Papa Francisco e a Igreja chilena
“Este sinal do Papa é devastador para o que virá depois
com os bispos”
Sergio
Rodríguez
La
Tercera
29-04-2018
Benito Baranda analisa a importância
e os alcances do encontro, no Vaticano, do Pontífice com Juan Carlos Cruz,
James Hamilton e José Andrés Murillo, vítimas dos abusos de padre Karadima,
convidados pelo próprio Francisco
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Da esquerda para a direita: JUAN CARLOS CRUZ, JAMES HAMILTON & JOSÉ ANDRÉS MURILLO três vítimas de abusos sexuais cometidos pelo padre chileno Karadima que se encontraram com Papa Francisco |
«É um passo muito importante para a Igreja, particularmente para a
Igreja chilena,
que há algumas
décadas vem sofrendo com esse grave problema que nos aconteceu,
e que as
autoridades eclesiásticas daqui não foram capazes de enfrentar com
a verdade, a
honestidade, a diligência e o rigor necessários».
Direto
É
assim que Benito
Baranda se posiciona sobre o significado que, na sua opinião, tem a
presença, neste momento, de três vítimas
de Karadima no Vaticano, convidadas pelo próprio Papa Francisco.
Entre
os dias 27 a 29 de abril passado, Juan
Carlos Cruz, José Andrés Murillo
e James Hamilton estão hospedados na
residência do Vaticano em Santa Marta. Lá
estão tendo encontros pessoais com o Pontífice, em que ele vai “pedir
perdão pelo que eles sofreram”, como explicou o diretor de imprensa da Santa
Sé, Greg Burke, e ouvir o seu testemunho sobre o ex-pároco de El Bosque e como
foram tratados pelo clero local.
Entre
os próximos dias 14 e 17 de maio,
será a vez dos 33 bispos da Conferência
Episcopal, também convocados por Francisco.
Baranda
acompanhou a questão de perto. Leigo, próximo ao mundo jesuíta e atual
presidente executivo internacional da Fundação
América Solidária, ele foi o
facilitador (coordenador) do Estado para a visita do Papa Francisco. E
considera que a ordem dos encontros – primeiro as vítimas e depois os bispos –
não é mera casualidade.
“O Papa faz um gesto que não lembro de outro
na história da Igreja. Ele está indicando para a Igreja do mundo e do Chile
que as vítimas precedem suas autoridades,
que somos todos iguais como batizados
e que não por ter uma posição de autoridade tem maiores privilégios dentro da
Igreja. Pelo contrário, deve-se servir e ouvir os outros (…). Esse sinal que o Papa está dando é
devastador para o que virá depois com os bispos chilenos. O Papa disse: OK,
vou ouvi-los, mas primeiro vou ouvir aqueles que foram vítimas de membros da
Igreja e, além disso, por causa da gestão que ocorreu em uma crise muito
profunda, mas que as pessoas que
dirigiam a Igreja não quiseram ver, negaram ou não foram capazes de enfrentar”,
disse.
Eis
a entrevista.
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BENITO BARANDA Entrevistado |
Que
projeções você vê?
Baranda: O que está acontecendo vai
permitir que comecemos a enfrentar como Igreja o que nos aconteceu. E não
continuar ocultando, negando ou fazendo de verdugos as vítimas, mas
efetivamente identificando-as como pessoas que foram brutalmente abusadas e
prejudicadas pelo poder de sacerdotes e bispos.
É
também uma sacudida na Igreja universal?
Baranda: A estrutura da Igreja, que é
monárquica, tem dificuldades para dialogar. Isso não significa que muitos
cardeais, bispos, sacerdotes e religiosos do Chile e do mundo não tenham grande
capacidade de diálogo com suas comunidades. Eles existem e são muito valiosos.
Mas o diálogo deveria ser a grande força
da Igreja, junto com o amor, e isso se constrói aproximando as pessoas,
todas, na diversidade que somos. Na
estrutura eclesial e no modo como a Igreja no Chile tem sido governada nos
últimos anos, esse diálogo retrocedeu. Basta passar pelas paróquias e ver o
que acontece em algumas dioceses, não em todas, mas o isolamento de alguns
sacerdotes é grande.
Você
acha que uma questão de fundo é a legitimidade da hierarquia católica?
