa Francisco são aqueles capazes de sair às ruas
para pedir um mundo mais justo, tornando-se protagonistas da mudança:
"Os
jovens nas ruas; são jovens que querem ser protagonistas da mudança. Por
favor, não deixeis para outros o ser protagonista da mudança! Vós sois
aqueles que detêm o futuro! Através de vós, entra o futuro no mundo. Também
a vós, eu peço para serdes protagonistas desta mudança. Continuai a vencer a
apatia, dando uma resposta cristã às inquietações sociais e políticas que estão
surgindo em várias partes do mundo. Peço-vos para serdes construtores do
futuro, trabalhai por um mundo melhor" (CV 174).
No entanto, este convite
exige que os jovens não caiam em uma armadilha que o mundo lhes propõe:
* cortar os laços com as próprias raízes e
* a experiência daqueles que os precederam (capítulo 6). Isso os
tornaria mais fracos, mais expostos à massificação e à manipulação.
Por isso, a proposta do
Papa Francisco é aquela da complementaridade e do diálogo entre gerações, projetando a experiência dos Padres Sinodais para um
nível universal: "neste Sínodo experimentamos que a corresponsabilidade
vivida com os jovens cristãos é fonte de profunda alegria também para os
bispos. Nesta experiência reconhecemos um fruto do Espírito que renova
continuamente a Igreja" (DF 119).
O convite a arriscar é então
dirigido não apenas aos jovens, mas a todas as gerações juntas. A perspectiva
"sinodal" reaflora com força e determinação: somente se jovens e
idosos caminham juntos podem criar raízes no presente e, a partir deste,
voltar-se para o passado para curar suas feridas e projetar-se no futuro. A
imagem é aquela fornecida durante o Sínodo por um jovem das Ilhas Samoa: a
Igreja como canoa viajando no oceano, que pode alcançar a meta somente se os
anciãos, que conhecem as estrelas, mantêm o curso, e os jovens, com o seu
vigor, empurram os remos (ver CV 201).
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JOVENS DE TODO O MUNDO PROTESTARAM CONTRA A APATIA DOS GOVERNOS DO MUNDO EM TOMAR MEDIDAS CONCRETAS PARA SALVAR O PLANETA DO AQUECIMENTO Dia 15 de março de 2019 |
4.
Perspectivas de compromisso
O bloco formado pelos três
últimos capítulos busca identificar as perspectivas de implementação do que
foi focado anteriormente: tanto os jovens quanto as comunidades eclesiais
são chamados a escolhas concretas.
O capítulo
7 é apresentado como particularmente denso: pode ser melhor compreendido
a partir dos materiais do processo sinodal, aos quais remete explicitamente,
mesmo que em alguns casos apenas através de simples acenos. O desafio de
"arriscar juntos", formulado na conclusão da parte precedente, é
retomado e transformado na necessidade de uma pastoral estruturalmente
sinodal, fundada na valorização dos carismas que o Espírito concede a cada
um e numa dinâmica de corresponsabilidade.
A pastoral
juvenil só pode ser sinodal, ou seja, capaz de dar forma a um
“caminhar juntos” que implica “a valorização – através dum dinamismo de
corresponsabilidade – dos carismas que o Espírito dá a cada um dos membros [da
Igreja], de acordo com a respectiva vocação e missão. (…) Animados por este
espírito, poderemos avançar para uma Igreja participativa e corresponsável,
capaz de valorizar a riqueza da variedade que a compõe, acolhendo com
gratidão também a contribuição dos fiéis leigos, incluindo jovens e
mulheres, a da vida consagrada feminina e masculina e a de grupos,
associações e movimentos. Ninguém deve ser colocado nem deixado colocar-se
de lado” (CV 206).
Para a Igreja trata-se de
um verdadeiro caminho de conversão,
que a tornará mais acolhedora e participativa, podendo assim evangelizar
graças à força das relações de que é tecida. Em uma Igreja não mais monolítica,
mas poliédrica (ver CV 207), espaços de protagonismo se abrirão para os
jovens e também para as mulheres, a cuja condição CV dedica palavras de
inequívoca clareza, quando, no n. 42, tinha reconhecido a legitimidade das
reivindicações de igualdade e o legado histórico de formas de dominação
masculinas.
