CONFUSÃO ENTRE PATOLÓGICO E EXISTENCIAL
A medicalização da experiência humana
Gérard Pommier*
Variação
do humor ou momentos de tristeza e tensão
são
sempre sinais de doença?
A
indústria farmacêutica incita, contudo, à transformação de
dificuldades
normais em patologias, às quais ela oferece uma solução
Diante da realidade do “sofrimento psíquico” – uma das mais
importantes patologias modernas –, entrou em ação, há algumas décadas, uma
maquinaria diagnóstica nunca antes vista, cujo objetivo é explorar esse enorme
mercado potencial. Para isso, foi necessário primeiro substituir a grande
psiquiatria europeia, que, graças a observações clínicas múltiplas e coerentes,
reunidas durante os dois últimos séculos, havia repertoriado os sintomas,
classificando-os em grandes categorias: neuroses,
psicoses e perversões. Munido desses conhecimentos, o especialista podia dar
um diagnóstico e distinguir os casos graves dos causados por circunstâncias
passageiras. Ele separava então o que
exigia o uso de medicamentos daquilo que poderia ser solucionado melhor com a
conversa.
A psiquiatria clássica e a
psicanálise haviam chegado às mesmas conclusões. Essas duas abordagens tão
distintas se auxiliavam e se enriqueciam mutuamente. O mercado de medicamentos
ainda guardava proporções razoáveis, o que deve ter dado o que pensar à “Big
Pharma” – apelido conveniente para o enorme poder dos laboratórios
farmacêuticos, que fazem uma corte assídua tanto aos clínicos gerais quanto às
mais altas instâncias do Estado e dos serviços de saúde, com os quais sabem se
mostrar bem generosos (oferecendo, por exemplo, cruzeiros de “formação” aos
jovens psiquiatras).
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Última edição do: Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais Sigla DSM em inglês - a "bíblia" que diz o que é doença mental no mundo |
A jornada de conquista desse
grande mercado começou nos Estados Unidos, com a Associação dos Psiquiatras Americanos (APA) e seu primeiro manual
de diagnóstico e estatística dos problemas mentais, o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual de Diagnóstico e Estatística dos
Transtornos Mentais, ou DSM), em 1952.[1] Em 1994, a Organização Mundial da Saúde
(OMS) adotou no capítulo “Psiquiatria” da Classificação Internacional das
Doenças as nomenclaturas do DSM-IV, o que levou vários países a fazer o mesmo. Seguiu-se uma inflação de patologias
repertoriadas. Havia sessenta em 1952, mas 410 em 1994, no DSM-IV.
Extinguir
o vulcão
Negócio é negócio. O método DSM tem de ser simples: não se
cogita buscar a causa dos sintomas nem saber a que estrutura psíquica eles
correspondem. Basta encontrar o caso que se conforme ao comportamento
visível do paciente. Essa prática
esquece que um sintoma não é jamais uma causa. A conversa com o psiquiatra
mal pode ser considerada necessária, pois serve apenas para repertoriar os “transtornos”
superficiais: “transtornos” do
comportamento, da alimentação, do sono… enfim, “transtornos” de todos os tipos,
até a recente invenção dos “transtornos” pós-atentados. A cada um corresponde – maravilha! – um medicamento. Foi nessas
águas perturbadas que naufragaram os antigos diagnósticos. O lobby da Big Pharma conquistou também
as faculdades de Medicina, onde só se ensina o DSM. Mais: os próprios
laboratórios transmitem os ensinamentos – numerosos conflitos de interesses
foram denunciados. A grande cultura
psiquiátrica acabou esquecida, de sorte que, diante de um paciente, o novo
clínico made in DSM não sabe mais se
está lidando com uma psicose, uma neurose ou uma perversão. Ele não distingue um
problema grave de um estado circunstancial. E, na dúvida, receita
psicotrópicos…
“Depressão”, por exemplo, é
palavra que faz parte do vocabulário corrente. O blues (tristeza) pode dominar qualquer pessoa, a qualquer momento
da vida. Mas por que dar esse sentido ao conceito de “depressão”? Ela foi elevada à dignidade de uma doença à
parte. Contudo, a tristeza pode ser
um sintoma tanto de melancolia – acarretando risco elevado de suicídio – quanto
de um estado passageiro e mesmo normal, como o luto. Confúcio recomendava
ao filho um luto de três anos após a morte do pai; hoje, se você continua
triste depois de quinze dias, está doente. Vão lhe dar antidepressivos, que
podem temporariamente aliviar o problema, mas não o resolverão. Entretanto,
como não convém interromper o tratamento de repente, a prescrição dura às vezes
a vida inteira.
