Papa Francisco e seu discurso à Cúria Romana
Francisco ataca a “resistência maliciosa, nascida das
mentes distorcidas”
Jesús Bastante
“A reforma da Cúria não é uma cirurgia para retirar
rugas.
Não devemos temer rugas, mas manchas”
Se
alguém queria respostas, aqui vão umas tantas. O Papa Francisco lançou na manhã
do dia 22 de dezembro, quinta-feira passada, uma dura, duríssima condenação contra algumas “resistências maliciosas” que vêm
de “mentes distorcidas” patrocinadas “pelo diabo”, durante seu discurso de
Natal à Cúria Romana. Um discurso no qual Bergoglio aproveitou para reivindicar
a tarefa realizada e para insistir em uma
dúzia de “mandamentos” para continuar reformando a Igreja.
Palavras
que foram escutadas sob um silêncio impávido por parte dos responsáveis
curiais, e que não passaram despercebidas aos quatro cardeais (que questionaram
a exortação apostólica de Papa Francisco “Amoris
Laetitia”), porém tampouco àqueles aos quais Francisco denominou como
exemplos de “gatopardismo espiritual”: os
que aplaudem o Papa, porém não fazem nada. Uma autêntica chamada de atenção
que volta a colocar o centro da reforma curial não em uma mudança de
figurinhas, mas “em uma autêntica
conversão”.
Francisco
entrou na Sala Clementina poucos minutos depois das dez e meia da manhã. Ali
esperava-o a Cúria, capitaneada pelo cardeal Angelo Sodano que, como decano do
Colégio Cardinalício, dirigiu uma palavras a Francisco, mostrando sua
“proximidade” ao Pontífice. Trata-se da
quarta ocasião na qual, antes de Natal, Bergoglio se reúne com os membros da
Cúria. Sodano agradeceu ao Papa pelo Ano da Misericórdia, e frisou como o
nascimento de Jesus “é a primeira prova da misericóridia”.
Sodano agradeceu ao Papa seu
empenho pelo diálogo inter-religioso, assim como, seu trabalho pela paz no
Oriente Médio, especialmente na Síria. “Venerado
e amado Papa Francisco, desejamos continuar prestando nosso humilde serviço ao
senhor, como pastor da Igreja e como bom samaritano e pastor do mundo”.
Francisco
iniciou seu longo discurso, sublinhando que “a Natividade é a festa da humildade amante de Deus”, onde “a
lógica divina supera nossa lógica humana”. Por isso, “no Natal somos chamados a dizer sim, com nossa fé, a Deus, que é o
humilde amante”.
A
partir dessa humildade, e dizendo não à
“lógica mundana do poder, do comando, da lógica farisaica e determinista”,
Francisco falou do quadro da reforma da Cúria que, como os exercícios
espirituais inacianos, deve trabalhar nestes critérios: “deformata reformare, reformata conformare, conformata confirmare e
confirmata transformare” (trad.: deformada reformar, reformada conformar,
conformada confirmar e confirmada transformar). Um processo de mudança
contínua.
“A Boa Nova deve ser lançada a todos,
especialmente aos pobres, humildes e descartados, conforme os sinais dos
tempos e estando atentos aos homens e mulheres de hoje”, assinalou o Papa, que
recordou que a Cúria tem, entre outras finalidades, “colaborar no ministério
próprio do Sucessor de Pedro, e, por conseguinte, apoiar o Romano Pontífice no
exercício do seu poder singular, ordinário, pleno, supremo, imediato e
universal”.
“Não sendo a Cúria uma
estrutura imóvel, a reforma é, antes de tudo, sinal da vivacidade da Igreja em
caminho, em peregrinação, e da Igreja viva e, por isso – porque viva –, sempre reformando-se, necessitada de ser reformada porque está
viva. Torna-se necessário reiterar vigorosamente que a reforma não é fim em si mesmo, mas constitui um processo de crescimento e sobretudo de
conversão”, recordou Bergoglio, que acrescentou que a reforma “a reforma
não tem uma finalidade estética, como se se quisesse tornar mais bela a Cúria;
nem se pode entender como uma espécie de avivamento, maquilhagem ou truco para
embelezar o velho corpo curial, e nem mesmo como uma operação de cirurgia
plástica para tirar as rugas”. Porque
“não são as rugas que se devem temer na Igreja, mas as manchas!”.
