Desgraça pouca é bobagem
Vejam, só, a lei que desejam aprovar na Câmara e no Senado
Gonzalo Vecina
Médico sanitarista, professor da FSP-USP e da EAESP-FGV
Não
podemos permitir uma destruição tão grande como a que está em marcha no
Congresso Nacional
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Unidade de Terapia Intensiva (UTI) lotada na cidade de Araraquara, interior do Estado de São Paulo. A pandemia aumenta em ritmo alucinante no Brasil! |
Os
governos de todos os níveis resolveram, com raras exceções, que não vão
contrariar eleitores e vão deixar a vida correr... para o ralo.
Estamos batendo recorde em
cima de recorde no número de mortos.
As vacinas não chegam e pior: as poucas doses disponíveis terminaram em todo o
País. Atraso na chegada da matéria-prima da China por culpa das autoridades
federais do Itamaraty rompe com as programações de entrega de vacinas da
Fiocruz e do Butantan. O Ministério [da Saúde], além:
* de propor o uso de drogas [medicamentos] que não funcionam,
* resolveu parar de financiar leitos de UTI – que estão
em falta –,
* se recusa a comprar mais imunizantes, e
* se envolve em estéreis discussões sobre quem será
responsável por reações adversas.
Os congressistas [deputados federais e senadores] querem colocar a
Anvisa de joelhos, justo o único órgão federal que cumpriu com todas as
promessas de celeridade e de verificação de segurança e eficácia de pelo menos
três vacinas até hoje. Mas o líder do governo quer que a Anvisa fique de
joelhos e aprove produtos sem estudos de fase 3. Só precisam ser aprovados
em seus países de origem, independentemente do tipo de vigilância sanitária que
tenham e, pior, independentemente de terem ou não doses para vender. Parece
inacreditável, mas são as vacinas russa Sputnik V e a indiana da Bharat
Biotech.
Mas não bastam essas
desgraças todas, que estão evoluindo e destruindo a nossa capacidade de
sobreviver à pandemia. Enquanto países como o Chile estão vacinando a maior
parte da população, e europeus saem de severos isolamentos sociais, nós
estamos passando por uma tempestade perfeita.
Mas o
Congresso e o nosso presidente não estão satisfeitos, ainda tem mais coisas
para destruir.
No passado pós-ditadura a sociedade brasileira se aproximou de criar um país melhor. Construiu um projeto de educação que ainda está longe do que precisamos, mas caminhamos, evoluímos um pouco e isso deve ser destruído. E, além de tudo, tem mais um problema: esse detestável SUS, que conseguiu evitar um total desastre sanitário ao longo da pandemia – ele tem de ser destruído.
No altar do deus do mercado, a saúde e a educação devem ser imoladas. Com o que sobrar, veremos como usar para construir um país “DE” poucos “E” para poucos. Se esquecem nossos legisladores que estamos longe da civilização e as conquistas sociais recentes da educação e da saúde somente foram possíveis graças às imposições constitucionais. Não podemos permitir que nossos representantes nos imponham uma destruição tão grande como a que está em marcha.
Para saber mais sobre
um terrível Projeto de Emenda Constitucional (PEC) que está sendo apreciado
pelo Congresso, clique aqui e aqui.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Saúde / Pandemia do Coronavírus – Quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021 – Pág. A11 – Internet: clique aqui (acesso em: 25/02/2021).
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