Vergonha: a omissão do Ocidente
Alepo deixa lições sobre a omissão do Ocidente
The Economist
Quando os interesses prevalecem sobre os valores,
as consequências podem ser atrozes
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Criança é socorrida após bombardeio que destruiu sua casa e matou sua família em Alepo. A tristeza, o trauma, o choque são tão intensos que a criança nem chora!!! |
Grozny,
Dresden, Guernica: há cidades que fazem história com sua destruição. Alepo, que já foi o maior centro urbano da
Síria, entrará para o grupo. Seu patrimônio histórico, que remonta ao século
12, foi reduzido a ruínas. Caças russos atacaram seus hospitais e escolas.
Há mais de quatro anos, os habitantes da cidade são vítimas de mísseis, bombas,
gás tóxico e fome.
Ninguém
sabe quantos dos milhares de civis ainda abrigados no último enclave árabe
sunita de Alepo perecerão sob os escombros que até agora lhes serviram de
escudo. A carnificina pôs por terra o princípio de que os inocentes devem ser
poupados dos efeitos mais destrutivos da guerra. Em seu lugar, emergiu uma
realidade bárbara e cruel, que ameaça tornar o mundo um lugar mais perigoso e
instável.
Para se ter uma ideia da
dimensão da tragédia de Alepo, é importante lembrar que nas primeiras
manifestações contra o presidente da Síria, Bashar Assad, em 2011, os sunitas
marchavam alegremente ao lado dos xiitas, cristãos e curdos. Desde o princípio, com o
auxílio inestimável do Irã, Assad tratou de inviabilizar qualquer tentativa de
resistência pacífica a seu regime, recorrendo à violência para radicalizar o
povo sírio.
No início, a acusação de que
todos os rebeldes eram “terroristas” beirava o ridículo. Hoje, alguns deles de fato se enquadram na descrição. No desenrolar
do conflito, sucederam-se alguns momentos críticos, em que as potências
ocidentais poderiam ter intervindo, estabelecendo uma zona de exclusão aérea ou
uma área protegida, onde os civis pudessem se refugiar, ou mesmo um programa
para armar os rebeldes de maneira mais efetiva.
No
entanto, paralisado pelo legado do
Iraque e do Afeganistão, o Ocidente hesitou. Com o passar dos meses, a
carnificina recrudesceu e a necessidade de intervir se tornou mais urgente.
Mas os riscos e a complexidade de uma operação militar também aumentaram
consideravelmente.
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Aviões russos bombardeiam Alepo em socorro ao ditador sírio Assad |
Com Assad prestes a cair, a
Rússia resolveu meter sua colher, sem a menor consciência, e com efeitos
devastadores.
A queda de Alepo é prova de que Assad prevaleceu. Também evidencia a influência
do Irã. Mas quem realmente saiu ganhando
foi a Rússia, que voltou a ser um ator relevante no Oriente Médio.
Por
sua vez, a derrota não é um golpe apenas para os adversários de Assad, mas
também para a convicção ocidental de que, em política externa, os valores
importam tanto quanto os interesses.
Depois do genocídio de
Ruanda, em 1994, quando o mundo assistiu de braços cruzados ao massacre dos
tutsis, a
comunidade internacional reconheceu ser seu dever atuar para coibir a
selvageria da força bruta. Com os países-membros da ONU assumindo a
responsabilidade de proteger as vítimas dos crimes de guerra, as convenções
contra o uso de armas químicas e o assassinato indiscriminado de civis ganharam
importância renovada.
Ruínas
e cinzas
Esse ideal de
internacionalismo liberal foi seriamente abalado. As campanhas militares que
os Estados Unidos lideraram no Afeganistão e no Iraque mostraram que nem a
nação mais poderosa da história é capaz de impor a democracia à força. Ainda
que não tão evidente, o impacto da tragédia de Alepo é igualmente grave.
Diante das atrocidades
cometidas por Assad, as potências ocidentais se limitaram a proferir
lugares-comuns diplomáticos. Esquivando-se de sair em defesa das coisas em que supostamente
acredita, o Ocidente transmitiu a
mensagem de que seus valores são apenas palavras, que podem ser impunemente
ignoradas.