Neste
ponto, o Papa insistiu em que “a reforma
será eficaz única e exclusivamente se for implementada com homens «renovados» e
não apenas com homens «novos»”. O Papa prosseguiu explicando que “a reforma
da Cúria não se atua de forma alguma com a mudança das pessoas – que, sem
dúvida, tem acontecido e acontecerá – mas com a conversão nas pessoas. Na realidade, não basta uma formação permanente, é preciso também e sobretudo uma
conversão e uma purificação permanentes. Sem uma mudança de mentalidade, o esforço funcional não teria qualquer
utilidade”.
Neste
ponto, Francisco recordou como, nas ocasiões precedentes, denunciou as “enfermidades” da Cúria. E explicou o motivo: “Era
necessário falar de doenças e tratamentos, porque cada operação, para ter
sucesso, deve ser antecedida por diagnósticos profundos, por análises
cuidadosas e deve ser acompanhada e seguida por prescrições concretas”. E entre
elas, dos distintos tipos de
resistências.
Em
primeiro lugar, “a resistência aberta,
que nasce da boa vontade e do diálogo sincero”. Em segundo, “as resistências ocultas, nascem dos
corações assustados ou empedernidos que se alimentam das palavras vazias da hipocrisia espiritual de quem, com a
boca, se diz pronto à mudança, mas quer que tudo permaneça com antes”.
E,
finalmente, “as resistências malévolas,
que germinam em mentes tortuosas e aparecem quando o diabo inspira más
intenções (muitas vezes disfarçadas sob pele de cordeiros)”. Este último tipo
de resistências às mudanças na Igreja, “esconde-se
por trás das palavras justificadoras e, em muitos casos, acusatórias,
refugiando-se nas tradições, nas aparências, nas formalidades, no
conhecido, ou então em querer reduzir tudo a um caso pessoal, sem distinguir
entre o ato, o ator e a ação”.
Isto
não quer dizer que não se possa criticar, mas bem o contrário. E é que “a ausência de reação é sinal de morte! Por
isso as resistências boas – e até as menos boas – são necessárias e merecem ser
escutadas, acolhidas e encorajadas a expressar-se, porque é um sinal de que o
corpo está vivo”.
O
Papa continuou, “Tudo isto, para dizer que a
reforma da Cúria é um processo delicado que deve ser vivido com fidelidade ao
essencial, discernimento contínuo, coragem evangélica, sabedoria eclesial,
escuta cuidadosa, ação tenaz, silêncio positivo, decisões firmes, muita oração
– tanta oração! –, profunda humildade, clarividência, passos concretos em
frente e – se necessário – passos também para trás, vontade decidida, vitalidade vibrante, poder responsável,
obediência incondicional; mas, em primeiro lugar, com o abandono à orientação segura do Espírito Santo, confiando no seu
apoio necessário”. E não com táticas secretas ou queixas formais ou ameaças
de cisma.
Após
a declaração de intenções, o Papa traçou
os doze “critérios-guia” para a reforma da Igreja, que são os seguintes:
“1- Individualidade (conversão
pessoal)
Volto
a reiterar a importância da conversão individual, sem a qual serão inúteis
todas as mudanças nas estruturas. A
verdadeira alma da reforma são os seres humanos que estão envolvidos nela e a
tornam possível. Com efeito, a conversão pessoal sustenta e reforça a
comunitária.
Há
uma forte relação de intercâmbio entre o comportamento pessoal e o comunitário.
Uma única pessoa pode fazer muito bem a
todo o corpo, como poderia danificá-lo e fazê-lo adoecer. E um corpo
saudável é aquele que sabe recuperar, acolher, fortificar, cuidar e santificar
os seus próprios membros.
2-
Pastoralidade (conversão pastoral)
Fazendo
apelo à imagem do pastor (cf. Ez 34,16; Jo 10,1-21) e sendo a Cúria uma
comunidade de serviço, «far-nos-á bem, também a nós, chamados a ser Pastores na
Igreja, deixar que a Face do Deus Bom Pastor nos ilumine, nos purifique, nos
transforme e nos restitua plenamente renovados à nossa missão. Que também nos
nossos ambientes de trabalho possamos sentir, cultivar e praticar um forte
sentido pastoral, antes de tudo em relação às pessoas que encontramos todos os
dias. Que ninguém se sinta ignorado ou
maltratado, mas cada um possa experimentar, antes de tudo aqui, a atenção
carinhosa do Bom Pastor». Atrás dos papéis, há pessoas.
