Uma das grandes lições de 2016
A fome e a vontade de comer
Editorial
A Odebrecht
não foi vítima, mas um dos pilares da corrupção
O
acordo de leniência que a Odebrecht
e a Braskem fecharam com autoridades
judiciais do Brasil, dos Estados Unidos e da Suíça revelou que a empreiteira e
sua subsidiária do setor petroquímico pagaram cerca de US$ 788 milhões em
propinas desde 2003 — ano em que o PT chegou à Presidência — para ganhar
contratos de obras em 12 países. O valor
e o alcance do esquema de corrupção envolvendo a Odebrecht, considerado pelos
norte-americanos como o maior da história, denotam que não se tratava de algo
acidental ou eventual. A compra de agentes públicos no Brasil e no exterior
para obter contratos era, de fato, um método de administração rotineiro, que
contava até mesmo com um departamento específico dentro da empresa para a
realização dessas negociatas.
“A
Odebrecht e seus coconspiradores criaram uma estrutura secreta financeira que
operou para contabilizar e desembolsar pagamentos de propina em benefício de
políticos, partidos e candidatos”, diz o documento do Departamento de Justiça
americano. Ou seja, no entender daqueles investigadores, a empresa não foi mera vítima de um sistema corrupto, e sim um de seus
pilares. Como afirmou o jornal Financial
Times, “a Odebrecht, o maior grupo de construção da América Latina, corre o
risco de ser mais conhecida por criar uma das maiores máquinas de suborno da história corporativa”.
Essa constatação desmancha
uma linha de defesa usada pela Odebrecht. A empresa buscou retratar sua participação no
esquema de assalto aos cofres públicos durante os governos petistas como algo
quase inevitável, pois, segundo essa versão, seria praticamente impossível
fazer negócios com o Estado sem recorrer ao pagamento de subornos. Logo, a
Odebrecht, a exemplo das demais empreiteiras envolvidas na Lava Jato, seria
vítima, e não mentora, de um sistema ubíquo de corrupção. Foi isso o que a
empresa sugeriu quando mandou publicar um pedido de desculpas por sua
participação no escândalo, dizendo que cedeu a “pressões externas” e prometendo
não tornar a “invocar condições culturais ou usuais do mercado como
justificativa para ações indevidas”.
Ora, não pode se dizer
simples subsidiária do poder político uma empresa que subornou autoridades do
Brasil, Angola, Argentina, Colômbia, República Dominicana, Equador, Guatemala,
México, Moçambique, Panamá, Peru e Venezuela. O pagamento sistemático de propinas nesses
países resultou em contratos de cerca de
100 projetos, vários deles financiados por bancos públicos brasileiros e
que renderam US$ 3,336 bilhões à
empreiteira.
Nas contas do
Ministério Público da Suíça, para cada US$ 1 milhão “investido”
em suborno, a
Odebrecht teve US$ 4 milhões em contratos.
Em
sua defesa, contudo, deve-se enfatizar que, nesse caso, a fome coincidiu com a vontade de comer: a Odebrecht construiu esse
esquema muito bem-sucedido de corrupção porque encontrou, no governo petista, o
comparsa ideal para tal empreendimento.
Se
de um lado havia um clube de empresas, lideradas pela Odebrecht, cujo objetivo
era monopolizar os preciosos contratos com o governo, de outro havia um governo que tinha um projeto de
poder sem paralelo na história brasileira. Esse projeto dependia de amplo e
permanente financiamento, que só se tornou possível graças ao acesso fácil ao
dinheiro público, desviado na forma de
contratos superfaturados com as empresas do tal clube.
Felizmente, por conta da
Operação Lava Jato, toda essa farsa ruiu. De um lado, desmoronou
o partido que pretendia eternizar-se no poder corrompendo a democracia; de
outro, a Odebrecht, ante a perspectiva
de insolvência, admite agora publicamente seus crimes, aceita pagar uma multa
de R$ 6,9 bilhões — o maior valor já fixado em casos de corrupção em todo o
mundo — e promete se regenerar.
Embora
dramáticos, esses acontecimentos certamente apontam para um país melhor, em que
a corrupção não seja mais encarada como
algo natural, cultural ou inevitável no relacionamento entre empresas e o poder
público.
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