A capacidade de
inclusão é a chave da proposta pastoral apresentada neste capítulo e insiste sobre a obsessão em transmitir as
verdades doutrinárias (ver CV 212). As comunidades cristãs são convidadas a
oferecer espaços de acolhimento sem muitas barreiras, e às escolas
católicas pede-se que não se tornem bunkers em defesa dos erros da cultura
externa, impermeáveis à mudança (ver CV 221).
Os parágrafos dedicados à "pastoral
juvenil popular" (CV 230-238) são especialmente estimulantes: partem
do reconhecimento de que os lugares tradicionais da pastoral (igrejas, centros
de juventude, escolas, associações, movimentos) são capazes de ir ao encontro
das exigências de uma determinada parte do mundo juvenil, mas inevitavelmente
excluem outras. Aqueles que professam outras crenças ou se declaram
não-religiosos, e aqueles que por muitas razões são marcados por dúvidas,
traumas ou erros, teriam dificuldade para se integrar na
pastoral ordinária, mas não por isso têm menos necessidade de encontrar
portas abertas e de serem apoiados para realizar o bem possível.
Os dois últimos capítulos
abordam os temas da vocação e do discernimento de maneira concreta e
mais explícita, com base no título da Assembleia sinodal. O capítulo 8 apresenta a vocação em seu significado
fundamental de chamado à amizade com Jesus e de participação
da obra de criação e redenção de Deus, que se realiza no serviço
aos outros (CV 253-258). Precisamente o serviço aos outros é o
horizonte dentro do qual colocar as duas questões que mobilizam a maioria
dos jovens.
1ª) a do amor e a formação de uma nova família (CV
259-267), em que explicitamente se remete à exortação apostólica pós-sinodal
anterior Amoris laetitia, sem esconder a beleza e a dificuldade da
perspectiva conjugal e acrescentando, com base nos trabalhos sinodais,
também algumas palavras dedicadas aos solteiros. Sempre da Amoris laetitia,
também é reafirmada a concepção da sexualidade como um autêntico dom de Deus
e não como tabu, uma experiência de amor e geração (cf. CV 261).
2ª) o do trabalho (CV 268-273). É por isso que o
desemprego e as várias formas de exploração representam uma ameaça para a
sociedade e uma emergência na qual a política tem o dever de intervir. Com
relação ao tema das vocações sacerdotais e religiosas, o convite
dirigido aos idosos é de ousar propô-las como possibilidade; aquele para os
jovens é de não descartar a eventualidade a priori, mantendo-se livres e
atentos à voz do Espírito.
Para o tema específico do discernimento
vocacional, ou seja, a capacidade de reconhecer para o que o Senhor chama
cada um, é dedicado o capítulo 9. Dirigindo-se
diretamente aos jovens, o Papa Francisco lembra que se trata de um caminho
exigente que requer disposição para assumir um risco: só assim, será
possível identificar aquilo pelo qual vale a pena colocar a própria vida sem se
contentar em avaliar perspectivas de carreira ou ganhos. Trata-se, de fato, de passar
para a dimensão do dom, recebido e retribuído, e para a liberdade
que disso decorre. Justamente dessa gratuidade são chamados a serem
testemunhas aqueles que acompanham os jovens em um processo de discernimento
vocacional, com atenção para uma escuta profunda, levando a pessoa a
sério, o que ela diz, e também valorizando seus impulsos vitais (ver CV 291-295).
Os acompanhantes podem ser sacerdotes ou religiosos, bem como leigos,
profissionais ou até mesmo outros jovens (ver CV 291): o importante é que
saibam escutar, apresentar perguntas e suscitar processos sem pensar em
determinar a trajetória que cada um, livremente, julgará ser chamado para
seguir.
* * * * *
A pena apaixonada do Papa
Francisco - que viveu todo o processo sinodal, compartilhou-o inteiramente
e selou-o através do texto da CV - não conclui sua abordagem com um fechamento,
mas como sempre de forma aberta e envolvente. Ele pede aos jovens que se
manifestem, não se retraiam. Não teme forçá-los a serem os abre-alas da
Igreja do terceiro milênio:
"Queridos
jovens, ficarei feliz vendo-vos correr mais rápido do que os lentos e
medrosos. Correi “atraídos por aquele Rosto tão amado, que adoramos na
sagrada Eucaristia e reconhecemos na carne do irmão que sofre. O Espírito
Santo vos impulsione nesta corrida para a frente. A Igreja precisa do vosso
ímpeto, das vossas intuições, da vossa fé. Nós temos necessidade disto! E
quando chegardes aonde nós ainda não chegamos, tende a paciência de esperar por
nós” (CV 299).