O compromisso de todo o
pessoal da Cúria deve ser animado por uma pastoralidade e uma espiritualidade
de serviço e comunhão, pois isto é o antídoto contra todos os venenos da vã
ambição e da rivalidade ilusória. Neste sentido, o Beato Paulo VI advertiu: «Não
seja, portanto, a Cúria Romana uma burocracia, como erradamente alguém a julga,
pretensiosa e apática, apenas canonista e ritualista, um ringue de ocultas
ambições e surdos antagonismos, como a acusam outros; mas seja uma verdadeira comunidade de fé e caridade, de oração e ação;
de irmãos e filhos do Papa, que tudo fazem, cada um no respeito da competência
alheia e com sentido de colaboração, para o servir no seu serviço aos irmãos e
aos filhos da Igreja universal e de toda a terra».
3-
Missionariedade (cristocentrismo)
É o fim principal de todo o
serviço eclesial, ou seja, levar a boa nova a todos os confins da terra, como nos lembra o
magistério conciliar, porque «há estruturas eclesiais que podem chegar a
condicionar um dinamismo evangelizador; de igual modo, as boas estruturas
servem quando há uma vida que as anima, sustenta e avalia. Sem vida nova e espírito evangélico autêntico, sem ‘fidelidade da
Igreja à própria vocação’, toda e qualquer nova estrutura se corrompe em pouco
tempo».[23]
4-
Racionalidade
Com
base no princípio de que todos os Dicastérios são juridicamente iguais entre
si, era necessária uma racionalização dos organismos da Cúria Romana, para
evidenciar que cada Dicastério tem competências próprias. Tais competências devem ser respeitadas, mas também distribuídas com
racionalidade, eficácia e eficiência. Por isso nenhum Dicastério pode atribuir-se a competência doutro Dicastério,
segundo o que está estabelecido pelo direito, e todos os Dicastérios fazem referência
direta ao Papa.
5-
Funcionalidade
A
eventual incorporação num único Dicastério de dois ou mais Dicastérios
competentes sobre matérias afins ou intimamente relacionadas serve, por um
lado, para dar ao mesmo Dicastério uma maior relevância (mesmo exterior) e, por
outro, a contiguidade e a interação das diferentes realidades no seio de um
único Dicastério ajuda a ter maior funcionalidade (são exemplo disso mesmo os
dois novos Dicastérios recentemente instituídos).
A funcionalidade requer
também a revisão contínua das funções e da atinência das competências e
responsabilidades do pessoal e, consequentemente, a realização de deslocamentos,
assunções, interrupções e também promoções.
6-
Modernidade (atualização)
Ou
seja, a capacidade de ler e auscultar os
«sinais dos tempos». Neste sentido, «providenciemos solicitamente para que
os Dicastérios da Cúria Romana se coadunem às situações do nosso tempo e se adaptem
às necessidades da Igreja universal». Assim o solicitara o Concílio Vaticano
II: os Dicastérios da Cúria Romana «sejam reorganizados, segundo as
necessidades dos tempos, das regiões e dos ritos sobretudo quanto ao número,
nome, competência e modo de proceder de cada um, bem como no que respeita à
coordenação recíproca dos trabalhos».
7-
Sobriedade
Nesta
perspectiva, são necessários uma
simplificação e um aligeiramento da Cúria: incorporação ou fusão de
Dicastérios segundo assuntos de competência e simplificação interna de cada um dos Dicastérios; eventuais
supressões de Departamentos que se revelem desajustados das necessidades
contingentes. Inserção nos Dicastérios ou redução das comissões, academias, comitês,
etc. Tendo sempre em vista a sobriedade
indispensável para um testemunho digno e autêntico.
8-
Subsidiariedade
Reordenamento
de competências específicas dos vários Dicastérios, deslocando-as, se
necessário, de um Dicastério para outro, a fim de alcançar a autonomia, a
coordenação e a subsidiariedade nas competências e a interconexão no serviço.
