Livro imperdível!
A mãe de todas as histórias
José Francisco
Botelho
Escrita
no longínquo século XIII a.C., a primeira epopeia da literatura
volta
à vida no Brasil em uma tradução que realça
suas
qualidades monumentais
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Representação de Gilgámesh: herói em busca da imortalidade (Dea/G. Dagli Orti/De Agostini/Getty Images) |
Se ainda havia dúvida de que
o Brasil vive uma era de ouro na tradução literária, tal hesitação cai por
terra com a chegada às nossas livrarias de Ele
que o Abismo Viu: Epopeia de Gilgámesh. Essa recriação vernácula da primeira de todas as epopeias conhecidas
é um prodígio estético e um monumento da língua — proeza realizada por Jacyntho Lins Brandão, professor de
grego da Universidade Federal de Minas Gerais e uma das figuras mais relevantes
nos estudos clássicos brasileiros. Acadêmico consagrado, que já nada precisava
acrescentar ao currículo, Brandão decidiu desviar-se por um tempo da literatura
grega e aprender uma língua que até então desconhecia, o acádio — além de entranhar-se em uma vasta bibliografia
especializada. Tudo isso para brindar o Brasil com uma tradução que fizesse jus
à mãe de todas as histórias. Há algo de heroico — e, por que não, épico — nessa
empreitada artística pessoal. Graças a ela, o leitor brasileiro tem à sua disposição uma das versões mais
atualizadas e enriquecedoras de A Epopeia
de Gilgámesh em qualquer língua.
A história do texto é, em si
mesma, uma parábola fascinante sobre os mútuos poderes da memória e do
esquecimento na cultura humana. Ao que
se sabe, o protagonista da epopeia é inspirado em um personagem histórico:
Bilgames ou Gilgámesh, soberano da cidade de Úruk, atual Iraque, que teria
vivido no século XXVII a.C. Diversos relatos celebraram as façanhas do rei de Úruk e seu amigo dileto, Enkídu — inicialmente em sumério,
depois em acádio. Por volta de 1200
a.C., esse caudal de narrativas foi reunido e concatenado pelo escriba
Sin-léqi-unnínni, sobre o qual pouco se conhece. Sua obra foi a primeira na história a ter longa circulação além da
terra natal: ainda na Antiguidade, o poema foi traduzido para as línguas
hurrita e hitita. Tanto a obra original
quanto as reelaborações foram produzidas em caracteres cuneiformes —
sistema de escrita em tabuinhas de barro utilizado para representar uma dezena
de línguas do antigo Oriente Médio por cerca de três milênios.
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Tábua com trecho do poema: resgate épico de um clássico (Osama Shukir Muhammed Amin/(Glasg)/FRCP) |
Essa gigantesca tradição
literária ruiu às vésperas da era cristã: por
volta do século I a.C., os versos do misterioso escriba desapareceram sem
deixar rastros. O poema começou a reemergir apenas em 1846, quando uma cópia
fragmentária foi achada nas ruínas de Nínive. Após um hiato de quase 2000
anos, a saga voltou gradualmente a integrar o cânone da poesia. Durante um século e meio, novos estudos e
descobertas foram montando, peça a peça, a obra-prima esquecida — que se
tornou, simultaneamente, um dos clássicos mais novos e mais antigos da
literatura mundial. A tradução de Jacyntho Brandão, aliás, é arqueologicamente
impecável, incorporando os avanços
científicos mais recentes — entre eles, dois fragmentos achados em 2007 e 2011, na Síria e no Iraque, que ajudam a iluminar alguns dos muitos
trechos lacunares do poema.
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JACYNTHO LINS BRANDÃO Tradutor |
O
título de “clássico” não representa, aqui, mera deferência à antiguidade do
texto: as qualidades artísticas de Ele que o Abismo Viu o colocam à altura
de Homero, Shakespeare e o que de melhor se escreveu em eras menos remotas.
Alguns dos grandes temas da arte narrativa já se encontram ali, com
impressionante profundidade filosófica e sutileza de estilo — como se a arte da
poesia já tivesse saltado pronta dos primórdios da humanidade. Gilgámesh revela-se o arquétipo do herói
desmedido, que ousa buscar a imortalidade reservada somente aos deuses; sua
aventura acaba em derrota, mas também em sabedoria. A saga envolve
divindades soturnas e vingativas, perturbadoras visões do reino dos mortos,
duelos entre homens e monstros, a dor da amizade perdida e uma fascinante narrativa do dilúvio universal. A
jornada termina com a madura aceitação da finitude humana: “Do homem os dias estão contados, tudo o que
ele faça é vento”. É de notar, também, que o mais antigo dos relatos heroicos apresente pelo menos três
personagens femininas fortíssimas:
* a prostituta sagrada Shámhat,
* a taberneira Shidúri e
* a implacável deusa Ishtar.
Entre
as profusas qualidades da tradução de Jacyntho Brandão, vale destacar a capacidade de transmitir ao leitor moderno
a sensação vertiginosa do passado. Por exemplo: Brandão respeita os traços
da sintaxe poética do acádio, cuja
dicção literária exige a posição dos verbos ao fim das frases. A poética
mesopotâmica inclinava-se, também, à repetição de fórmulas e imagens. O tradutor reproduz esse traço, conferindo
ao poema um tom de declamação hipnótica. É o caso das primeiras linhas do Proêmio — do qual, aliás, vem o título
do livro:
Ele que o abismo viu, o
fundamento da terra,
Seus caminhos conheceu, ele
sábio em tudo,
Gilgámesh que o abismo viu,
o fundamento da terra,
Seus caminhos conheceu, ele
sábio em tudo (…).
Nessas
páginas, a estranheza essencial das
coisas demasiado antigas convive com os motivos eternos que animam e unificam
as literaturas de todos os tempos. Além disso, a tradução conta com um notável aparato de notas e comentários,
que abrem ao leitor brasileiro o panorama minucioso de uma vasta civilização
literária que o tempo engoliu — para depois, de forma misteriosa e parcial, nos
devolver.
L I V R O
Título: Ele
que o abismo viu: epopeia de Gilgámesh
Autor: Sin-léqi-unnínni
Tradução de: Jacyntho
Lins Brandão
Editora: Autêntica (Belo
Horizonte – MG)
Páginas: 336
Data de publicação: 10 de outubro de 2017
Preço de capa: R$
59,80
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