É outra maneira, desta vez
mais pessoal e afetuosa, de repetir aos jovens o que lhes foi dito com a mesma
paixão pelos Padres sinodais: ser como João que se antecipa a Pedro
na sepultura e depois aguarda-o com paciência e respeito (ver 24 DF 66); ser
como Madalena, "a primeira discípula missionária, a apóstola dos
apóstolos" (DF 115); ser como os dois discípulos de Emaús,
que escolhem regressar com entusiasmo ao coração da comunidade para partilhar a
alegria do Evangelho.
Imagens de ressurreição,
imagens do futuro, imagens que nos fazem sonhar, esperar, amar. E, acima de
tudo, que nos colocam em movimento.
O que fazer a partir
do Sínodo?
Após a envolvente leitura da
CV, surge espontaneamente a pergunta prática, que, aliás, é também evangélica: "O
que devemos fazer?" (Lc 3,10). É uma questão mais do que legítima,
perguntar a si mesmo como prosseguir concretamente no caminho. É também uma
questão que, diante do texto, também poderia nos colocar em dificuldades. Com
efeito, a CV, embora extremamente rica em ideias, não contém as indicações
operacionais que muitos esperavam para prosseguir o processo de implementação
do Sínodo. É uma dinâmica que não deveria surpreender em um texto do Papa
Francisco, que faz da renúncia em ministrar instruções a partir do alto
e do convite a cada um para assumir sua própria parte de responsabilidade
um emblema de seu ministério.
Em 10 de novembro de 2015,
ele tinha se dirigido ao Congresso da Igreja italiana de Florença com palavras,
sob vários aspectos, paradigmáticas: "Mas então o que devemos fazer,
padre? - vocês diriam. O que o papa está nos pedindo? Cabe a vocês decidir:
povo e pastores juntos. Hoje eu simplesmente vos convido a levantar a
cabeça e contemplar mais uma vez o Ecce Homo que temos sobre nossas
cabeças”. Na CV, o Papa Francisco convida-nos a contemplar o Cristo vivo
que age na história e pede a nossa colaboração e a nossa sinergia com as jovens
gerações para frequentar o futuro com elas. Em Florença, isso também tinha sido
pedido aos jovens:
Lanço
um apelo sobretudo “a vós, jovens, porque sois fortes”, dizia o Apóstolo João
(cf. 1 Jo 1, 14). Jovens, superai a apatia. Que ninguém despreze a
vossa juventude, mas aprendei a ser modelos no falar e no agir (cf. 1 Tm 4,
12). Peço-vos que sejais construtores da Itália, que vos coloqueis ao trabalho
por uma Itália melhor. Por favor, não olheis da varanda da vida, mas
comprometei-vos, imergi-vos no amplo diálogo social e político. As mãos da
vossa fé se ergam ao céu, mas façam-no enquanto edificam uma cidade
construída sobre relações nas quais o amor de Deus é o fundamento. E assim
sereis livres para aceitar os desafios de hoje, para viver as mudanças e as
transformações.
Está claro, portanto, que não
estamos sendo solicitados a "aplicar" indicações magistrais
vinculantes. O âmbito pastoral nunca é aplicativo, mas é sempre um espaço de
discernimento, isto é, de fidelidade criativa. E em um período de
mudança de época como o nosso, essa capacidade de imaginar juntos a renovação
torna-se cada vez mais decisiva.
Aqui estão algumas ideias
simples para continuar o caminho nessa direção. Sentimos a necessidade de chamar a atenção de todos
os leitores sobre quatro dinâmicas.
Quatro dinâmicas a
seguir
1.