Neste
sentido, é necessário respeitar também os princípios da subsidiariedade e da
racionalização na relação com a Secretaria de Estado e no seio dela mesma –
entre as suas diferentes competências – para que, no cumprimento das próprias
funções seja a ajuda direta e mais imediata do Papa. E isto também para uma
melhor coordenação dos vários setores dos Dicastérios e dos Departamentos da
Cúria. A Secretaria de Estado poderá
realizar esta sua importante função, precisamente na realização da unidade,
interdependência e coordenação das suas Secções e dos seus vários setores.
9-
Sinodalidade
O
trabalho da Cúria deve ser sinodal: reuniões
periódicas dos Chefes de Dicastério, presididas pelo Romano Pontífice; audiências
regulares previstas dos Chefes de Dicastério; reuniões habituais
interdicasteriais. A redução do número de Dicastérios permitirá encontros
mais frequentes e sistemáticos dos diferentes Prefeitos com o Papa e reuniões
eficazes dos Chefes dos Dicastérios, não o podendo ser com um grupo demasiado
grande.
A sinodalidade deve ser
vivida também dentro de cada Dicastério, dando particular realce ao Congresso e
maior frequência pelo menos à Sessão ordinária. No seio de cada
Dicastério, deve-se evitar a fragmentação que pode ser determinada por vários
fatores, tais como a proliferação de setores especializados, que podem tender
para serem autorreferenciais. A coordenação entre eles deveria ser tarefa do
Secretário ou do Subsecretário.
10-
Catolicidade
Entre
os colaboradores, além dos sacerdotes e consagrados/as, a Cúria deve refletir a catolicidade da Igreja com a assunção de
pessoal proveniente de todo o mundo, de diáconos permanentes e fiéis leigos,
cuja escolha deve ser cuidadosamente feita com base na sua vida espiritual e
moral exemplar e na sua competência profissional. É oportuno prever o acesso de um número maior de fiéis leigos,
especialmente nos Dicastérios onde eles possam ser mais competentes que os
clérigos ou os consagrados. Além disso é de grande importância a valorização do papel da mulher e dos leigos
na vida da Igreja e a sua integração nas lideranças dos Dicastérios, com
particular atenção à multiculturalidade.
11-
Profissionalismo
É
indispensável que cada Dicastério adote uma política de formação permanente do
pessoal, para evitar o enferrujamento e a queda na rotina do funcionalismo.
Por
outro lado, é indispensável a arquivação definitiva da prática do promoveatur ut amoveatur [trad. livre: promovido para ser removido]. Isto é um
câncer.
12-
Gradualidade (discernimento)
A gradualidade
é o fruto daquele indispensável discernimento que envolve processo histórico,
estipulação de tempos e etapas, verificação, verificação, correções,
experimentação, aprovações ad
experimentum [trad.: experimental].
Nestes casos, portanto, não se trata de indecisão, mas da flexibilidade necessária para se poder alcançar uma verdadeira reforma.”
Em seguida aos critérios de reforma da Cúria, o Papa
valorizou todos os passos dados até agora, desde:
* a criação do C9 [Comissão dos 9 cardeais
que assessoram o Papa Francisco]
* à reforma dos Estatutos da Academia pela Vida,
* passando pela instituição
da COSEA (Pontifícia Comissão
referente de estudo e orientação sobre a organização da estrutura econômico-administrativa),
* AIF (Autoridade de Informação
Financeira),
* Secretaria para a Economia e o Conselho para a Economia,
* Pontifícia Comissão para a Tutela de
Menores,
* Secretaria para a Comunicação,
* os motu proprio sobre a Negligência dos Bispos no exercício de seu
ofício,
* a criação do Dicastério para os Leigos, a Família e a
Vida e
* o Dicastério para o Serviço Humano Integral
(Justiça e Paz, Cor Unum, Imigrantes e Cooperadores Sanitários).
Papa Francisco encaminhando-se para a conclusão de seu
discurso, disse: “Comecei falando do significado do Natal, o coração, o centro
da reforma é Cristo. Quero concluir somente com uma palavra e uma oração. A
palavra é que o Natal é a festa da
humildade amante de Deus”. Em sua oração, o Papa pediu para “curar todo
orgulho e toda arrogância”.
Para ler, na íntegra, o discurso de Papa
Francisco no encontro com a
Cúria Romana na apresentação de votos
natalícios, clique aqui.
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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