Não tenham medo da incerteza
Última lição de um dos maiores filósofos
contemporâneos, um ano após sua morte
Zygmunt Bauman
Jornal «La
Repubblica» (Roma – Itália)
09-01-2018
Guerras,
migrações, fim das utopias.
Pode-se
viver em um fim do mundo permanente?
![]() |
ZYGMUNT BAUMAN (1925-2017) Sociólogo e Filósofo polonês que viveu na Inglaterra, professor emérito de sociologia das universidades de Leeds (Reino Unido) e Varsóvia (Polônia) |
O fim dos tempos, o fim do
mundo, o fim do universo: um assunto certamente diferente do habitual para mim,
que não sou um especialista no campo. Não pretendo, portanto, informá-los sobre
o estado atual da arte, da astronomia e da cosmogonia, sobre aquilo que os
cientistas pensam sobre o fim do mundo.
Direi apenas que as teorias científicas que se ouvem por aí
me deixaram muito confuso, dada a dificuldade de conciliar visões muito
diferentes sobre a mesa. [...]
Não que isso deva nos
preocupar imediatamente, que fique claro, já
que se calculou que o universo viverá pelo menos mais 20 bilhões de anos,
e, pelo menos eu, que sou irrevogavelmente velho, não tenho nenhuma esperança
de chegar até lá.
Mas voltemos à pergunta
inicial, ao porquê estamos hoje todos
tão inquietos, por que são feitas tantas premonições sombrias sobre o que nos
espera, tanto que, às vezes, não conseguimos sequer focar bem a questão como
fim do mundo, mas sim como algo completamente novo e desconhecido e, portanto,
ameaçador.
Por que vivemos essa condição
nesta fase da nossa história? Essa é a pergunta que devemos nos fazer. Eu sugeriria, entretanto, não ter medo.
Mesmo quando nos divertimos, vamos a uma festa com os nossos amigos, em algum
lugar, profundamente, sentimos ansiedade. Não nos sentimos seguros: seguros de
conseguir controlar as nossas vidas, seguros de ter a capacidade, os meios, a
habilidade, os recursos, seguros de poder viver em um mundo em que isso seja
possível.
Em suma, não conseguimos dar às nossas
vidas a forma que gostaríamos, estamos assustados porque – permito-me sugerir – vivemos uma condição de constante incerteza. E o que é a incerteza?
É a sensação de não poder prever como
será o mundo quando acordarmos na manhã seguinte; é a fragilidade e a
instabilidade do mundo. O mundo sempre nos pega de surpresa [...].
Penso na Lisboa de 1755:
[...] primeiro, houve um terremoto que devastou grande parte da cidade, depois
um incêndio destruiu aquilo que havia se salvado.
O evento despertou grandes
reações, e, entre os intelectuais, começou-se a discutir sobre que sentido
tinha uma tragédia desse tipo e como Deus podia permitir tal massacre de
inocentes. Voltaire se colocou à
frente da campanha filosófica, sentenciando: “Vejam: a natureza é cega, atinge
com a mesma imparcialidade e a mesma indiferença as pessoas boas e as pessoas
más. Não faz escolhas, não pune. Distribui a sua fúria aleatoriamente. Se
quiserem um mundo que esteja alinhado com a ética humana e a razão humana,
vocês devem conquistar a natureza”. [...]
Hoje, a mais de 200 anos de
distância, podemos ver como todos os
esforços para dominar a natureza não tiveram qualquer efeito, e aqueles
poucos que tiveram, na realidade, foram mal concebidos e deixaram traços da sua
obra em milhões de quilômetros quadrados de terra estéril e desértica, milhões
de vidas perdidas, vidas daqueles que, antes, cultivavam aquela terra.
Não funcionou. Por outro
lado, outros perigos – qualquer evento envolve inconvenientes –, outros
desconfortos foram se somando àquilo que acontecera. Eu acho que foi Freud que resumiu o significado do
impulso à civilização: a pressão da
civilização para corrigir e dar nova forma à sociedade. [...]
