QUAL NATAL QUEREMOS CELEBRAR?

Dom José Reginaldo Andrietta
Bispo Diocesano de Jales – SP
Crianças na fila aguardando receber comida
Aleppo - Síria - 2016

 “O que você quer ganhar no Natal, este ano?” As respostas dadas por 70 crianças e adolescentes de uma entidade socioeducativa de Jales, nos últimos dias, surpreendeu as educadoras que lhes dirigiram essa pergunta e tem emocionado quem toma conhecimento do que disseram. A maioria disse que queria uma cesta básica, pois, como afirmou uma dessas crianças, em casa está faltando tudo, até mesmo comida.

Como celebrar o Natal no Brasil, hoje, sabendo que o país vive situações sociais alarmantes?

Os desempregados ainda são milhões. Muitos têm emprego informal, sem garantia de direitos. A violência cresce, até mesmo nas escolas. Os professores são mal remunerados. Os hospitais continuam precários e superlotados. Os ecossistemas são destruídos. A disparidade de renda é grande. O acesso à alimentação, à habitação e à terra é restrito. Movimentos sociais que lutam por direitos da classe trabalhadora são reprimidos.

Os índices assustadores de violência confirmam a tragédia na qual nos encontramos. Resta-nos esperança? Sim, esperança. Não a confundamos com expectativa. A expectativa é passiva. A esperança é ativa. Para compreendê-la, comparemos com uma mulher grávida. Todo o seu ser vai se transformando em vista do novo ser que ela gera. Amando-o ela se engaja. A esperança é assim, nos encoraja, nos compromete com a novidade que desejamos.

Qual Natal desejamos e nos comprometemos, então, celebrar?

O Natal da futilidade ou da fraternidade?
O Natal da ganância ou de ações em favor dos socialmente excluídos?
O Natal da extravagância ou da convivência saudável?
O Natal dos homicídios ou do respeito à vida?
O Natal da corrupção ou da honestidade?
O Natal dos vícios ou da sobriedade?
O Natal mercantilista ou humanista?
O Natal dos analfabetos políticos ou dos cidadãos conscientes e responsáveis?
O Natal de todos os desejos ou do que é essencial?

O essencial, sem dúvida, é Jesus Cristo. É seu Natal que celebramos. Saibamos, pois, distinguir o que é verdadeiro e o que é fútil na forma que o Natal é comemorado. Inspiremo-nos, para isso, na exortação do apóstolo Paulo:Não vos conformeis com as estruturas deste mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, a saber, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito” (Rm 12,2).

Celebremos, pois, o Natal como um novo nascimento, aprendendo com as crianças e os adolescentes, a desejar o que é, na realidade, necessário; aprendendo também com os mais calejados na vida, a lutar pelo que é justo. Que tal, então, engajarmo-nos para que todos recebamos a tão sonhada cesta básica, por exemplo:
* do trabalho em condições dignas,
* de gestões econômicas e políticas incorruptíveis,
* da sustentabilidade ambiental e 
* do desenvolvimento humano integral?

Renovemos, pois, nosso engajamento com o aniversariante, festejado no Natal, de gestar uma coexistência humana realmente justa e fraterna. Que nossos projetos pessoais e sociais correspondam ao que celebramos no Natal. Que esse Natal seja, portanto, digno de um novo nascimento. Assim como o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz (Mt 4,16), que nossa luz seja Jesus. Ele, sim, nos conduz pelos caminhos da justiça e da paz.

Fonte: Diocese de Jales – Artigos do Bispo – 7 de dezembro de 2016 – Internet: clique aqui.

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