O HOMEM QUE NINGUÉM SILENCIOU!
Morre D. Paulo Evaristo Arns, o homem que
ninguém silenciou
José Maria
Mayrink
Último dos grandes líderes da Igreja Católica dos anos
1970, o cardeal
dedicou a vida aos pobres e à defesa dos direitos humanos
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D. PAULO EVARISTO ARNS O cardeal dos pobres, perseguidos e torturados! Viveu de 14/Setembro/1921 a 14/Dezembro/2016 - 95 anos de testemunho profético! |
As
férias no Sul sempre foram sagradas. Janeiro ou fevereiro, o cardeal d. Paulo Evaristo Arns ia passar
três ou quatro semanas com a família - irmãos e sobrinhos - dividindo o
tempo entre os arredores de Curitiba, no Paraná, para onde a maioria dos Arns
emigrou, e a pequena Forquilhinha,
sua terra natal, na região de Criciúma, antiga colônia de imigrantes alemães em
Santa Catarina.
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Livro com a tese de Doutorado de D. Paulo Evaristo Arns, publicada no Brasil em 1993, pela Imago Editora |
Quinto dos 14 filhos que
Gabriel Arns e Helena Steiner tiveram, Paulo Evaristo nasceu em 14 de setembro de 1921 e
morreu nesta quarta-feira, 14 de dezembro, em São Paulo, aos 95 anos. A exemplo
do irmão mais velho, frei Crisóstomo,
entrou em um seminário franciscano, vocação
que o pai agricultor apoiou com entusiasmo, embora tentasse adiar a
matrícula o mais possível, só porque as despesas do internato pesavam no
orçamento. Das sete irmãs moças, três
optariam pelo convento.
“Paulo, nunca se envergonhe de dizer que você é filho de colono”, pediu Gabriel Arns. Muito depois, quando concluía os estudos na Sorbonne
com a tese A Técnica do Livro Segundo São
Jerônimo, o frade mandou um telegrama para Forquilhinha. “O filho do colono é doutor pela
Universidade de Paris e não se esqueceu da recomendação do pai.”
De
volta ao Brasil, foi professor de Teologia no seminário franciscano de
Petrópolis (RJ), onde trabalhou dez anos
em favelas, período que descreveria como o mais feliz da vida. Em maio de 1966, foi nomeado bispo auxiliar do então cardeal de São Paulo, d. Agnelo Rossi,
que o designou para a região de Santana, na zona norte.
Dedicava-se aos presos da
Casa de Detenção do Carandiru e criava
núcleos das comunidades eclesiais de base (CEB’s), experiência pioneira na
arquidiocese, quando um telefonema do núncio apostólico lhe comunicou que seria o novo arcebispo de São Paulo.
Não era um convite, mas uma ordem do papa Paulo VI, que transferira o cardeal
Rossi para Roma. Era 1970. Um ano
antes, tivera os primeiros contatos com vítimas do regime militar, início da
luta em defesa dos direitos humanos que marcaria sua carreira.
Designado pelo cardeal para
verificar as condições em que se encontravam os frades dominicanos e outros
religiosos na prisão, constatou que eles estavam sendo torturados.
Os militares não gostaram da nomeação de d.
Paulo. Quando foi elevado a cardeal,
em março de 1973, uma das suas primeiras medidas foi criar a Comissão Justiça e Paz, formada por advogados e outros
profissionais, para atender pessoas perseguidas pela ditadura. Funcionava na Cúria Metropolitana, sinônimo de refúgio e esperança para as
famílias de mortos e de desaparecidos.
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D. PAULO EVARISTO ARNS participa de ato em protesto contra a tortura e desaparecimento de presos políticos no Brasil durante a ditadura militar |
Respeitado
e temido, amado e odiado, d. Paulo
tornou-se um símbolo de resistência. Denunciou as torturas nos quartéis,
visitou presos em suas celas, liderou atos de protestos. No período mais
difícil do regime, procurou o presidente Emílio Médici, em nome do episcopado
paulista, para lhe entregar o documento Não te é lícito, no qual os bispos exigiam o fim das torturas. Médici
deu um murro na mesa ao ouvir a advertência do cardeal e o pôs para fora de seu
gabinete. “O senhor fique na sacristia,
que nós cuidamos da ordem”, irritou-se o general. D. Paulo pegou de volta o
exemplar da Rerum Novarum, a
encíclica de Leão XIII que levara de presente, mas fora jogada de lado. Depois
disso, só tiveram contatos protocolares.
Em
defesa dos direitos humanos, visitava operários,
estudantes e políticos nas celas da polícia. Foi numa sala da repressão que
conheceu Luiz Inácio Lula da Silva, que havia sido detido após as greves dos
metalúrgicos do ABC. Ficaram amigos pelo resto da vida. Na época, o bispo de
Santo André era d. Cláudio Hummes,
mais tarde arcebispo de São Paulo, que abrigou nas igrejas da diocese
trabalhadores impedidos de se reunir.
