6º Domingo de Páscoa – Ano B – Homilia
Evangelho: João 15,9-17
Naquele
tempo, disse Jesus a seus discípulos:
9
Como meu Pai me amou, assim também eu
vos amei. Permanecei no meu amor.
10
Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis
no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor.
11
Eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria
seja plena.
12
Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei.
13
Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos.
14
Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando.
15
Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos
chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai.
16
Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei
para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça. O que então pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo
concederá.
17
Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros.
JOSÉ ANTONIO
PAGOLA
Biblista
e teólogo espanhol
NÃO DESVIARMOS DO AMOR
O evangelista João põe na boca de Jesus um longo
discurso de despedida no qual se recolhem, com intensidade especial, algumas condições
fundamentais para ser fiel à sua pessoa e ao seu projeto, coisas que seus
discípulos se recordarão ao longo dos tempos. Também em nossos dias.
«Permanecei em meu amor». É a primeira condição. Não se
trata apenas de viver em uma religião, mas de viver no amor com que nos ama
Jesus, o amor que recebe do Pai. Ser cristão não é, em primeiro lugar, um
assunto doutrinal, mas uma QUESTÃO DE AMOR. Ao longo dos séculos, os discípulos
conhecerão incertezas, conflitos e dificuldades de toda ordem. O importante
será sempre não desviar-se do amor.
Permanecer no amor de Jesus não é algo teórico nem
vazio de conteúdo. Consiste em «guardar seus mandamentos», que ele mesmo
resume em seguida no mandamento do amor fraterno: «Este é o meu mandamento; que vos ameis uns aos outros como eu vos amei».
O cristão encontra em sua religião muitos mandamentos. Sua origem, sua natureza
e sua importância são diversas e desiguais. Com o passar do tempo, as normas se
multiplicam. Somente do mandamento do amor Jesus diz: «Este mandamento é o
meu». Em qualquer época e situação, o decisivo para o cristianismo é não
abandonar o AMOR FRATERNO.
Jesus não apresenta este mandamento do amor como uma
lei que deve dirigir nossa vida, tornando-a mais dura e pesada, mas como uma
fonte de alegria: «Eu vos disse isto,
para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena». Quando,
entre nós, falta o verdadeiro amor, cria-se um vazio que nada nem ninguém pode
preencher de alegria.
Sem amor não é possível dar passos para um
cristianismo mais aberto, cordial, alegre, simples e amável onde possamos viver
como «amigos» de Jesus, segundo a expressão do Evangelho. Não saberemos gerar
alegria. Ainda que sem querermos, continuaremos a gerar um cristianismo triste,
cheio de queixas, ressentimentos, lamentos e desgosto.
Ao
nosso cristianismo falta, com frequência, a alegria do que se faz e se vive com
amor. Ao nosso
seguimento de Jesus Cristo falta o entusiasmo da inovação, e sobra a tristeza
do que se repete sem a convicção de estar reproduzindo o que Jesus queria de
nós.
UMA ALEGRIA DIFERENTE
As primeiras gerações cristãs cuidavam muito da
alegria. Parecia-lhes impossível viver de outra maneira. As cartas de Paulo de
Tarso que circulavam pelas comunidades repetiam sempre o convite a «estar alegres no Senhor». O Evangelho
segundo João põe na boca de Jesus estas palavras inesquecíveis: «Eu vos disse isto, para que a minha alegria
esteja em vós e a vossa alegria seja plena».
O que aconteceu para que a vida dos cristãos pareça
hoje, diante de muitos, como algo triste, aborrecido e penoso?
Em que convertemos a adesão a Cristo ressuscitado?
O que houve com aquela alegria com a qual Jesus
contagiava seus seguidores?
Onde está?
A
alegria não é algo secundário na vida de um cristão. É um traço característico. Uma
maneira de estar na vida: a única maneira de seguir e de viver Jesus. Ainda que
nos pareça «normal», é realmente estranho «praticar» a religião cristã sem
experimentar que Cristo é fonte de alegria vital.
Esta
alegria daquele que crê não é fruto de um temperamento otimista. Não é o
resultado de um bem-estar tranquilo. Não se deve confundi-la com uma vida
sem problemas ou conflitos. Todos sabem que um cristão experimenta a dureza
da vida com a mesma crueza e a mesma fragilidade que qualquer outro ser humano.
O segredo desta alegria está em outra parte:
para lá dessa alegria que alguém experimenta quando «as coisas lhe vão bem».
Paulo de Tarso diz que é uma «alegria
no Senhor», que se vive estando enraizado em Jesus. João diz
mais: «é a mesma alegria de Jesus dentro
de nós».
A
alegria cristã nasce da união íntima com Jesus Cristo. Por isso, ela não se manifesta
comumente na euforia ou no otimismo a qualquer preço, mas se esconde
humildemente no fundo da alma da pessoa que crê. É uma alegria que está na
raiz mesma de nossa vida, sustentada pela fé em Jesus.
Esta
alegria não se vive de costas para o sofrimento que há no mundo, pois é a alegria do próprio
Jesus dentro de nós. Ao contrário, converte-se em princípio de ação contra a
tristeza. Poucas coisas poderão ser maiores e mais evangélicas que aliviar
o sofrimento das pessoas, disseminando alegria realista e esperança!
Traduzido do
espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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