Jovens fora da Igreja?
Novo estudo busca saber por que os jovens adultos
deixam a Igreja
Christopher
White
Crux
17-01-2018
Mais do que nunca católicos têm
deixado a Igreja – mais do que em qualquer outra religião – e um novo estudo
publicado esta semana tenta ajudar desvendar por que razão tantos jovens
adultos saem tão cedo do catolicismo
O
relatório intitulado “Going, Going,
Gone: The Dynamics of Disaffiliation in Young Catholics” [Tradução: Indo, Indo, Foi: A Dinâmica da Desfiliação em Jovens Católicos],
publicado pela Saint Mary’s Press,
editora de Minnesota, Estados Unidos, em colaboração com o Centro de Pesquisa Aplicada no Apostolado (Center for Applied
Research in the Apostolate – CARA), da Universidade
de Georgetown, vem num momento em que o Papa Francisco tenta centrar a
atenção da Igreja sobre as necessidades dos jovens adultos.
Embora
as respostas dos aproximadamente 1.500 jovens pesquisados neste estudo não
sejam definitivas nem conclusivas, elas provavelmente servirão como um instrumento útil na dianteira da próxima
Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre o tema: «OS JOVENS, A FÉ
E O DISCERNIMENTO VOCACIONAL», evento convocado pelo Papa Francisco a se
realizar em outubro deste ano em Roma.
Como
Francisco escreveu no documento preparatório para o Sínodo, «Através dos jovens, a Igreja poderá ouvir
a voz do Senhor que ressoa inclusive nos dias de hoje».
Se
este for o caso, então há muito a se ouvir e aprender com este novo relatório
qualitativo.
Conforme
observa o estudo, a população católica dos Estados Unidos cresceu junto com a
população geral do país nos últimos anos. Mais
do que nunca, no entanto, católicos têm deixado a Igreja, num índice maior do
que qualquer outra denominação cristã.
«De todas as grandes denominações, o
catolicismo tem visto as maiores perdas líquidas como consequência das mudanças
de afiliação, apesar de estas perdas estarem sendo compensadas grandemente
com a imigração hispânica aos Estados Unidos», escrevem os autores.
Dados
de 2015 do Centro de Pesquisas Pew
revelam que o número de americanos que
não mais estão religiosamente afiliados aumentou de 16,1% em 2007 para 22,8%,
uma estimativa de 19 milhões de americanos. Geralmente esta população
recebe o nome de «os sem religião», grupo que compõe aproximadamente 56 milhões
de pessoas no país.
Com
base na amostra envolvida no estudo, os autores estimam que «aproximadamente
12,8% dos jovens adultos americanos entre 18 e 25 anos são ex-católicos, e que
aproximadamente 6,8% dos adolescentes dos EUA entre 15 e 17 anos são
ex-católicos».
Uma parcela equivalente a
74% da população envolvida no estudo disse que deixou o catolicismo entre os 10
e 20 anos.
Embora
as respostas individuais variem, «a desfiliação
da Igreja é, em grande parte, uma escolha pensada, consciente e intencional
feita pelos jovens em uma sociedade secularizada onde a fé e a prática
religiosa são vistas como uma opção entre muitas», lê-se
no texto publicado.
Na
tentativa de entender por que razão católicos jovens deixam a Igreja, os
pesquisadores categorizaram as respostas em três grandes grupos: os machucados,
os flutuadores e os dissidentes.
Os
jovens machucados
Para
os jovens machucados, a experiência, seja com a própria família, seja com a
própria Igreja, muitas vezes leva a um conflito religioso que os conduz a se
separar dela.
No
âmbito das experiências nesta categoria estão o divórcio, a doença e a morte. Os autores observam que, embora a
religião frequentemente seja considerada uma fonte de esperança e sustentação
nestas circunstâncias, este pode também ser um período em que os laços com a
Igreja são cortados.
Os
jovens flutuadores
Os
flutuadores, no entanto, deixam a Igreja
devido a uma desconexão lenta entre aquilo que descrevem como «regras e rituais
sem sentido» da Igreja versus aquilo que vivenciam no «mundo real». Para
muitos dentro desta população, o exemplo dos pais é igualmente essencial.
“Os
jovens irão inconscientemente absorver as atitudes dos pais”, escrevem os
autores.
Os
jovens dissidentes
Se
os flutuadores demonstram uma atitude para com a Igreja como aquela de quem diz
“E
daí?”, os dissidentes são conhecidos por
uma resistência mais ativa a certos ensinamentos católicos. Embora a
oposição a questões nevrálgicas – como o casamento gay, o uso de métodos
contraceptivos e o aborto – seja o mais comum, muitas vezes o desacordo deste grupo tem a ver com temas mais
fundamentais de doutrina, tais como a salvação, o céu e o inferno.
De
acordo com os resultados trazidos no relatório:
* 35% dos respondentes não
têm mais nenhuma forma de afiliação
religiosa,
* 29% se identificam com uma afiliação cristã não protestante,
* 14% se identificam como ateus ou agnósticos e
* 9% como protestantes.
Entre
as várias dinâmicas de desfiliação, os autores identificaram as seis causas originárias principais:
1) um evento ou uma série de
eventos que levaram à dúvida;
2)
o aumento da secularização cultural;
3)
um novo sentido de liberdade após abandonar a crença religiosa;
4)
uma rejeição de uma religião que eles creem foi lhes passada forçosamente;
5)
a convicção de que é possível viver uma vida ética sem religião; e
6)
uma disposição a reavaliar a sua religiosidade caso sejam presenteados com
argumentos ou provas racionais.
John Vitek, presidente e CEO da St.
Mary’s Press e um dos principais autores do relatório, disse que a principal
finalidade do estudo foi apresentar um fórum em que os jovens pudessem trazer
suas histórias “em suas próprias palavras, sem censuras ou filtros”.
Segundo os autores, o estudo deverá fazer com
que as lideranças pastorais reflitam sobre duas
questões principais em consideração da juventude que têm deixado a Igreja:
1ª) «Sabemos quem eles são – a profundidade de
suas histórias – nós os conhecemos pelo nome?» e
2ª) «Sentimos, hoje, a falta dessas pessoas,
agora que elas foram embora?»
De
fato, levantar questões para consideração e fornecer uma plataforma para as
vozes dos jovens que deixaram o catolicismo constituem o uso duplo deste
estudo: um tópico de debate que será central não só para a Igreja nos Estados
Unidos, mas para a Igreja Católica como um todo – e não somente para este ano,
mas para o futuro mais adiante.
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