São
muitos os responsáveis por isso. Em 2013, mesmo depois de Assad ter atacado
áreas controladas pelos rebeldes com gás sarin, ultrapassando aquele que,
segundo os americanos, seria o limite do tolerável, o Parlamento britânico
votou contra a realização de ações militares, ainda que de alcance limitado.
Com
milhões de sírios buscando refúgio em países vizinhos, como Líbano e Jordânia, os europeus preferiram, em sua maioria,
agir como se não tivessem nada a ver com o problema; quando não levantaram
barreiras para impedir a entrada de refugiados.
A
dose de responsabilidade de Barack Obama não é pequena. Para o presidente americano, a Síria era uma armadilha a ser evitada.
Sua previsão de que a Rússia acabaria atolada no pântano sírio revelou-se um
gigantesco erro de avaliação.
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Aquilo que sobrou de uma das ruas de Alepo, na Síria |
Durante
seu governo, Obama tentou fazer que o mundo trocasse um sistema em que, para
defender seus valores, os EUA agiam frequentemente sozinhos, trazendo a reboque
alguns países, como a Grã-Bretanha, por um arranjo em que todos os países
arcassem com a tarefa de proteger as normas internacionais, uma vez que todos
se beneficiam delas.
Alepo
dá a medida exata do fracasso dessa política. Com os EUA relutando em desempenhar seu papel, o vazio foi preenchido
não por países responsáveis, preocupados em preservar a ordem internacional,
mas por nações como Rússia e Irã, que enxergam na defesa dos valores ocidentais
um plano maquiavélico para promover mudanças de regime em Moscou e Teerã.
Bem-vindos
ao bazar
Em
tese, o próximo presidente americano poderia tentar reverter a situação. Mas
Donald Trump acha que as intervenções liberais são coisa de gente trouxa.
A
indicação de Rex Tillerson, principal executivo da multinacional de petróleo e
gás ExxonMobil, para o Departamento de Estado, só reforça a mensagem que o
republicano veiculou durante a campanha eleitoral: na Casa Branca, sua preocupação será realizar negociações em torno de
interesses, não de valores.
Limites
Negociar
interesses é parte essencial da diplomacia - especialmente nas relações com
adversários, como a Rússia e o Irã, e concorrentes, como a China. Mas uma política externa que passa de uma
negociação a outra, sem ser orientada por uma estratégia e sem estar ancorada
em valores, comporta graves riscos.
Um
deles é que os aliados sejam usados como moeda de troca. Trump já insinuou que,
em contrapartida à redução no déficit comercial dos EUA com a China, pode abrir
mão de seu apoio a Taiwan. Se Tillerson fechar um acordo abrangente com os
amigos que tem na Rússia, envolvendo, por exemplo, a retirada das tropas
americanas dos territórios da linha de frente da Organização do Tratado do
Atlântico Norte (Otan), em troca de uma ação diplomática coordenada contra o
Irã ou a China, isso deixaria os países bálticos expostos a agressões russas.
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Mulher ferida e coberta de poeira após mais um dos tantos bombardeios em Alepo |
Uma ordem com base
exclusivamente em interesses também corre o risco de ser imprevisível e
instável.
Se Trump não conseguir fazer negócio com a Rússia, a tensão entre os dois
países pode se agravar rapidamente - e então a cabeça fria de Obama fará uma
falta enorme.
Quando
o poder dita as regras do jogo, os países menores são excluídos das negociações
ou têm de aceitar condições desfavoráveis, enquanto as grandes potências deitam
e rolam. Sem uma estrutura que lhes sirva de referência, os acordos precisam
ser frequentemente renegociados, com resultados incertos. A solução para problemas complexos, como as mudanças climáticas,
torna-se ainda mais difícil.
O
mundo está vendo o que acontece quando os valores não conseguem deter o caos e
a anarquia da geopolítica. Na trágica e
abandonada Alepo, os combates têm sido inclementes e atrozes. Quem mais sofre
são os pobres e inocentes.
Traduzido do inglês por Alexandre Hubner.
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