Ficar enraizados no caminho sinodal
A primeira coisa importante é
não começar do zero toda vez, como se nada tivesse acontecido antes da CV. O
Papa Francisco está muito atento ao fato que somos povo de Deus, que a vida da
Igreja é uma verdadeira experiência de fraternidade, uma caravana de
solidariedade, uma peregrinação sagrada, uma comunidade em caminho (ver Evangelii
gaudium, n. 87 e CV 29). Todo o capítulo 6 da CV convida os jovens a não
perderem suas raízes, a se reconhecerem como pequenos anões nos ombros de
gigantes. Isso também se aplica à Igreja como um todo e também para o
caminho que percorremos.
A sinodalidade indica essa capacidade
de se inserir com respeito e humildade em um caminho de povo que começou antes
de nós e continuará depois de nós. Por essas motivações tão importantes, é
significativo escutar desde o início da CV a referência metodológica decisiva
segundo a qual “deixei-me inspirar pela riqueza das reflexões e dos diálogos
do Sínodo do ano passado. Não poderei recolher aqui todas as contribuições, que
vocês poderão ler no Documento Final, mas procurei assumir, na redação desta
carta, as propostas que me pareceram mais significativas" (CV 4).
Também no que se refere especificamente à renovação
da pastoral juvenil, no início do capítulo 7, o Papa Francisco nos
oferece a seguinte reflexão:
"No
Sínodo, surgiram muitas propostas concretas para renovar a pastoral juvenil e
libertá-la de esquemas que já não são eficazes, porque não entram em diálogo
com a cultura atual dos jovens. Como se compreende, não poderia reuni-las
todas aqui; entretanto é possível encontrar algumas delas no Documento Final do
Sínodo" (CV 208).
Na mesma linha, os Padres
Sinodais consideraram oportuno criar uma conexão decisiva entre o Documento
Final e o Instrumento de Trabalho, afirmando que:
"É
importante elucidar a relação entre o Instrumento de Trabalho e o Documento
final. O primeiro é o quadro de referência unitário e sintético que
sobressaiu depois de dois anos de escuta; o segundo é o fruto do discernimento
realizado e contém os núcleos temáticos generativos, sobre os quais os Padres
sinodais se concentraram com particular intensidade e paixão. Portanto, reconhecemos
a diversidade e a complementaridade destes dois textos (DF 3)".
O que tudo isso significa
para nós? Que um Documento produzido durante o caminho sinodal não é
engolido, superado ou eliminado pelo seguinte, mas sim é enriquecido e
aprofundado. O sucessivo se insere na sequência do anterior oferecendo-lhe
luz, profundidade e amplitude. Trata-se de um organismo único que se desenvolve
a partir de dentro e que, em todos as fases de seu crescimento, mostra algo
específico que não podemos e não devemos perder, da mesma forma que ocorre na
experiência humana (ver CV 160).
Se pensarmos apenas que o Instrumento
de Trabalho é o resultado da análise de uma escuta que produziu cerca
de 20.000 páginas, não podemos facilmente relegá-lo atrás dos bastidores. Na
realidade, na Aula sinodal foi apreciado por todos e retomado em muitas de suas
partes, reconhecido como um quadro de referência atualizado e preciso.
Valeria a pena, pelo menos,
tentar seguir a lista daqueles que são chamados em causa e as referências
indicadas, partindo das propostas concretas que surgiram durante o Sínodo (e,
portanto, através da reflexão dos Padres sinodais), reunidas no DF que seria
impossível replicar aqui. Com um olhar atento, encontramos cerca de noventa
entre recomendações, sugestões e propostas contidas no DF que dizem respeito a
temas, estilos e âmbitos. Muitos outros estão presentes no Instrumento
de Trabalho. Apenas algumas delas são retomadas e relançadas na CV, mas todas
deveriam ser objeto de cuidadoso discernimento eclesial em vários níveis.
Para baixar, ler e imprimir o «Instrumento de Trabalho»
preparatório ao Sínodo sobre a Juventude e Vocações,
clique aqui.
2.
Assumir o hábito do discernimento
E assim passamos à segunda
instância. Ou seja, para aquela do discernimento. Desde o início, no CV fala-se
de "discernimento eclesial" (CV 3). E o último capítulo, o
nono, é completamente dedicado a este tema. Portanto, é lógico pensar que seja
um tema de grande interesse. Não apenas em nível pessoal, mas também do ponto
de vista eclesial, vale a ideia de que "sem a sabedoria do
discernimento, podemos nos transformar facilmente em marionetes à mercê das
tendências da ocasião" (CV 279). A capacidade de discernimento nos
torna pessoas diante de Deus, sujeitos ativos na Igreja e parte viva do mundo.
