Revisitando Jesus
Uma linguagem nova para a Boa Nova de Jesus
Claudia Fanti
Adista.it
(Itália)
04-01-2018
Uma
coisa é clara:
sobre Jesus de Nazaré, nunca se cansará de falar. E de escrever
sobre Jesus de Nazaré, nunca se cansará de falar. E de escrever
Porque, se as religiões podem
estar em crise, o extraordinário modelo de humanidade que representa a figura
de Jesus, em vez disso, está mais vivo e atual do que nunca, como mostram dois livros sobre Jesus, recém-lançados na
Itália, escritos respectivamente por John
Shelby Spong e Roger Lenaers: o
primeiro, do bispo emérito da Igreja Episcopal, intitulado La nascita di Gesù tra miti e
ipotesi [O nascimento de Jesus, entre mitos e hipóteses], editado por
Ferdinando Sudati e publicado pela editora Massari (192 páginas); o segundo, do
jesuíta belga, intitulado Gesù di Nazaret. Uomo come noi?
[Jesus de Nazaré. Homem como nós?], publicado pela Gabrielli Editori (144
páginas), com um prefácio também de Sudati.
Ambos têm em comum a exigência de reformular a Boa
Nova de Jesus com palavras e conceitos adequados ao novo mundo em que vivemos, na consciência de que, se não o fizermos, não
conseguiremos mais apresentar essa boa notícia a ninguém.
Porque, como destaca Sudati na introdução do livro de Spong,
é o próprio conhecimento científico
moderno, “integralmente globalizado e compartilhado pela primeira vez na
história do mundo”, que impõe a passagem
para um novo modelo epistemológico, obrigando a “repensar toda a herança do
passado, também sobretudo a religiosa”.
Na realidade, continua
Sudati, se é verdade que a religião, “tendo que ver com o sagrado, isto é, com
realidades e conceitos inefáveis”, não pode, de modo algum, prescindir da
linguagem simbólica, o problema que hoje se coloca aos crentes “não é tanto se livrar dos mitos, mas sim
de não levá-los ao pé da letra”, reconhecendo-os por aquilo que são, ou
seja, como instrumentos interpretativos que permanecem válidos enquanto a
cultura não encontra “algo melhor”.
E isso é ainda mais evidente
no caso dos relatos sobre o nascimento
de Jesus contidos nos Evangelhos de
Mateus e de Lucas, que os apresentam “de uma maneira muito diferente, com
dados até mesmo irreconciliáveis”: em nível de protagonistas – Mateus, como judeu e homem do seu
tempo, põe em primeiro plano José,
chefe da família e garantia da descendência davídica de Jesus; Lucas, menos adentrado na cultura
judaica, dá a máxima ênfase a Maria;
de genealogias – que coincidem apenas em dois ou três nomes e parecem ser, em
todo o caso, genealogias ideais ou simbólicas; de data e local de nascimento –
para Mateus, no ano 5 ou 6 a.C., sob
Herodes, o Grande, em uma casa em Belém, onde parece que José e Maria já habitavam;
para Lucas, no ano 6 ou 7 d.C., na
época do censo do governador Públio Sulpício Quirino, em um alojamento
improvisado (mas, para ambos, para o nascimento em Belém está em função da
atribuição a Jesus da descendência davídica); assim como existem diferenças
significativas em relação aos magos, à perseguição de Herodes e à fuga para o
Egito.
Histórias que certamente não foram escritas como
relatos históricos ou como artigos de crônica, mas cujo propósito, ao
contrário, é o de nos oferecer uma mensagem
de fé em Jesus. De fato, é claro que, como ressalta Spong, “as estrelas não
sulcam o céu com uma lentidão tal que homens sábios possam manter o ritmo com
elas”, nem os anjos “irrompem do céu da meia-noite para cantar aos pastores das
colinas”; assim como “as virgens não concebem, exceto nos mitos”, e “um homem
não leva a sua esposa, que está grávida de uma criança, a fazer 94 milhas de
Nazaré até Belém no dorso de um asno, de modo que o Messias esperado possa
nascer na cidade de Davi”.
E se alguém, como sugere
Sudati, poderia “lamentar mesmo que apenas – mas não é pouco – o atentado à
poesia do Natal”, o livro de Spong
oferece a oportunidade para “adquirir um conhecimento histórico melhor da
figura de Jesus”, convidando a não se
privar da inspiração poética, mas renunciando a “assumir mitos e lendas como
história”.
