MINISSÉRIE IMPERDÍVEL!
“Pode me chamar de Francisco”
Fernanda P.
Garcia
É a América Latina no centro das grandes produções
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Cena com o ator que interpreta padre Jorge Mario Bergoglio na minissérie |
Pode me chamar de Francisco não é sobre a Igreja Católica,
tão pouco é um testemunho de fé. A minissérie da Netflix é mais do que isso. Escrita e dirigida pelo italiano Daniele Luchetti, a produção mostra a juventude do Papa em Buenos Aires,
quando ainda era conhecido por Jorge Mario Bergoglio, na década de 1960 e,
ao contar a vida do padre, faz mais do que narrar seus passos desde o que ele
chama de encontro com Cristo até a ascensão a líder maior da Igreja romana. A grata surpresa na produção da Netflix, é sua impetuosidade em mostrar
ao mundo as chagas abertas das ditaduras latino-americanas, neste caso a da
Argentina.
Assim,
a minissérie em quatro capítulos não
procura isentar a Igreja por tantas vezes ter ficado do lado errado da
História. Mas destaca a importância de
escolher, ainda que sua voz seja a única a levantar-se, o lado decente.
Este é um daqueles casos raros de produção audiovisual que o lugar de onde se conta a história é mais importante do que a história
em si. O que coloca a produção em um patamar além do mero entretenimento,
fazendo dela uma leitura documental da
América Latina, sua política, sua história e, acima de tudo, a história do
seu povo.
Antes
de ser o primeiro jesuíta e sacerdote latino-americano a ocupar o posto máximo
da Igreja Católica, Bergoglio foi um
padre que esperava ser mandado para o Japão como missionário, mas ele não
estava pronto. Os caminhos que a própria
Igreja traçou para ele foram muito diferentes do que o jovem padre almejava
e, talvez, diferentes até mesmo do que seus superiores imaginavam. Formado em
engenharia química, foi professor de Literatura, diretor de escola, estudante
de Teologia na Alemanha, padre em comunidade pobre, cardeal argentino.
Apesar
de já ter dado declarações polêmicas para um sumo pontífice, como quando
declarou que a Igreja católica deve desculpas aos homossexuais ou que mães que
não são casadas devem ser acolhidas e ter suas crianças batizadas se assim o
quiserem, nós temos plena convicção de que não é um homem sozinho que vai mudar
os dogmas patriarcais da Igreja Católica. No entanto, em um mundo onde a gente ainda morre por ser mulher e apanha por conta
de orientação sexual, o posicionamento da maior figura de uma religião neste
sentido é significativo.
E é este Bergoglio que lê as
leis da Igreja de maneira a tentar ir ao máximo de encontro com os ensinamentos
de Jesus, que a minissérie destaca. Antes de pensar em “como fica a Igreja neste
caso”, Bergoglio preocupava-se em “como
ficam as pessoas neste caso”, e foi isso que o fez abrigar e transportar
perseguidos políticos, estar ao lado de favelados, convencer um cardeal a rezar
uma missa, minutos antes de a polícia cumprir um mandado de reintegração de
posse. Não, o papa Chico não vai redimir
todos os pecados da Igreja e, muito provavelmente, talvez ele mesmo não os
enxergue como pecado. Mas certamente a trajetória do padre Bergoglio
narrada em Pode me chamar de Francisco,
expondo a olhos nus a carnificina da Guerra Suja argentina, colocando a
história da América Latina no centro das grandes produções audiovisuais, é digna de ser acompanhada, admirada e
melhor entendida por todo aquele que se intitula cristão.
Assista ao trailer oficial da minissérie “Pode me chamar
de Francisco”,
clicando abaixo:
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