E também é evidente que, tanto do ponto de vista pessoal como comunitário, "o
discernimento se torna um instrumento de compromisso forte para seguir melhor o
Senhor" (CV 295). O discernimento, se levado a sério, certamente liberta
a Igreja de duas tentações tanto opostas quanto próximas:
"Peçamos
ao Senhor que liberte a Igreja daqueles que querem envelhecê-la, ancorá-la
ao passado, travá-la, torná-la imóvel. Peçamos também que a livre doutra
tentação: acreditar que é jovem porque cede a tudo o que o mundo lhe oferece,
acreditar que se renova porque esconde a sua mensagem e mimetiza-se com os
outros" (CV 35).
No processo sinodal partimos
da necessidade de ajudar os jovens no seu discernimento vocacional e aos poucos
percebemos que a própria Igreja estava em certo sentido em "dívida de
discernimento": não podendo discernir, a Igreja não tem a possibilidade
de ajudar os jovens a fazê-lo. Entrar nas dinâmicas e no processo de
discernimento tornou-se assim uma necessidade eclesial. Houve a exigência de
compreender, aprofundar, esclarecer e praticar o discernimento na forma de um
caminho compartilhado, que depois se tornou estilo sinodal. Como o Santo Padre
nos disse em 3 de outubro de 2018,
"O discernimento
não é um slogan publicitário, não é uma técnica organizativa, nem uma moda
deste pontificado, mas um procedimento interior que se enraíza num ato de fé.
O discernimento é o método e, simultaneamente, o objetivo que nos propomos: baseia-se
na convicção de que Deus atua na história do mundo, nos acontecimentos da vida,
nas pessoas que encontro e me falam. Por isso, somos chamados a colocar-nos
à escuta daquilo que nos sugere o Espírito, segundo modalidades e direções
muitas vezes imprevisíveis.
O "método de
discernimento" orientou, portanto, o processo sinodal a partir de dentro. Era importante reconhecer que o "sujeito
jovens" e o "sujeito Igreja" se encontravam na mesma situação:
não apenas os jovens devem discernir para alcançar sua vocação, mas também a
Igreja deve fazer isso para viver com sabedoria e prudência em nosso tempo. Por
esta razão, as muitas indicações sobre o discernimento produzidas durante todo
o caminho sinodal são, em certo sentido, "intercambiáveis": o que
é dito para os jovens se aplica à Igreja e vice-versa.
É oportuno assinalar, sobre o
tema do discernimento e do acompanhamento, a implicação mútua entre nível
pessoal e nível comunitário. Disso aflorou a convicção que:
"O
horizonte comunitário é suposto sempre em todo o discernimento, que nunca se
pode reduzir à mera dimensão individual. Ao mesmo tempo, todo o
discernimento pessoal interpela a comunidade, instando-a a colocar-se à
escuta daquilo que o Espírito lhe sugere através da experiência espiritual dos
seus membros: a própria Igreja, como cada crente, vive sempre em
discernimento (DF 105).
No centro há a Igreja como
casa e escola do acompanhamento e como ambiente adequado para o discernimento. A
Igreja é chamada a resplendecer primeiro e acima de tudo como espaço
e lugar de comunhão e só assim pode ser significativa para os jovens
que a ela pertencem. O todo é teologicamente motivado, porque "tal
serviço constitui simplesmente a continuação do modo como o Deus de Jesus
Cristo age em relação ao seu povo: através duma presença constante e cordial,
duma proximidade dedicada e amorosa e duma ternura sem limites” (DF 91).
3.
Reativar o protagonismo juvenil
Partindo do caminho sinodal
em curso e da necessidade de nos imergirmos com convicção no ritmo do
discernimento, entramos no espaço de responsabilidade que somos chamados a
assumir. É evidente que a corresponsabilidade eclesial só pode acontecer a
partir de uma consciência clara das próprias responsabilidades pessoais: nesse
sentido, é preciso "dividir para poder unir", ou seja, entender o
que somos chamados a fazer pessoalmente para poder fazê-lo juntos. A CV
oferece a todos um apelo claro e direto à responsabilidade pessoal: de todo
jovem e de todo crente. A forma coloquial da carta segue precisamente nessa
direção precisa.