O marketing do DSM é simples:
basta inventar, a intervalos regulares,
novos transtornos que misturem a patologia e o existencial. Isso é muito
fácil, já que a existência se apoia naquilo que nos faz ir em frente. Aquilo que não funciona – em nossa vida –
nos dá energia para evitá-lo. É necessário chorar antes de rir. Estamos à
beira de um vulcão: extingui-lo com medicamentos que não passam de drogas é
extinguir uma vida, porquanto viver é correr riscos o tempo todo. “O patológico
só tem sentido para o improdutivo”, dizia o escritor Stefan Zweig.[2] O nome de
alguns medicamentos parece corroborar essa ideia, mas em uma acepção no mínimo
discutível: em certas formas agudas de psicose, os psicotrópicos são
imprescindíveis para acalmar as alucinações e os delírios. Tais medicamentos
são chamados de antipsicóticos. Na cabeça do fabricante, essas moléculas
estariam então destinadas a acabar de vez com a pessoa que sofre de psicose? O
fabricante esquece uma coisa: o
“paciente” é sempre maior que seu padecimento. Esses remédios deviam
chamar-se de preferência “pró-psicóticos” ou “filopsicóticos”, pois um psicótico libertado de seus delírios é
frequentemente um grande inventor (o matemático Georg Cantor), um grande
poeta (Friedrich Hölderlin), um grande pintor (Vincent van Gogh) ou um grande
filósofo (Jean-Jacques Rousseau). Mas a Big Pharma pouco se importa com a
liberdade reencontrada pelo paciente, que no fim poria em causa sua empresa.
Ela prefere o ópio. E seus vapores se instalam com facilidade, porque o “transtorno” é associado às manifestações
efetivas do sofrimento psíquico.
Não bastasse isso, mais vale que o número de “transtornos”
cresça e se multiplique. Entre os mais recentes, o “transtorno bipolar” se beneficiou de uma ampla promoção midiática,
embora apenas patologize a doença universal do desejo: este se atira, rindo, para o objeto de seu sonho, mas,
quando o apanha, o sonho está mais longe ainda e o riso se transforma em
lágrimas. Enquanto a vida segue seu curso, nós
todos somos normalmente “bipolares”, hoje alegres, amanhã tristes.
Acontece, porém, que nas psicoses melancólicas o objeto de desejo é a própria
morte ou a explosão de um surto maníaco. O
diagnóstico de “bipolaridade” se torna então criminoso, pois não faz distinção
entre o ciclo maníaco-depressivo das psicoses – com o risco de passagem ao
ato grave justificando a prescrição de neurolépticos – e a euforia-depressão das neuroses. Essa distinção, riscada dos
DSMs, provoca inúmeras situações dramáticas.[3]
O “transtorno” mais comum e inquietante, pois diz respeito às crianças, que sofrem sem saber
o motivo e não podem se queixar, é sem dúvida o “transtorno do déficit de atenção com ou sem
hiperatividade” (TDAH). Essas
dificuldades da infância vêm sendo enfrentadas há tempos por psiquiatras
infantis e psicanalistas, pioneiros na matéria. Mas, como se trata de problemas peculiares a cada criança, eles não ousaram
rotulá-los sob um “transtorno” geral. Graças a isso, são hoje acusados de
não propor medidas, principalmente pelas associações de pais, algumas delas
subvencionadas por laboratórios farmacêuticos (por exemplo, a associação
Hypersupers TODA/H France, apoiada pelos laboratórios Mensia, Shire, HAC Pharma
e NLS Pharma).