Afinal – como explica Spong,
respondendo a uma das cartas publicadas na coluna semanal do seu site (clique aqui),
intitulada Question & Answer Email,
ou seja, “Perguntas e respostas via e-mail” – uma vez esclarecido que os autores dos relatos de Natal “não
pensavam que as coisas que eles escreviam eram um relato histórico literal”,
mas “estavam interpretando o significado
que haviam encontrado em Jesus”, nada proíbe de “manter a fantasia separada
da história e, depois, entrar na fantasia festiva e desfrutá-la”: “Sonhe a paz
sobre a terra e a boa vontade entre os homens e as mulheres – escreve ao seu
leitor – e depois se dedique a dar vida a essa visão. Desse modo, você
entenderá as intenções dos escritores dos Evangelhos”.
Não
apenas “um homem como nós”
O novo paradigma cultural ao
qual deve ser remetido o livro de Spong também é aquele em que se move o volume
de Lenaers, que, como ressalta Sudati no prefácio, já no título,
apresenta “a interrogação mais séria e até mesmo inquietante que um crente pode
ouvir ressoar a seu respeito: aquela sobre a sua divindade”.
O livro do jesuíta não se propõe a se colocar nas
pegadas do Jesus histórico, porque,
explica Lenaers, “seria um esforço desperdiçado”, já que aquilo que sabemos
dele deriva substancialmente de quatro livretos escritos entre os anos 70 e 100
depois do seu nascimento, após diversas décadas de tradição oral, “por
seguidores desconhecidos, de caráter vagamente biográfico, mas sem serem
verdadeiras biografias”.
Mas ele visa a “libertar a nossa mensagem de fé sobre Jesus da mitologia
que, desde tempos imemoriáveis, se teceu sobre ele e que impede que os homens e
as mulheres da modernidade tenham acesso à sua figura inspiradora”. Um
desafio nada insignificante, considerando-se que, como observa Lenaers, “as lideranças da Igreja não têm problemas
em crer em um Jesus mítico, Deus em forma humana, e menos ainda os fiéis”.
No entanto, especifica o
jesuíta, “dizer adeus ao Jesus mitológico é apenas a metade do percurso”.
Porque “a mitologia tecida pouco a pouco sobre a pessoa de Jesus”, no fundo,
nada mais é do que a representação pré-moderna “daquela profunda plenitude que os fiéis da época percebiam nele e à qual, na modernidade – uma época que pensa e
fala de um modo totalmente diferente –, devemos
dar voz de um modo muito diferente”.
E é assim que, no seu livro,
Lenaers se propõe a desnudar Jesus das vestes mitológicas com as quais ele foi
revestido na época pré-moderna, de modo que a sua mensagem possa continuar falando
aos homens e às mulheres da modernidade.
Assim, por exemplo,
convidando a abandonar o “construto meramente mitológico” do sacrifício
expiatório – que só tem sentido se estivermos lidando com “um Moloch irado e
ávido, do qual é preciso comprar a graça com presentes, de preferência de tipo
sangrento” – e a entender Deus como “o amor que dá vida a todas as coisas”, o
jesuíta belga evidencia que o pecado não pode parecer nada mais do que “a
recusa de nos deixar guiar pelo amor e, portanto, por Deus”, e que “a resposta
certa a essa rejeição culpada” não pode vir da punição e da expiação, mas
apenas da conversão interior.
Não é por acaso, explica
Lenaers, que a parábola do filho
pródigo, de fato, não fala de punições e expiações: “A única coisa que Deus deseja, evidentemente, é que nos convertamos.
Assim que o filho culpado se converte, tem fim todo sofrimento”.
Uma conversão que somente Deus, “amor original e
criador”, pode fazer, comunicando-se
através de Jesus e tornando-se visível no seu agir e no seu falar. Isto é,
Jesus “só vive o amor, e como Deus infundiu em nós o desejo de viver e,
portanto, de amar, na figura de Jesus, reconhecemos aquilo que a nossa natureza
busca às apalpadelas”. Portanto, “voltando-nos
para ele e assumindo o seu caminho, realiza-se em nós a conversão que
salva”.
Nesse sentido, o livro de Lenaers se distingue das biografias
modernas sobre Jesus, que fazem dele, com razão, um homem como nós – em vez de
“um Deus-homem mitológico” –, mas que olham para ele também como um homem “do nosso
mesmo tipo humano provisório”. O que, para o teólogo belga, “Jesus não foi”.
Porque, conclui o autor, ao
mesmo tempo, ele “não era apenas um
homem como nós”: como indicam as imagens usadas pelos evangelistas na
tentativa de “transmitir a dimensão do mistério que se sentia presente nele”, Jesus “falava e agia demonstrando uma
intimidade tão intensa com o mistério original que chamamos de Deus, em
comparação com o nível médio dos seres humanos, a ponto de se tornar
inatingível para nós”.
Traduzido
do italiano por Moisés Sbardelotto.
Acesse a versão original, clicando aqui.
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