Baranda: No passado, a legitimidade
de uma autoridade era dada por quem a designava. Hoje, essa é apenas uma parte,
mas não tudo. A autoridade também é dada
pelo comportamento e pela comunidade, quando vê que seu cargo os representa de
uma maneira boa. Essa legitimidade no Chile foi se perdendo. Por algumas
razões, passamos de uma das Igrejas mais confiáveis à menos confiável. Em
qualquer outro campo, de negócios, política, esporte, todas as autoridades já
teriam voado. Este é um fracasso
retumbante dos líderes.
Não
basta mais apenas a nomeação do Papa para um bispo?
Baranda: A nomeação de um bispo é
feita pelo Papa, mas na sociedade contemporânea, uma parte vital da legitimidade é dada pelo nosso comportamento.
Isso vale para todos, pais, mães, empresários, políticos, todos, também para a
Igreja, a quem se exige uma concordância com o Evangelho. E isso aconteceu com
a nossa Igreja. Em vez de olhar tanto para fora e criticar a sociedade, as
decisões que tomamos como cidadãos, as
autoridades eclesiásticas deveriam ter olhado mais para si mesmas e ter sido capazes
de ouvir. Mas, graças a isso, veio a decisão do Papa. Porque as vítimas [de abusos sexuais] de [padre] Karadima que estão hoje no Vaticano não foram ouvidas com a mesma
celeridade e profundidade pelos líderes da Igreja chilena.
Há
três meses, em janeiro, o Papa tinha outro discurso sobre os denunciantes e até
falou de difamação, o que ele posteriormente retificou. Como você viveu esse
momento?
Baranda: No Chile, a trajetória do
Papa começou oficialmente no Palácio La
Moneda. E foi ali, não na catedral
ou em uma missa, mas no Palácio do Governo, que ele pediu perdão pelos membros
da Igreja Católica. Esse início e os diálogos mais privados que teve com
outras pessoas foram muito auspiciosos. No entanto, a “derrapada” em Iquique
lançou um manto de dúvidas. A reação imediata do arcebispo de Boston, Sean O'Malley, que viajou ao Peru, deve
ter levado o Papa a duvidar e a pensar que havia algo mais profundo. E enviou uma terceira pessoa de sua confiança
para ver o que estava acontecendo. Não
deixou esse assunto nas mãos dos informantes de costume.
O
Papa ouvirá mais pessoas?
Baranda: Pelas características do
Papa, esses antecedentes serão muito importantes, mas deve haver outros (...).
Conhecendo os bispos, particularmente oito deles mais de perto, eu sei que eles
não são apenas pessoas que estavam certas de que Barros nunca deveria ter sido
bispo, mas também que essa questão deveria ter sido encarada de maneira
diferente. Eu penso que muitos, mais do que acreditamos, conversaram sobre isso
com o Papa e passaram a ele informações (...). Eu tenho esperança. O caso de Karadima é a ponta de um iceberg
que reflete o distanciamento com os jovens, com os pobres, um entrincheiramento
doutrinal. Isso permitiu que se apagasse o fogo de estar disponível para os
demais.
Pederastia.
O Papa e os bispos do Chile: é preciso esclarecer
“as responsabilidades de cada um”
Andrea
Tornielli
Vatican
Insider
12-05-2018
Três dias de reunião de Papa
Francisco com os 33 bispos chilenos
a fim “estudar as mudanças adequadas
e duradouras que impeçam
a repetição de atos sempre
reprováveis”
Três
dias de reuniões na “auletta” da Aula Paulo VI, para falar com cada um dos 31 bispos ordinários e auxiliares atualmente na
ativa no Chile e com dois eméritos. O objetivo é “discernir juntos, na presença de Deus, a responsabilidade de cada um”
nas “feridas devastadoras” provocadas pelos abusos sexuais e de poder
que ocorreram no país sul-americano, e “estudar
as mudanças adequadas e duradouras que impeçam a repetição de atos sempre
reprováveis”. Um longo “processo
sinodal”, fruto da exaustiva investigação do arcebispo Charles Scicluna e depois das longas audiências que o Papa Francisco concedeu às três vítimas do
padre Fernando Karadima (o poderoso pároco de El Bosque, em Santiago do
Chile, líder carismático e formador dos futuros bispos que contou com proteção,
porque seus repetidos e prolíficos
abusos foram acobertados durante anos pela cúpula da Igreja chilena).