Todas as utopias, por mais diferentes que fossem entre
si, tinham uma coisa em comum: estavam situadas em algum lugar no FUTURO. Ainda não existentes, ainda não conhecidas, ainda
não exploradas, intuídas apenas por alguns navegadores solitários. Mas utopia e futuro tinham um significado muito
parecido.
Eu acho que estamos perdendo a confiança
no futuro. Não acreditamos mais que
ele seja favorável, que poderá resolver os nossos problemas, e, se vocês derem
uma olhada no nosso mundo contemporâneo, verão a disseminação de tradições que olham para o PASSADO.
Quem sabe, talvez abandonamos
algumas coisas prematuramente, erroneamente, estupidamente, talvez devêssemos
voltar àqueles estilos de vida. Talvez alguns entre vocês pensem com nostalgia
na vida sob Hitler, Stalin ou qualquer outro ditador do passado; mas vocês não
fizeram experiência daquilo que foi, porque não é possível. O passado é tão imaginário quanto o futuro.
Vocês não estiveram no futuro e não o conhecem, mas também não estiveram no
passado. Só podem ler livros sobre o
assunto, que, dificilmente, podem restituir as sensações de uma vida realmente
vivida no passado. [Exemplo disso, são jovens que
não viveram sob a Ditadura Militar no Brasil, defenderem o retorno a ela como
uma “saída” para as dificuldades que atravessamos hoje!!!]
![]() |
ILYA PRIGOGINE (1917-2003): químico russo naturalizado belga. Recebeu o Nobel de Química de 1977 |
Estas são, em linhas gerais,
as causas do estado de incerteza atual. A fragilidade da posição social que
conquistamos após uma longa vida de trabalho e que nos encontramos protegendo,
a impossibilidade de prever o que acontecerá amanhã, a suspeita de que qualquer
coisa que traga o futuro consigo não será melhor aquilo que existe hoje, mas
talvez será pior, a sensação de impotência. Que, mesmo que conhecêssemos todos os segredos sobre o funcionamento das
coisas, não teríamos as capacidades nem os instrumentos para impedir que coisas
desagradáveis aconteçam. [...]
Cientistas importantes, como
por exemplo Ilya Prigogine e Isabelle Stengers, receberam o Prêmio
Nobel por terem descoberto que o
universo – não só o nosso mundo e as coisas que nos cercam mais de perto,
mas o universo inteiro – vive governado
por contingências, acidentes e coincidências, em suma, pelo acaso. Não
existem regras.
Na história do mundo,
verificaram-se cinco grandes catástrofes
que quase nos levaram à extinção, que se aproximaram muito de tornar impossível
este nosso estar aqui e agora, trocando ideias.
![]() |
ISABELLE STENGERS (nasceu em 1949) Filósofa e química belga |
A maior, durante o período permiano, varreu 95% de todas
as criaturas vivas. Portanto, é absolutamente correto afirmar que estamos aqui
por acaso. Os nossos progenitores
encontravam-se naqueles pequenos 5% de criaturas que restaram no mundo.
Confiar na coerência do universo, na sua estabilidade ou previsibilidade,
portanto, não é possível.
Qualquer coisa que aconteça
no universo acontece por acaso, de modo que eu acho que não é possível a completa eliminação da incerteza, mas acredito
também que, dentro dos limites impostos
a nós pelo universo, ainda há muito a fazer. Por exemplo, evitar o colapso
do sistema de crédito ou a fuga súbita de migrantes de uma das guerras mais
sujas e desagradáveis jamais ocorrida debaixo dos nossos olhos. Guerras
previsíveis, guerras que podemos fazer com que não eclodam.
E eu me permito sugerir que essas coisas – as pequenas coisas que
podemos fazer dentro dos limites das nossas capacidades – são tantas, a ponto
de podermos nos empenhar nelas durante toda a nossa existência.
Traduzido
do italiano por Moisés Sbardelotto.
Acesse a versão original, clicando aqui.
Comentários
Postar um comentário