O papiro que fala da “esposa” de Jesus
Andrea Tornielli
Vatican Insider
19-09-2012
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Dra. Karen King - apresenta o fragmento de papiro sobre a "mulher" de Jesus |
Em seu estudo, que será publicado em janeiro de 2013 na revista teológica de Harvard, a historiadora King afirma prudentemente que não pode dar um veredicto definitivo; tudo leva a pensar que o fragmento é autêntico. Diferentes especialistas excluem até mesmo a possibilidade de se tratar de um texto acrescentado a um fragmento de papiro antigo. O fragmento é pequeno, mede 4 por 8 centímetros e é possível ler apenas alguns fragmentos de frases.
A professora King afirmou: “Este papiro não prova, obviamente, que Jesus foi casado, mas destaca que a questão de seu eventual matrimônio e de sua sexualidade foi discutida em debates quentes”. Deduz-se das características da grafia que o papiro foi escrito durante a segunda metade do século IV. Por essa razão, é possível pensar em uma relação entre este texto e outros contemporâneos, conhecidos também como o Evangelho de Tomé ou de Maria Madalena. Textos que, além disso, nasceram em um ambiente gnóstico.
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Ludovico Antonio Muratori (1672-1750) |
A palavra “apócrifo”, usada para indicar os Evangelhos não reconhecidos pela Igreja, é grega e significa “oculto”: durante o século II circulavam alguns escritos que se difundiam nos círculos gnósticos cristãos e que eram definidos dessa forma. São textos mais tardios, mediante os quais se tratou de reconstruir algumas partes da biografia do Nazareno ou de interpretar seu pensamento. Geralmente, enquanto os textos canônicos são diretos, contam o essencial, são pouco indulgentes com o milagrismo, os apócrifos estão cheios de elementos milagrosos e sensacionalistas. E em alguns casos, inclusive, são a expressão das tendências do movimento filosófico-religioso do gnosticismo, que acreditava na dualidade radical, em uma diferença abismal entre Deus e a realidade material.
O maior especialista italiano nestes textos, Luigi Moraldi, escreveu: “Os Evangelhos gnósticos são meditações sobre Jesus, sobre sua mensagem, sobre as reações que suscita em cada crente, sobretudo se for intelectual... Não são compêndios de dados biográficos sobre Jesus. Pressupõem nos leitores um conhecimento preciso tanto do anúncio cristão como dos primeiros desenvolvimentos e dos primeiros aprofundamentos”. O fragmento apenas apresentado teve sua origem em um ambiente copta, como outros textos gnósticos.
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Papiro em dialeto copta saídico encontrado no baixo Egito |
Uma das objeções que se ouve contra o celibato de Jesus tem a ver com o fato de que os mestres religiosos do mundo judaico se casavam. Mas nem sequer há 2000 anos eram raras as exceções à regra do matrimônio, como indica, por exemplo, a comunidade dos essênios, que vivia em Qumrã e era formada por celibatários.
Tradução do Cepat.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Sexta-feira, 21 de setembro de 2012 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/513771-o-papiro-que-fala-da-esposa-de-jesus
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Para Vaticano, papiro "não muda nada"
JOSÉ MARIA MAYRINK
Fragmento que diz que Jesus Cristo era casado gerou ceticismo na Igreja e novas hipóteses
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Dra. Karen King mostra o papiro encontrado |
"Não se sabe de onde veio esse pedacinho de pergaminho", disse ontem o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi. "Mas isso não muda em absoluto a posição da Igreja, que se baseia em uma imensa tradição, muito clara e unânime. Não muda nada a visão de Cristo e dos evangelhos. Esse acontecimento não tem influência alguma sobre a doutrina católica", reiterou.
O fragmento em questão foi revelado pela historiadora Karen King, da Universidade Harvard, que o recebeu em dezembro de um colecionador americano que permanece no anonimato. Após meses de análise e consultas a especialistas em papiros e no idioma copta - surgido no Egito antigo -, acredita-se que o documento seja genuíno. Mas, como lembra Karen, não se trata de uma prova de que Jesus teria sido casado.
Dúvida
Mesmo assim, há quem duvide da autenticidade do papiro, como Giovanni Maria Vian, também historiador e diretor do jornal do Vaticano, o Osservatore Romano. "Na tradição da Igreja não se conhece nenhuma menção a uma mulher de Jesus", disse. Para ele, pode ser um fragmento de um evangelho apócrifo de inspiração gnóstica.
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Maria Madalena - pintura de El Greco |
Para ele, pode ser um pedaço perdido do evangelho apócrifo de Maria Madalena, do ano 150, do qual faltam seis páginas. Documentos mais antigos, também de origem egípcia e escritos em língua copta, já apresentavam Maria Madalena como companheira de Jesus. O apócrifo Perguntas de Maria admite que Madalena era amante, parceira sexual ou esposa carnal de Jesus.
"A Maria Madalena desses textos, mulher que exerceu forte liderança entre os apóstolos, sendo a discípula amada de Jesus, não é a prostituta com quem foi identificada, no século 6.º, por São Gregório Magno", lembra frei Jacir.
Mas a própria Karen King afirmou ontem que, se Jesus foi mesmo casado, dificilmente teria sido com Maria Madalena. Isso porque as mulheres daquele tempo eram quase sempre identificadas por sua relação com um homem, enquanto Maria é sempre identificada pela sua aldeia natal, Magdala.
Debate
Para o teólogo brasileiro, saber se Cristo se casou continua sendo questão aberta e controversa por suas implicações. "A descoberta desse papiro mantém em pauta o celibato do clero e a liderança apostólica da mulher, que foi proibida de ensinar, exorcizar, batizar, distribuir a eucaristia na Igreja e receber a ordenação sacerdotal."
Admitindo-se que Jesus tenha sido casado e tido filho, outra questão embaraçosa se apresenta. Se Cristo era ao mesmo tempo Deus e homem, seu filho também não teria de ter natureza divina e humana? Frei Jacir diz que sim e imagina a confusão que essa questão provocaria, "pois seria como se tudo estivesse começando de novo".
Assista ao vídeo da Euronews sobre este assunto, acessando:
Fonte: ESTADÃO.COM.BR - 20 de setembro de 2012 - 03h08 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,para-vaticano-papiro-nao--muda-nada-,933146,0.htm
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