Apelo do Papa aos bispos
“Não ao clericalismo e a mundos ideais que não
tocam a vida de ninguém”
Redação
“Se o pastor se dispersa, também as
ovelhas se dispersarão e ficarão à
mercê de qualquer lobo. Irmãos, a
paternidade do bispo com os seus
sacerdotes, com o seu presbitério!”
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PAPA FRANCISCO Dirige sua palavra aos bispos do Chile na sacristia da Catedral, em Santiago. Terça-feira, 16 de janeiro de 2018 |
Após o encontro com os sacerdotes e
consagrados, nesta terça-feira (16/01), o Papa Francisco encontrou-se com os
bispos do Chile na Sacristia da Catedral, em Santiago.
O Pontífice agradeceu as palavras a ele
dirigidas pelo Presidente da Conferência Episcopal Chilena, Dom Santiago Silva
Retamales, e a seguir, saudou Dom Benardino Piñera Carvallo, que celebra, este
ano, sessenta anos de episcopado. «É o bispo mais idoso do mundo, tanto na
idade como nos anos de episcopado e viveu quatro sessões do Concílio Vaticano II.
Maravilhosa memória vivente», disse Francisco.
O Papa recordou em seu discurso que, em
breve, irá completar um ano da visita ad
limina dos bispos chilenos ao Vaticano.
«Agora coube a mim visitá-los e fico feliz
por este encontro acontecer logo depois do encontro com o “mundo consagrado”,
pois uma de nossas tarefas principais
consiste precisamente em estar perto de nossas pessoas consagradas, dos nossos
sacerdotes.»
«Se o pastor se dispersa, também as ovelhas
se dispersarão e ficarão à mercê de qualquer lobo. Irmãos, a paternidade do
bispo com os seus sacerdotes, com o seu presbitério!»
«Uma
paternidade que não é paternalismo nem abuso de autoridade. Eis um dom que
vocês devem pedir: estar perto de seus padres, com o estilo de São José. Uma paternidade que ajuda a crescer e a
desenvolver os carismas que o Espírito quis derramar em seus respectivos
presbitérios.»
A consciência de ser povo
O Papa retomou alguns pontos do encontro
realizado em Roma, resumindo-os na frase: «a consciência de ser povo».
«Um dos problemas, que enfrentam atualmente
as nossas sociedades, é o sentimento de orfandade, ou seja, sentir que não
pertencem a ninguém. Este sentir “pós-moderno” pode penetrar em nós e no nosso
clero; então começamos a pensar que não pertencemos a ninguém, esquecemo-nos de que somos parte do santo
povo fiel de Deus e que a Igreja não é, e nunca será, uma elite de pessoas
consagradas, sacerdotes ou bispos.»
«Não poderemos sustentar a nossa vida, a
nossa vocação ou ministério, sem esta consciência
de ser povo.»
Esquecermo-nos disso – como afirmei à
Comissão para a América Latina – «comporta vários riscos e deformações na nossa experiência, quer pessoal quer comunitária,
do ministério que a Igreja nos confiou».
«A falta
de consciência de pertencer ao Povo de Deus como servidores, e não como
patrões, pode-nos levar a uma das tentações que mais danifica o dinamismo
missionário, que somos chamados a promover: o clericalismo, que é uma caricatura da vocação recebida.»
Segundo o Papa, «a falta de consciência do
fato que a missão é de toda a Igreja,
e não do padre ou do bispo, limita o horizonte e – o que é pior – reduz todas
as iniciativas que o Espírito pode suscitar no meio de nós. Digamos claramente:
os leigos não são os nossos servos, nem
os nossos empregados. Não precisam repetir, como “papagaios”, o que dizemos.»
«O clericalismo longe de dar impulso às
diferentes contribuições e propostas, apaga pouco a pouco o fogo profético do
qual a Igreja inteira é chamada a dar testemunho no coração de seus povos. O clericalismo esquece que a visibilidade e
a sacramentalidade da Igreja pertencem a todo o povo de Deus e não só a poucos
eleitos e iluminados».
Francisco convidou a vigiar «contra esta tentação,
especialmente nos SEMINÁRIOS e em todo o PROCESSO DE FORMAÇÃO. Os seminários devem pôr o acento no fato de que os
futuros sacerdotes sejam capazes de servir o santo povo fiel de Deus,
reconhecendo a diversidade de culturas e renunciando à tentação de toda forma
de clericalismo».
«O sacerdote é ministro de Jesus Cristo, o
protagonista que Se torna presente em todo o povo de Deus. Os sacerdotes de
amanhã devem formar-se olhando para o amanhã: o seu ministério se realizará num
mundo secularizado, e isso exige, de
nós pastores, discernir como prepará-los
para realizar a sua missão nesse cenário concreto e não em nossos “mundos ou
situações ideais”».
«Uma missão que se realiza em união fraterna
com todo o povo de Deus. Lado a lado, impelindo
e incentivando o laicato num clima de DISCERNIMENTO e SINODALIDADE, duas características
essenciais do sacerdote de amanhã».
«Não ao clericalismo e a mundos ideais, que
só entram nos nossos esquemas, mas que não tocam a vida de ninguém.»
O Papa convidou a «rezar, pedir ao Espírito
Santo o dom de sonhar e trabalhar por
uma opção missionária e profética que seja capaz de transformar tudo, para
que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem
e toda a estrutura eclesial se tornem um instrumento mais adequado para a evangelização do Chile do que para
uma autopreservação eclesiástica».
«Não tenhamos
medo de nos despojar daquilo que nos afasta do mandato missionário», concluiu o Pontífice.
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