A
Sala de Imprensa da Santa Sé informou que “o Papa Francisco se reunirá com os
bispos do Chile de 15 a 17 de maio na ‘auletta’ da Aula Paulo VI”. Este
encontro, indica a nota, “tem sua origem na precedente convocação do episcopado
chileno em 8 de abril passado”.
“O
Santo Padre – diz a Sala de Imprensa do Vaticano –, interpelado pelas
circunstâncias e desafios extraordinários diante dos abusos de poder, sexuais e
de consciência que ocorreram no Chile nas últimas décadas, considera necessário
examinar profundamente as causas e consequências, assim como os mecanismos que
levaram, em alguns casos, ao acobertamento e às graves omissões em relação às
vítimas”.
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DOM CHARLES SCICLUNA Arcebispo de Malta encarregado por Papa Francisco de investigar os abusos na Igreja chilena |
“Durante
os encontros, o Papa Francisco deseja compartilhar as suas conclusões pessoais
fruto da recente missão especial ao Chile”, confiada a dom Charles Scicluna, arcebispo de Malta, e ao padre Jordi Bertomeu, da Congregação para a Doutrina da Fé, e “completadas, além disso, com os numerosos
testemunhos orais e escritos que Sua Santidade continuou recebendo nas últimas
semanas”. Indicação que também se refere aos intensos e dramáticos
encontros pessoais que o Pontífice teve com Juan Carlos Cruz, James
Hamilton e José Andrés Murillo.
Durante
os encontros, informa o comunicado, dos quais “participarão 31 bispos
diocesanos e auxiliares e dois bispos emérito, o Santo Padre também será acompanhado pelo prefeito da Congregação para
os Bispos”, o cardeal Marc Ouellet.
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PADRE JORDI BERTOMEU Congregação para a Doutrina da Fé - Vaticano, um dos investigadores dos abusos cometidos por religiosos na Igreja chilena |
“O
objetivo deste longo ‘processo sinodal’ – explica a Santa Sé – é discernir
juntos, na presença de Deus, a responsabilidade de todos e de cada um nessas
feridas devastadoras, além de estudar mudanças adequadas e duradouras que
impeçam a repetição de atos sempre reprováveis. É fundamental restabelecer a confiança na Igreja através de bons
pastores que testemunhem com a própria vida o conhecimento da voz do Bom Pastor
e que saibam acompanhar o sofrimento das vítimas e trabalhar de modo determinado
e incansável na prevenção dos abusos”.
“O
Santo Padre – conclui a declaração – agradece a disponibilidade dos seus irmãos
Bispos de se colocar à escuta dócil e humilde do Espírito Santo e renova seu
pedido ao Povo de Deus no Chile para continuar em estado de oração pela
conversão de todos. Não há previsão de
que o Papa Francisco faça qualquer declaração durante ou após os encontros, que
acontecerão em absoluta confidencialidade”.
A viagem mais incerta vivida pela Igreja chilena
María José
Blanco
La
Tercera
10-05-2018
O Episcopado emitiu um comunicado intitulado:
“Com a esperança de uma fecunda
renovação”
Uma
dezena de prelados [bispos] tomaram seus voos ao Vaticano para a reunião com o
Papa. A maioria não quis fazer declarações. O Episcopado emitiu um comunicado
intitulado: Com a esperança de uma
fecunda renovação.
“Para
colaborar ‘no discernimento das medidas que a curto, médio e longo prazo
deverão ser adotadas para restabelecer a comunhão eclesial no Chile, com o objetivo de reparar no possível o escândalo
e restabelecer a justiça’. Com humildade e esperança atendemos ao chamado”.
Assim,
recordando ao pé da letra uma frase da carta
que o Papa lhes enviou, no último dia 8 de abril, os bispos da Conferência
Episcopal do Chile, através de um comunicado, expressaram o ânimo com o qual se
apresentarão ao Pontífice, entre os próximos 14 e 17 de maio.
Reiteramos nossa união com o
Papa Francisco, na dor e vergonha expressada diante dos crimes cometidos contra
menores e adultos em ambientes eclesiais. Reconhecemos que, apesar das ações realizadas
nestes anos pela Igreja, nem sempre se conseguiu curar as feridas dos abusos,
que continuam sendo uma chaga aberta”, acrescentou-se no documento.