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ATO ECUMÊNICO NA CATEDRAL DA SÉ EM SÃO PAULO Pelo assassinato do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do Exército 31 de outubro de 1975 (Foto: Folha de S. Paulo) |
Missas
Em
março de 1973, d. Paulo abriu as portas da Catedral da Sé para uma missa em
memória do estudante Alexandre Vannuchi
Leme, aluno de Geologia da Universidade de São Paulo, que havia sido
torturado e morto em dependências do Exército. O arcebispo considerava esse ato
como sua primeira e, até então, a mais corajosa reação da Igreja ao regime. Os
militares prometiam reprimir um protesto programado pelos colegas de Alexandre
na Cidade Universitária. D. Paulo preferiu celebrar uma cerimônia religiosa
para evitar a violência.
Com o presidente Ernesto
Geisel, os problemas se agravaram. Embora tivesse um canal de comunicação direta com
o governo - o general Golbery do Couto e Silva -, o cardeal enfrentou situações
difíceis. O auge foi o assassinato do
jornalista Vladimir Herzog, em outubro
de 1975, na sede do Destacamento de Operações de Informações (DOI) do 2.º
Exército.
D.
Paulo promoveu um ato ecumênico na catedral em memória de Herzog, que era
judeu. A cerimônia levou mais de 8 mil
pessoas à Praça da Sé. Ao lado de vários bispos, entre os quais d. Hélder Câmara, do Recife, lá
compareceram o rabino Henry Sobel e
o pastor presbiteriano Jaime Wright
- dois aliados que, daquele dia em diante, lutariam de mãos dadas com o cardeal
em defesa dos direitos dos perseguidos pelo regime.
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D. PAULO ARNS E O RABINO HENRY SOBEL Ato Ecumênico na Catedral da Sé pela morte do jornalista Vladimir Herzog |
Três
meses depois, morria sob tortura o
operário Manuel Fiel Filho, cuja prisão d. Paulo denunciara. Geisel
exonerou o comandante do 2.º Exército, general Ednardo d’Ávila Melo, com quem o
cardeal tivera vários atritos. Um deles envolveu o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que estava na mira da
repressão. O arcebispo recorreu ao
governo e obteve a promessa de que Cardoso não sofreria abusos. Nasceu aí a
amizade entre d. Paulo e o futuro presidente.
A
defesa dos direitos humanos, também lhe criou inimigos. “O cardeal só defende bandidos”, reclamavam autoridades policiais. D. Paulo respondia que lutava contra todo
tipo de violência. Em 1989, deu um testemunho definitivo. Convocado para
servir de mediador no sequestro do empresário Abílio Diniz, na zona sul, não hesitou em arriscar a vida para
libertar o dono do Pão de Açúcar. Passou horas se equilibrando no muro até
obter um acordo com o sequestradores. Tinha consciência do perigo que corria.
Antes de sair de casa, pediu a um padre que o ouvisse em confissão, pois temia
ser morto.
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D. PAULO EVARISTO ARNS sobre o muro de uma residência, entregando um papel a um dos sequestradores do empresário paulistano Abílio Diniz - proprietário do Grupo Pão de Açúcar |
Arquidiocese
de São Paulo
No
plano pastoral, o arcebispo revolucionou
São Paulo. Descentralizou a
administração, delegando poder e atribuições aos bispos auxiliares e ao clero.
Seu projeto era, ainda no pontificado de Paulo VI, dividir a arquidiocese em
dioceses interdependentes. Não conseguiu. “A
divisão feita em 1989 não corresponde a nosso projeto”, lamentou em 1996,
alguns dias antes de encaminhar ao papa a renúncia, por motivo de idade (75
anos). Dizia-se que d. Paulo perdeu território e poder com a criação das
dioceses de Campo Limpo, Osasco, São Miguel Paulista e Santo Amaro,
desmembradas de São Paulo, mas não foi isso que ele mais sentiu.
O que doeu foi a frustração
de um plano que ele vinha construindo havia tanto tempo para dar continuidade a
seu estilo de trabalho. “Foi esse, talvez, o capítulo mais triste de minha vida de arcebispo
sob a orientação do papa João Paulo II”, escreveria em seu livro Da Esperança à Utopia. A rejeição do projeto era consequência de
sucessivos atritos com a Cúria Romana. Cinco anos antes, em 1984, d. Paulo
enfrentara dificuldades no Vaticano, quando intercedeu com o cardeal Aloísio Lorscheider, em favor
do franciscano Leonardo Boff,
defensor da Teologia da Libertação, que havia sido censurado pelo então cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da
Congregação para a Doutrina da Fé. A mediação não funcionou. Reduzido ao
silêncio, Boff deixou o sacerdócio.
