Quem lidera o mundo hoje?
A grande narrativa global de nossa era
Fareed Zakaria
The
Washington Post
Os Estados Unidos, criadores,
executores e mantenedores do sistema
internacional existente se retiram
para o isolamento autocentrado
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DONALD TRUMP Presidente dos Estados Unidos da América |
Daniel Kahneman, que ganhou o Prêmio Nobel de
Economia por reformular nosso entendimento sobre as motivações humanas, disse
uma vez: “Nunca ninguém tomou uma
decisão por causa de um número. As pessoas precisam de uma história”. Isso
é verdadeiro para indivíduos e para nações. Os países sempre se orientam por um
panorama internacional maior. Qual o
panorama global da atualidade?
Durante décadas, vigorou a história
determinada pela Guerra Fria. Quase
todas as nações agiam ou reagiam em função dessa grande luta ideológica,
política e militar. Então, veio 1989 e o colapso do comunismo. Pelos 20 anos
seguintes, a globalização tornou-se
a tendência dominante, com os países competindo para se tornarem mercados
atraentes e o capitalismo democrático ocidental parecendo reinar absoluto,
capitaneado pelo poder e prestígio dos Estados Unidos da América (EUA). O 11 de Setembro foi um duro golpe nesse
quadro estável e, por um tempo, o terror islâmico pareceu abalar o curso da
história. Mas o terrorismo era fraco e limitado para determinar a narrativa
global.
Assim, qual é o panorama atual? Eu diria que a maior tendência hoje é o
declínio da influência americana. Não o declínio do poder dos EUA - o país
continua imbatível econômica e militarmente -, mas um declínio do desejo e da capacidade de usar esse poder para
redesenhar o mundo. O atual governo parece empenhado em desmantelar as
grandes realizações dos EUA, ou simplesmente desinteressado em decidir a agenda
mundial. Donald Trump é o primeiro
presidente em quase um século a terminar o primeiro ano no poder sem ter
oferecido um jantar oficial a um chefe de Estado estrangeiro. E essa erosão
na liderança global americana já começa a levar outros países a se reajustarem.
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SIGMAR GABRIEL Ministro de Relações Exteriores da Alemanha |
No início de dezembro, o ministro de Relações
Exteriores da Alemanha, Sigmar Gabriel,
declarou que “as transformações importantes que afetam o mundo todo” decorrem
“do afastamento dos EUA de Trump de seu papel de garantidor confiável do
multilateralismo sob influência ocidental”. Essa mudança, disse o diplomata, “vem acelerando a modificação da ordem
global (...) com o aumento do risco de guerras comerciais e conflitos armados”.
O problema para a Europa, disse Gabriel, é
quase existencial. Segundo ele, desde a 2ª Guerra a Europa tem sido um projeto
dos interesses claramente delineados dos EUA. No entanto, o atual governo americano vê a Europa de um modo muito distante, tomando antigos parceiros por competidores
e às vezes pelos maiores rivais econômicos”. O ministro instou a Europa a
tomar seu futuro nas mãos e separar-se da política exterior americana.
Consideremos também o discurso de junho da
chanceler canadense, Chrystia Freeland,
no qual ela agradeceu aos EUA pela administração por sete décadas do sistema
internacional, mas considerou que, sob o
governo Trump, a liderança americana desse sistema havia chegado ao fim.
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CHRYSTIA FREELAND Ministra de Relações Exteriores do Canadá |
Já o presidente chinês, Xi Jinping, fez um pronunciamento no 19º Congresso do Partido
Comunista, em outubro, refletindo sua própria visão dessas novas realidades. “A importância da China está maior que
nunca”, assinalou, com o país “mostrando uma nova rota para que outras
nações em desenvolvimento cheguem à modernização”. Xi anunciou “uma nova era na qual a China caminha para
o palco central e dá grandes contribuições à humanidade”. Em discursos
anteriores ele já havia sugerido que a
China se tornaria o novo garantidor da ordem comercial global.
Essa é, pois, a história global de nossa época.
O país criador, executor e mantenedor do sistema internacional existente está
se retirando para um isolamento autocentrado. A Europa, outra grande defensora
e sustentáculo de um mundo aberto com base em regras, foi incapaz de atuar no
atual cenário mundial, com uma clara visão ou propósito, e continua obcecada
com o futuro de seu próprio projeto continental. Preenchendo o vácuo de poder, um grupo de potências menores, não
liberais - Turquia, Rússia, Irã, Arábia Saudita -, vem crescendo em suas
respectivas regiões.
Mas apenas a China tem verdadeiramente condições e
força estratégica para definir o novo capítulo da história de nossos tempos.
Há uma década,
falei de um “mundo pós-americano”, surgido não pelo declínio dos EUA, mas “pela
ascensão dos outros”. Esse mundo está de fato se consolidando. As mudanças, porém, são
dramaticamente aceleradas pela decisão tola e autodestrutiva da administração
Trump de abrir mão da influência global americana - algo que levou mais de 70
anos para ser edificado. “É triste”, poderia tuitar o presidente.
Traduzido do
inglês por Roberto Muniz.
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