Vamos partir dos jovens. As indicações que surgem no capítulo 5 da CV são
muito fortes e até entusiasmantes, pedindo para tornar efetivo o encontro com
Cristo, de que se fala no capítulo 6. Se tal encontro é real, traz consigo
consequências de amplo alcance para a vida de cada jovem:
"Como se
vive a juventude, quando nos deixamos iluminar e transformar pelo grande
anúncio do Evangelho? Trata-se duma pergunta importante que devemos nos
colocar, pois a juventude não é motivo de que possamos vangloriar-nos, mas
um dom de Deus: “ser jovem é uma graça, uma ventura”. É um dom que podemos
malbaratar inutilmente ou recebê-lo agradecidos e vivê-lo em plenitude (CV
134).
O caminho indicado é o de:
* não ceder diante dos próprios sonhos e ideais;
* alimentar o próprio desejo através do confronto com a
vida real;
* entrar profundamente na amizade com Cristo;
* amadurecer escolhas de fraternidade, de compromisso
político e social.
Todos os jovens são
convidados a se envolverem pessoalmente,
sem ficar paralisados pelo medo de errar, ou esmagados pelas pressões e
manipulações dos interesses econômicos. Melhor uma queda saudável do que a
imobilidade paralisante. Este é o caminho da alegria, porque "Deus
ama a alegria dos jovens e os convida especialmente àquela alegria que é vivida
em comunhão fraterna, àquela felicidade superior daqueles que sabem
compartilhar, porque "há mais felicidade em dar do que em receber”
(Atos 20,35) e "Deus ama quem dá com alegria!” (2 Cor 9,7)” (CV 167).
E aquele protagonismo que os
jovens mostram desejar se transforma em um instrumento de ação pastoral e
missionária, porque ninguém está mais apto a anunciar o Evangelho aos jovens
do nosso tempo do que seus pares que já encontraram o Senhor, tanto que vocação
e missão aqui se saldam de maneira frutífera:
Quero
encorajar-te a assumir este compromisso, porque sei que “o teu coração,
coração jovem, quer construir um mundo melhor. Acompanho as notícias do
mundo e vejo que muitos jovens, em tantas partes do mundo, saíram para as ruas
para expressar o desejo de uma civilização mais justa e fraterna. Os jovens
nas ruas; são jovens que querem ser protagonistas da mudança. Por favor, não
deixeis para outros o ser protagonista da mudança! Vós sois aqueles que
detêm o futuro! Através de vós, entra o futuro no mundo. Também a vós, eu peço
para serdes protagonistas desta mudança. Continuai a vencer a apatia, dando uma
resposta cristã às inquietações sociais e políticas que estão surgindo em
várias partes do mundo. Peço-vos para serdes construtores do futuro,
trabalhai por um mundo melhor. Queridos jovens, por favor, não ‘olheis da
sacada’ a vida, entrai nela. Jesus não ficou na sacada, mergulhou… Não
olheis da sacada a vida, mergulhai nela, como fez Jesus”. Mas sobretudo,
duma forma ou doutra, lutai pelo bem comum, sede servidores dos pobres,
sede protagonistas da revolução da caridade e do serviço, capazes de resistir
às patologias do individualismo consumista e superficial (CV 174).
Por outro lado, a vocação
é sempre uma missão: nunca é a resposta para a pergunta "Quem sou
eu?", mas um apelo muito mais radical para "Para quem sou
eu?" (Ver CV 286 e DF 69). É a pergunta que caracteriza um jovem
em saída que se abre para a vida, para o mundo, para os outros. Que não
tem medo da realidade e busca sua vocação.