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PAPA JOÃO PAULO II, ao lado de D. PAULO EVARISTO ARNS, abraça o líder da Pastoral Operária da Arquidiocese se São Paulo Wladimir Rossi Estádio do Morumbi (S. Paulo), 3 de julho de 1980 |
Ao
apresentar o pedido de demissão, era arcebispo havia 26 anos. Achava que seria
afastado imediatamente. Não foi. João Paulo II só nomeou seu sucessor, d.
Cláudio Hummes, em abril de 1998. Não era o seu candidato. D. Paulo havia indicado o nome de d. Antônio Celso de Queiroz, um de
seus auxiliares. O Vaticano ignorou a sugestão. D. Celso foi nomeado bispo
de Catanduva (SP). O estilo e o ritmo da pastoral mudaram, mas o cardeal
aposentado permaneceu na capital, a pedido do novo arcebispo. D. Paulo foi morar no Jaçanã, na zona norte,
onde continuou escrevendo. Celebrava missa num hospital de idosos aos domingos
e recebia pessoas no convento de São Francisco, no centro, às quintas-feiras.
Do Jaçanã, zona norte
paulistana, d. Paulo Evaristo Arns mudou-se para uma casa das irmãs
franciscanas em Taboão da Serra, na Grande São Paulo. A rotina continuou a mesma,
mas em ritmo mais lento, por causa da saúde debilitada. Vivia altos e baixos.
Selecionava as visitas e emocionava-se ao recordar velhos tempos.
Quando
teve um enfarte em março de 2005, não passou de um susto, mas foi internado no
Instituto do Coração (Incor). Em novembro, fez uma cirurgia para redução da
próstata. Nada grave, mas a saúde não estava bem. Sua fragilidade vinha de maio de 1971, quando sofreu um acidente de
carro, indo de Santa Catarina para o Paraná. Ficou com problemas
circulatórios que se agravaram nos anos seguintes.
Em 1992, sofreu um acidente
mais grave:
um carro em alta velocidade bateu no jipe militar que o transportava com d.
Geraldo Majella Agnelo, em Santo Domingo, na República Dominicana, onde
participavam de reunião dos bispos da América Latina. D. Paulo passou 18 horas inconsciente. Não se lembrava de detalhes
do acidente, mas ao reconstituir o que lhe ocorreu concluiu de que devia ter
sido um atentado. Não imaginava quem pretendia matá-lo, mas insistiu na
suspeita. Em 1997, fez uma cirurgia para
extirpar um câncer no músculo do olho esquerdo.
Na casa das irmãs franciscanas,
celebrava missa todas as manhãs, lia os jornais, rezava e recebia amigos. Não
via televisão.
Quando a irmã Zilda Arns morreu no terremoto do Haiti, em 2010, ditou uma
declaração à imprensa. “É uma morte que
surpreende, mas é uma morte bonita porque ela morre no cumprimento de uma causa
em que sempre acreditou.”
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D. PAULO EVARISTO ARNS e sua irmã ZILDA ARNS que foi a fundadora da Pastoral da Criança incentivada e apoiada pelo irmão cardeal |
Depois
de se aposentar, participava de atos públicos só quando convidado. Quando
falou, sua palavra repercutiu. Por exemplo, quando deu um extenso depoimento no
caderno Aliás, que o jornal O Estado de S. Paulo publicou em 2005,
quando João Paulo II estava muito
doente. “Sim, seria hora de o papa
renunciar para que a Igreja possa acompanhar o movimento da História”,
disse.
Na
entrevista ao Aliás, falou sem
censura. Até porque não seria mais eleitor, no conclave que elegeria o sucessor
de João Paulo II. A eleição do alemão Joseph Ratzinger agradou a d. Paulo.
Cinco meses depois da posse de Bento XVI, ele aderiu ao coro dos cardeais
eleitores que justificaram a escolha pelas qualidades pessoais do novo papa. “Ratzinger é um homem muito inteligente e
de uma sensibilidade muito fina para as dificuldades das pessoas.”
O
cardeal consolidou essa convicção nos anos seguintes. Em 2007, na visita de Bento XVI a São Paulo, encontrou-se com Ratzinger.
Conversaram em alemão alguns minutos, apenas o suficiente para d. Paulo chegar à convicção de que o
sucessor de João Paulo II saíra melhor do que a encomenda. Nas entrelinhas,
havia as sequelas das dificuldades que enfrentou no pontificado do polonês
Karol Wojtyla.
Quando
Bento XVI renunciou, em 2013, d. Paulo ficou cheio de esperança com a eleição
do papa Francisco. “D. Paulo falava com
empolgação sobre Francisco, o argentino Bergoglio que ele conhecia há muito”,
revelou d. Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau (SC) e
ex-bispo auxiliar de São Paulo. D. Paulo voltou à Catedral da Sé duas vezes nos
últimos meses: em setembro para comemorar seus 95 anos e em 27 de novembro, na
celebração dos 71 anos de ordenação
sacerdotal. No dia seguinte, foi internado no hospital Santa Catarina.
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