Como trabalhar pela igualdade
Washington
Novaes
Jornalista
É penoso tentar trabalhar no Brasil com indicadores
sociais,
mas é possível avançar
Fim
de ano, sucedem-se os cálculos: quantos nasceram no mundo, quantos morreram,
quantos seremos, em que espaço de tempo? E a partir daí, muitas equações.
Quantos médicos? Quantas mulheres não se casarão? Quanto ganharão, comparando
com os homens? Etc., etc.
Mulheres
& mercado de trabalho
O capítulo mais difícil
certamente estará nas cifras nacionais, que nos
falam muito de perto das desigualdades. As mulheres continuam trabalhando em média cinco horas por dia mais
que os homens e ganham apenas 76% do salário médio masculino. Elas têm menos
oportunidades de assumir cargos de chefia ou direção, até mesmo porque são
discriminadas em razão da dupla jornada (horas no emprego e em casa), que reduz
em algumas horas diárias a sua disponibilidade – sua jornada semanal de
trabalho fora é inferior em cinco horas e meia à dos homens (50 horas ante
55,5). Além disso, as mulheres dedicam
duas vezes mais tempo do que os homens às atividades domésticas (Instituto Humanistas Unisinos, 6/12) –
eles dedicam às atividades em casa apenas dez horas por semana.
É
um panorama que não mudou em uma década, embora 70% das mulheres estejam fora do mercado de trabalho. Mesmo que
exerçam funções de chefia e direção muito semelhantes às dos homens, mulheres recebem (pelo nível de chefia,
além do salário) cerca de 25% menos do que eles.
E continua a aumentar o número de mulheres
que são chefes de família: elas têm essa responsabilidade em 40% das casas; homens na mesma situação
são poucos, quase exceção. Mulheres que
não trabalham, dos 15 aos 29 anos, são 21,1%; na mesma idade e na mesma
situação, só 4,7% dos homens.
Negros
& brancos
De
2005 a 2015 cresceu de 11,4% para 17,8% a proporção de negros entre os
brasileiros ricos. Entre os mais
abonados, oito em cada dez são brancos; entre os mais pobres, três em quatro
pessoas são negras, diz o IBGE. Mais de metade da nosso população (54%) é
de pretos ou pardos. A cada dez pessoas, três são mulheres negras.
Escolaridade
& juventude
Embora
tenha melhorado em dez anos – de 36,9% para 26,4%, entre 2005 e 2015, na faixa
etária de 15 a 17 anos –, o atraso
escolar no Brasil ainda é alto, segundo a Síntese dos Indicadores Sociais
do IBGE publicada no início do mês (O
Estado de S. Paulo, 3/12). Entre os
20% de famílias mais pobres, o índice chega a 40,7%, “quase cinco vezes
maior que o indicado nos 20% mais ricos (8,2%)”. Explicou o IBGE que “a distorção idade/série”, de acordo com
a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), “se refere à proporção de
estudantes com idade pelo menos dois anos acima da esperada para a série em que
estão matriculados”. A defasagem chega a
36,4% no Nordeste; é “mais dramática entre os jovens que moram em áreas rurais
e também entre pretos e pardos”. Mais de um terço dos jovens acima de 15
anos já repetiu de ano mais de uma vez. [Mesmo com a
má qualidade de nosso ensino público! Imaginem!] “Na rede pública o
atraso é 3,6 vezes maior.” Um em cada
quatro jovens não estuda nem trabalha – são os chamados “nem-nem”, aos
quais se referem, em tom zombeteiro, os seus contemporâneos.
A
diferença entre áreas urbana e rural no País também é grande, na faixa de
estudantes de 15 a 17 anos com até dois anos de atraso na escola, assim como
entre estudantes pretos e pardos (31,4%), de um lado, e brancos (18,9%), do
outro (em 2015). Para além da defasagem entre brancos e pretos, nas universidades públicas, em 2005, apenas
0,9% dos estudantes figuravam entre os 20% mais pobres; em 2015 já eram 8,3%.
[Mas e a qualidade do ensino superior no Brasil?
Também aqui não evoluímos!]
Sexualidade,
educação & aborto
É
penoso tentar trabalhar com indicadores sociais no Brasil. Por exemplo, a
questão do aborto, que ainda há poucos dias ocupou muitos espaços na
comunidade, quando o Supremo Tribunal Federal decidiu não ser crime a
interrupção voluntária da gravidez praticada nos três primeiros meses de
gestação. Os favoráveis e os contrários serão dezenas de milhões; de ambos os
lados, pessoas capazes de chegar às vias de fato em defesa de seus argumentos.
Mas houve também, nos jornais, quem defendesse uma política nacional que
abranja uma “cultura de cautela sexual”,
uma discussão civilizada que faça avançar as práticas nessa área – e não apenas
a defesa do uso regular de preservativos.
E é
possível avançar. Todos os dias se ouvem debates acalorados a respeito da falta
ou penúria de recursos para campanhas e ações a respeito de tudo. Por que
governos e instituições não se dedicam a discussões
públicas e civilizadas em que um
lado possa ouvir o outro lado manifestar-se sobre o que for importante para
a sociedade, do aborto à prioridade de políticas e obras governamentais?
Não se pode mais ouvir a
cantilena demagógica dos julgadores indiferentes – fantasiados de sisudos
defensores dos interesses coletivos, que ocupam posições importantes para a
sociedade, mas fecham os olhos a
problemas vitais em tantas áreas, como, por exemplo, a da defesa sanitária.
Subnutrição,
fome & alimentação incorreta
Ainda
há poucos dias a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a
Agricultura [FAO] advertiu:
* mais de 2 bilhões de pessoas no mundo sofrem de deficiências
nutricionais e
* cerca de 450 milhões de crianças com menos de 5 anos
de idade têm o crescimento atrofiado por dietas pobres;
* ao mesmo tempo, 1,9 bilhão de indivíduos estão acima do
peso ideal;
* a alimentação inadequada custa US$ 3,5 trilhões por ano ao
desenvolvimento econômico e aos investimentos em saúde dos países.
A
urgência de uma verdadeira reforma educacional
Não
há tempo a perder. Os fatos no mundo das atividades econômicas desenvolvem-se
no ritmo acelerado do cotidiano: quem perder tempo será ultrapassado. Então, é preciso adaptar sem perda de tempo os
currículos educacionais, principalmente universitários, às necessidades da vida
fora dos câmpus. Mas sem esquecer estas últimas – para que se tenha uma
educação que possa ser mais abrangente, mais próxima da vida concreta de todos
os segmentos sociais. A igualdade, aí,
começa pela justiça, em todos os segmentos, da formulação de todos os
currículos. Pelo ensino e pela prática da igualdade.
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