Desse
modo, enquanto o primeiro grupo de bispos partia para o Vaticano, no voo A2689
da companhia aérea Alitalia, a Conferência Episcopal do Chile intitulava sua
declaração: Com a esperança de uma fecunda renovação.
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PADRE FERNANDO KARADIMA Chileno acusado de envolvimento em vários casos de pedofilia |
Os
rostos estavam relaxados, inclusive sorridentes, mas a tensão também se notava
no ambiente. Inclusive, pela expectativa da imprensa. Aquela carta de abril foi
categórica. Direta. O Papa convalidou os
depoimentos dos denunciantes de Karadima, disse sentir “dor e vergonha”, lamentou não ter recebido “informação verdadeira e
equilibrada”, e sugeriu colocar a Igreja chilena em “estado de oração”.
Esse documento, cheio de crítica e autocrítica, é a gênese da viagem dos bispos
que massivamente foi iniciada nesta quinta-feira, e que conta com todos os
olhos do mundo colocados sobre a Igreja local. Claramente, não é um passeio.
A
reunião, que durará três dias e meio, terá como eixo central as conclusões do
relatório que o arcebispo de Malta, Charles
Scicluna, elaborou, por ordem papal, a respeito das denúncias sobre eventuais acobertamentos do bispo de Osorno, Juan
Barros, no caso Karadima.
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DOM JUAN BARROS Bispo de Osorno, no Chile, acusado de acobertar padre Karadima |
Os
31 membros da Conferência Episcopal que viajam sabem o que enfrentam. Uma reunião na qual o Papa poderá
introduzir mudanças profundas na cúpula eclesial chilena.
Por
volta das 9h, no Aeroporto de Santiago, os prelados começaram a ser vistos.
Vários já estão na Europa, como os bispos Juan
Barros (Osorno), Horacio Valenzuela
(Talca) e Tomislav Koljatic
(Linares) - os três mais vinculados ao ex-pároco de El Bosque -, além de Bernardo Bastres (Punta Arenas). Mas, a
grande maioria partiu nesta quinta-feira.
Um
dos primeiros a aparecer no setor de conexões internacionais e solitariamente
foi o bispo de Iquique, Guillermo Vera,
que disse ao La Tercera que este “é um momento de diálogo, de nos
escutarmos, de escutar o Papa e de buscar o melhor para a Igreja no Chile”.
Vera,
que durante 15 minutos permaneceu na fila para o check-in de forma silenciosa,
acrescentou que “é bom que o Papa nos
reúna e queira conversar. Isso fala de sua preocupação com a Igreja, que deve
ser uma comunidade de luz e esperança”.
Poucos
minutos depois, no mesmo setor do terminal aéreo, chegou o bispo de Ancud, Juan María Agurto, que concordou com
Vera e fez um mea culpa a respeito de
como os religiosos devem servir o país. “Tanto o Papa Bento como o Papa
Francisco receberam as vítimas destes fatos. Recordemos que (Francisco) fez
isto aqui também, no Chile, sendo assim escutaremos toda a avaliação que o Papa
reuniu e juntos discerniremos, como pastores, sobre o modo como devemos
continuar caminhando”.
De
forma paralela, mas pelo setor VIP do
aeroporto, começaram a chegar outros bispos. Entre eles, Carlos Pellegrin (Chillán), junto ao
bispo emérito de La Serena, Manuel
Donoso.
Em
seguida, chegou Jorge Vega, de
Illapel, e Cristián Contreras Villarroel,
de Melipilla. Pouco tempo depois, no mesmo local, se apresentaram o bispo
auxiliar de Santiago, Fernando Ramos;
Cristián Contreras Molina, de San
Felipe; e o bispo de Rancagua, Alejandro
Goic, que destacou, em relação ao encontro, que “não há nada a dizer”.
O
último a chegar nesse setor foi o arcebispo de Santiago, Ricardo Ezzati. Desceu de seu carro e se dirigiu diretamente ao
espaço VIP, sem dar declarações. Nesta sexta-feira, viajará outro grupo, entre
os quais está o bispo de San Bernardo, Juan
Ignacio González. No sábado, os últimos, e na segunda-feira [dia 14 de
maio] os 31 estarão no Vaticano.
Os dois primeiros artigos foram traduzidos do
espanhol e do italiano, respectivamente, por André Langer. O terceiro e último artigo foi traduzido do espanhol
pelo Cepat.
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