A imprecisão desse pretenso
diagnóstico equivale a dizer, por exemplo, que a tosse é uma doença. E o
exemplo vem de cima: em 29 de setembro de 2017, houve na Universidade de
Nanterre uma conferência em favor do diagnóstico de TDAH sob o patrocínio do
presidente francês, Emmanuel Macron, e da ministra da Saúde, Agnès Buzyn. Os
psicanalistas inscritos para o colóquio se viram pura e simplesmente impedidos
de entrar pelos porteiros. O TDAH não
existe nas classificações francesas, seja a Classificação Francesa dos
Transtornos da Criança e do Adolescente (CFTMEA), fiel à psiquiatria francesa,
ou mesmo a Classificação Internacional das Moléstias (CIM-10), que acolhe as
opções do DSM. Elas descrevem apenas os problemas de agitação. E agitação não é
doença. Pode ter várias causas (problemas familiares, dificuldades
na escola etc.); exige primeiro que as
crianças e a família sejam ouvidas, e isso muitas vezes basta para resolver
tudo. Com o TDAH, o sintoma se transforma em doença e, mais grave ainda,
atribuem-lhe causas “neurodesenvolvimentistas”. Essa afirmação não repousa
sobre nenhuma base científica, ao passo que provas não faltam das dificuldades
causadas por problemas no seio da família ou na escola…
Jerome Kagan,
professor de Harvard, declarou em uma entrevista de 2012: “O TDAH não é uma patologia, mas uma invenção. […] Oitenta por cento
dos 5,4 milhões de crianças tratadas com Ritalina
nos Estados Unidos não apresentam nenhuma anormalidade metabólica”.[4] Na França,
Patrick Landman mostrou em seu livro Tous
hiperactifs? [Todos hiperativos?] (Albin Michel, 2015) que o TDAH não tem nenhuma causa biológica
identificável: seus sintomas não são específicos e não apresentam
indicadores biológicos. Nenhuma hipótese neurobiológica foi validada. Leon
Eisenberg, inventor da sigla “TDAH”, declarou em 2009, sete meses antes de
falecer: “O TDAH é o exemplo típico de
uma doença inventada. A predisposição genética para o TDAH é totalmente
superestimada”.[5] Todavia, com a
ajuda do lobby, cerca de 11% das crianças com idade entre 4 e 17 anos (6,4
milhões) receberam o diagnóstico de TDAH
desde 2011 nos Estados Unidos, segundo os Centros de Prevenção e Controle
das Doenças norte-americanos. Segue-se quase sempre uma prescrição de Ritalina (metilfenidato), que contém
moléculas consideradas estupefacientes nas classificações francesas. A
prescrição dessa anfetamina em grande escala poderia provocar um escândalo
sanitário semelhante aos do Mediator e do Levothyrox. Essas substâncias viciam, e não se exclui – possibilidade ainda em
discussão – uma correlação entre as
crianças que tomaram Ritalina e os adolescentes que se drogam.
As crianças não são poupadas
pelos transtornos da sociedade, que lhes impõe o imperativo do sucesso rápido,
da competitividade, da obediência a normas que não se aplicam à sua idade. As
recalcitrantes são facilmente consideradas hoje “deficitárias”. É, portanto,
inquietante ver surgir em um site do Ministério da Educação Nacional da França
uma mensagem endereçada aos professores afirmando, sem provas, que o TDAH é uma
“doença neurológica” e fornecendo uma receita detalhada para o estabelecimento
de diagnósticos prévios. Os “sinais indicativos” propostos poderiam se aplicar
a quase todas as crianças. Sempre a mesma mistura
de problemas normais e patologia…
A
infância na linha de frente
Há tempos, Michel Foucault pôs em evidência a repressão, notadamente pelos Estados e as
religiões, desse “mal-estar na cultura” que é a sexualidade. Hoje, a camisa
de força de um patriarcado de direito divino está em via de marginalização.