Por esta razão, não só a
pastoral juvenil como um todo, mas toda a pastoral tem uma natureza
vocacional e missionária. Se partirmos desses pressupostos, efetivamente
"devemos pensar que toda a pastoral é vocacional, toda a formação é
vocacional e toda a espiritualidade é vocacional." (CV 254). É uma
afirmação repleta de consequências, que incorpora com grande potencialidade
e incisividade as indicações presentes no Instrumento de Trabalho
números 100 e 210, e, principalmente, no DF nos números 139 e 140. Juntos,
diz-se com igual clareza que “a pastoral juvenil deve ser sempre uma
pastoral missionária” (CV 240). Quando é verdadeiramente vocacional, a
pastoral juvenil só pode se tornar missionária. E vice-versa: quando é
verdadeiramente missionária, a pastoral juvenil só pode se tornar vocacional.
Serviço generoso e discernimento vocacional se sustentam ou caem juntas!
4.
Realizar caminhos sinodais
A questão inicial a
partir da qual começamos foi "O que devemos fazer?", mas, na
realidade, essa pergunta aos poucos foi se modificando. A partir da
concentração no trabalho organizacional, o percurso sinodal nos pede para
verificarmos os nossos estilos relacionais e sobre a qualidade dos
nossos caminhos comunitários. Somos solicitados a passar do fazer para
o ser: a nova pergunta é "Quem somos chamados a
ser?"
"Os Padres sinodais
compreenderam claramente a necessidade desta mudança quando pensaram na
centralidade da "sinodalidade missionária" como o coração da desejada
renovação eclesial, porque estamos cientes de que...
... não se trata
unicamente de dar origem a novas atividades, nem queremos
redigir “planos apostólicos expansionistas, meticulosos e bem traçados,
típicos de generais derrotados” (Francisco, Evangelii gaudium, n.
96). Sabemos que, para ser credíveis, devemos
realizar uma reforma da Igreja que implique a purificação do coração e mudanças
de estilo de vida. A Igreja deve realmente deixar-se moldar pela
Eucaristia, que celebra como ápice e fonte da sua vida: tomar a forma daquele
pão, feito a partir de muitas espigas e partido para a vida do mundo. O fruto
deste Sínodo, a opção que o Espírito nos inspirou através da escuta e do
discernimento é caminhar com os jovens, indo ao encontro de todos
para lhes testemunhar o amor de Deus. Podemos descrever este processo com a
expressão sinodalidade para a missão, ou seja, sinodalidade missionária
(DF 118)".
As comunidades locais
e as Igrejas são frequentemente chamadas em causa, convidadas a dar
vida aos processos sinodais que incluam os jovens. Mais do que manuais
teóricos, são necessárias ocasiões em que colocar em ação a engenhosidade e as
habilidades dos próprios jovens, ou seja, uma abordagem de baixo e não de cima,
tendo o cuidado de recolher e compartilhar essas práticas de sucesso (ver CV
203-208). Também para as Igrejas este convite para confiar nos jovens contém
um desafio - oferecer-lhes espaço - e requer a coragem de colocar
em discussão o que sempre foi feito. Aqui também é uma questão de arriscar
juntos, porque:
"A
pastoral juvenil só pode ser sinodal, ou seja, capaz de dar forma a um
“caminhar juntos” que implica “a valorização – através dum dinamismo de
corresponsabilidade – dos carismas que o Espírito dá a cada um dos membros
[da Igreja], de acordo com a respectiva vocação e missão. (…) Animados por este
espírito, poderemos avançar para uma Igreja participativa e
corresponsável, capaz de valorizar a riqueza da variedade que a compõe,
acolhendo com gratidão também a contribuição dos fiéis leigos, incluindo jovens
e mulheres, a da vida consagrada feminina e masculina e a de grupos,
associações e movimentos. Ninguém deve ser colocado nem deixado colocar-se
de lado” (CV 206).
Existem, portanto, responsabilidades
em vários níveis: todos os jovens, todos os crentes, a comunidade local, os
movimentos e as congregações religiosas, cada diocese. Até mesmo às
Conferências Episcopais e aos Dicastérios do Vaticano é requisitado de se
colocar em um estado de conversão e renovação.
Em tudo isso, aqueles que têm
responsabilidade e, portanto, autoridade na Igreja são chamados em causa. Por
outro lado, como foi bem expresso em vários pontos do caminho sinodal, a
autoridade da Igreja é geradora ou não: "No seu significado etimológico, auctoritas
indica a capacidade de fazer crescer; expressa a ideia, não dum poder
diretivo, mas duma autêntica força geradora" (DF 71). Por esta razão,
"exercer a autoridade torna-se assumir a responsabilidade de um serviço
para o desenvolvimento e a libertação da liberdade, não um controle que corta
as asas e mantém as pessoas acorrentadas" (IL 141).
