Brasileiro cada vez mais conservador
Conservador na medida
José Roberto
de Toledo
O medo da violência é uma das principais motivações
do conservadorismo no Brasil no século 21
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O desenho acima mostra bem a hipocrisia e incoerência que se escondem por detrás de vários discursos e bandeiras de luta do conservadorismo |
O
brasileiro é cada vez mais conservador. OK, a frase está ficando batida, mas
ninguém tinha tentado medir o fenômeno. Até agora: o Ibope acaba de criar o Índice de Conservadorismo do brasileiro,
apresentado em primeira mão ao leitor desta coluna. Os conservadores aumentaram entre os habitantes do [País] Patropi de
todas as faixas etárias e de renda, em ambos os sexos, em todas as religiões e
em quase todas as regiões e níveis educacionais.
Baseado
em cinco perguntas feitas à população, o
Índice de Conservadorismo criado pelo Ibope acompanha as opiniões dos
brasileiros sobre temas polêmicos e que costumam separar liberais de
conservadores:
1)
legalização do aborto,
2)
casamento entre pessoas do mesmo sexo,
3)
pena de morte,
4)
prisão perpétua,
5)
redução da maioridade penal.
O
questionário foi aplicado pela primeira vez em 2010, e repetido agora.
O conservador dos conservadores respondeu
ser contra os itens 1 e 2, e a favor dos demais – na escala do Ibope, ele
marcará 1 de conservadorismo. Já o
liberal dos liberais é a favor dos dois primeiros itens, e contra o resto:
seu índice é zero. Entre um e outro, o
Ibope dividiu os brasileiros em três faixas, conforme a quantidade de
respostas conservadoras. A distribuição dos resultados ajuda a entender a
projeção de um [Jair] Bolsonaro.
Nada
menos do que:
* 54% da população brasileira alcançou um índice igual ou superior a 0,7,
que o Ibope definiu como alto grau de
conservadorismo.
* Outros 41% – com índice
entre 0,4 e 0,6 – estão na faixa do conservadorismo
médio.
* Só 5% ficaram no baixo.
Na média, o brasileiro
marcou 0,686 – bem mais para conservador do que para liberal. Ainda mais relevante, esse
índice médio cresceu nos últimos seis anos: em 2010, era de 0,657. Colocando de
outra maneira, o grupo dos que atingiram
alto grau de conservadorismo cresceu de 49% para 54% nesse período.
As
questões que puxaram o conservadorismo nesta década foram as três ligadas à
insegurança pública e supostas maneiras de diminuí-la. O apoio à pena de morte pulou de 31% para 49% nos últimos seis anos.
A favorabilidade à redução da maioridade
penal – para permitir que adolescentes sejam julgados como adultos – cresceu de 63% para 78%. E a defesa da prisão perpétua para crimes hediondos
aumentou de 66% para 78% desde 2010.
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Frase que resume excelentemente bem como funciona a mente do conservadorismo. O passado é idealizado e valorizado em detrimento do presente e do futuro! |
“Observa-se
um aumento do conservadorismo em função do maior
apoio às medidas punitivas, seja em decorrência do aumento das taxas de
violência no País, ou de um desejo de se acabar com a impunidade percebida”,
analisa Marcia Cavallari, CEO do Ibope
Inteligência. Mas ela acrescenta outras nuances: “As questões políticas, econômicas e sociais pelas quais o País passa
também contribuem para o endurecimento em relação à punição”.
Nas questões
comportamentais, o conservadorismo não cresceu. Os mesmos 78% de 2010
continuam se declarando contrários à legalização do aborto, mas a taxa dos
favoráveis cresceu de 10% para 17% (os “nem contra nem a favor” caíram de 10%
para 4%). E aumentou significativamente a aceitação do casamento entre pessoas
do mesmo sexo: de 25% para 42%. Agora há um empate técnico com os contrários
(estes caíram de 54% para 44%).
O
medo da violência, portanto, é o principal drive do conservadorismo no Brasil
do século 21. Mas não é o único. Pela
ordem, os segmentos sociais e demográficos mais conservadores são:
* os evangélicos (índice 0,717 e crescendo),
* os homens (0,706 e em alta) e
* os menos escolarizados (0,701).
Na
outra ponta estão os que não são católicos nem evangélicos (0,649) e quem fez
faculdade: 0,650. Este é um dos raros estratos onde o conservadorismo diminuiu.
Não é coincidência.
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