Como a repressão vai se organizar daqui por diante, supondo-se que o termo
“sexualidade” deva ser entendido em sentido amplo? A indústria farmacêutica é que pretende tomar as rédeas da ciência.
A mensagem é clara:
“Não vos
inquieteis, ó vós que tendes insônias, momentos de desconsolo,
excitação
exagerada, ideias suicidas!
A culpa não é
vossa, é de vossos genes, de vossos hormônios;
sofreis de um
déficit neurodesenvolvimentista,
e nossa farmacopeia
vai consertar tudo”.
Trata-se de fazer crer que tudo se resume a problemas
de neurotransmissores e de mecânica, nos quais o humano não entra. Seria necessário esquecer que as mazelas deliciosas
e cotidianas das relações entre homens e mulheres, as questões jamais
resolvidas de filhos com pais, as relações de forças angustiantes com a
hierarquia e o poder deitam raízes nas profundezas da infância.
GÉRARD POMMIER - autor deste artigo |
Por todos os lados, a
infância está na linha de frente, o que torna o caso do TDAH ainda mais
“perturbador” que os outros. Em todos os
tempos e lugares, a criança é a primeira a ser reprimida, espancada, formatada.
Quando um professor da velha escola puxava as orelhas de um aluno agitado, isso
era – por mais chocante que pareça – quase mais humano do que exigir-lhe um
diagnóstico de deficiência. Preservava-se uma relação pessoal, que a
pseudociência elimina. Pela primeira vez
na história, é em nome de uma pretensa ciência que as crianças são “espancadas”.
Todos os anos o Papai Noel, esse mito de múltiplas estratificações (como bem
mostrou o etnólogo Claude Lévi-Strauss),[6] traz para as crianças presentes a fim de consolá-las.
Hoje, a Big Pharma pretende vestir o
capuz do Papai Noel. Mas não nos esqueceremos de que, sob a roupa vermelha,
esconde-se uma sombra muito parecida com o Açougueiro da Festa de São Nicolau.[7]
* GÉRARD POMMIER é médico psiquiatra, psicanalista, professor
universitário emérito e diretor de pesquisa na Universidade Paris 7. Autor,
principalmente, de Comment les
neurosciences démontrent la psychanalyse [Como as neurociências dão suporte
à psicanálise], Flammarion, Paris, 2010, e de Féminin, révolution sans fin [Feminino, revolução sem fim],
Pauvert, Paris, 2016.
N O T A S
[1]
Ver “La bible américaine de la santé mentale” [A bíblia americana da saúde
mental], Le Monde Diplomatique, dez. 2011.
[2]
Stefan Zweig, Le Combat avec le démon:
Kleist, Hölderlin, Nietzsche [A luta com o demônio: Kleist, Hölderlin,
Nietzsche], Le Livre de Poche, Paris, 2004 (1. ed.: 1925).
[3]
Eu mesmo acompanhei em Saint-Anne um paciente melancólico a que um psiquiatra,
ignorante de tudo o que não está no DSM, deu alta. Ele se suicidou. Vi inúmeros
casos semelhantes.
[4]
“What about tutoring instead of pills?” [Que tal monitoramento em vez de
pílulas?], Spiegel Online, 2 ago. 2012. Disponível em: <www.spiegel.de>.
[5]
“Schwermut ohne Scham” [Tristeza sem vergonha], Der Spiegel, Hamburgo, 9 fev.
2012.
[6]
Claude Lévi-Strauss, Le Père Noël
supplicié [Papai Noel supliciado], Seuil, Paris, 1994.
[7]
Na França, é bastante difundida a lenda de São Nicolau, precursor do Papai
Noel. Durante o inverno, três crianças bateram à porta do açougueiro Pierre
Lenoir. Ele aceitou abrigá-las durante a noite. Porém, assim que elas entraram,
ele as matou. Em outra noite, São Nicolau passava pela região e buscou abrigo
na mesma casa. Enquanto dormia, ele sonhou com o assassinato das crianças e
rezou até que elas ressuscitassem, tornando-se assim protetor das crianças.
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