Sabemos que o
desapontamento institucional é um dos traços que surgiram no caminho de escuta
de preparação para o Sínodo. Nós até
mesmo sabemos do fracasso da própria autoridade dos pastores no triste caso
dos abusos, repetidamente mencionado durante a Assembleia sinodal. Agora, a
autoridade da Igreja, em todos os seus níveis, defronta-se com uma
possibilidade respeitável: a de tomar iniciativa, de convidar a todos para se
envolverem, de abrir espaços para o confronto e para o protagonismo, de criar
as condições para uma Igreja sinodal e solidária, caracterizada por um modo
de viver e trabalhar juntos que seja verdadeiramente profético para si mesma e
para o mundo.
Afinal, o Sínodo nos entregou
exatamente isso: um modo
de viver e trabalhar juntos, do qual não podemos prescindir.
O Papa Francisco estava
bem ciente disso no final da Assembleia sinodal, e expressou isso
maravilhosamente no Angelus de 28 de outubro de 2018:
"Os frutos deste trabalho já estão
“fermentando”, assim como o suco de uva nos barris após a colheita. O Sínodo da Juventude foi
uma boa colheita e promete bom vinho. Mas gostaria de dizer que o primeiro
fruto desta Assembleia
Sinodal deve ser precisamente o exemplo do método, seguido
desde a fase preparatória, de união
entre os jovens e a Igreja. Um estilo sinodal que não tem como
objetivo principal a elaboração de um documento, que também é valioso e útil.
Mais do que o documento, no entanto, é importante que se espalhe um modo de ser e trabalhar juntos, jovens e
idosos, na escuta e no discernimento, para alcançar escolhas
pastorais que respondam à realidade.
* * *
* *
Assim nos aproximamos do que
podemos definir o horizonte
final da proposta da CV, expresso através da recuperação de uma
palavra tradicional como "êxtase", assumida em seu sentido original:
o encontro com Deus produz êxtase não porque arranca o crente da realidade e da
teia de relações em que está inserido, mas porque o impele a sair de si mesmo,
superando seus próprios limites para que se deixe conquistar pela beleza do
amor pelos outros e se consagre em busca de seu bem. Por isso, a cada jovem o
Papa Francisco deseja: "Possas tu viver cada vez mais aquele ‘êxtase’ que
consiste em sair de ti
mesmo para buscares o bem dos outros, até dar a vida" (CV
163).
E depois ele explica
cuidadosamente a questão:
Quando um
encontro com Deus se chama “êxtase” é porque nos tira fora de nós mesmos e nos
eleva, cativados pelo amor e a beleza de Deus. Mas podemos também ser
levados a sair de nós mesmos para reconhecer a beleza escondida em cada ser
humano, a sua dignidade, a sua grandeza como imagem de Deus e filho do Pai.
O Espírito Santo quer impelir-nos a sair de nós mesmos, para abraçar os outros
com o amor e procurar o seu bem. Por isso, é sempre melhor vivermos a fé
juntos e expressar o nosso amor numa vida comunitária, partilhando com
outros jovens o nosso afeto, o nosso tempo, a nossa fé e as nossas
preocupações. A Igreja oferece muitos e variados espaços para viver a fé em
comunidade, porque, juntos, tudo é mais fácil (CV 164).
No final, a pergunta que o
Papa Francisco apresenta para cada jovem, para cada crente e à própria Igreja
como um todo através da CV é provavelmente esta: "Você tem coragem de
ousar esse êxtase?" A resposta tem muito a ver com a possibilidade de
descobrir a própria vocação e viver a própria vida com plenitude.
Nota dos autores:
Este texto é parte da edição da Christus
Vivit publicada pela Elledici [Itália], com uma introdução de Michele
Falabretti, Diretor do Serviço Nacional de Pastoral Juvenil da Conferência
Episcopal Italiana.
Traduzido
do italiano por Luisa Rabolini. Acesse a versão original do artigo,
clicando aqui.
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