É um absurdo, cuidado ! ! !
Grupos pró-intervenção militar tentam influenciar
rumo de greve dos caminhoneiros
Ricardo Senra
Não se
deixe enganar!!!
Não haverá intervenção
militar, não haverá soluções violentas!!!
Nossa crise
se resolverá com escolhas bem feitas!!!
«Oi, galera. Sou caminhoneiro, estamos juntos aí
na greve e estamos fazendo adesivos para colar nos nossos carros, nos dos
colegas e nos de todo mundo que apoiar essa greve. Intervenção militar já. Se a
gente não tirar esses corruptos do poder, a gente não vai para frente, não.»
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Imagens circulando em grupos de motoristas associam intervenção militar à greve dos caminhoneiros |
No
vídeo, que se espalha por grupos de caminhoneiros no WhatsApp, o homem manda o
recado em frente a uma impressora industrial que mostra centenas de adesivos
prontos para serem colados nos vidros dos veículos.
Em
outro vídeo caseiro gravado em São Paulo, em meio a uma sequência de caminhões
que bloqueavam uma rodovia, um motorista grita: «Representando o
caminhoneiro brasileiro, o transportador de carga. Aqui tem brio, aqui tem
sangue. (Estamos) parando São Paulo, parando o Brasil e indo para Brasília
destituir os três poderes corruptos. Intervenção militar já. O povo está
cansado de sustentar estes corruptos. Aqui é patriota.»
Chegando
ao quarto dia, com reflexos em abastecimento e transportes de pelo menos 15
estados, mais o Distrito Federal, a greve organizada por caminhoneiros
extrapolou sua pauta inicial, concentrada na exigência da redução nos preços
dos combustíveis, e vem ganhando pleitos difusos – incluindo o discurso
anticorrupção, que inclui vozes em apoio à intervenção militar, vindo tanto de
dentro quanto de fora do grupo.
A
BBC Brasil entrou em cinco grupos fechados criados em redes sociais por
caminhoneiros para difundir informações sobre a greve. Em todos eles, frases de
apoio a militares começaram a ganhar força nos últimos dias.
«As
reações à greve dos caminhoneiros, amplamente apoiada pela população,
demonstram que o brasileiro está sem paciência alguma com as “autoridades”.
As condições são ideais para uma verdadeira revolução que refunde o Brasil. Mas
onde está a liderança desse processo? Escrevam no para-brisa dos caminhões e
carros. Intervenção militar!», diz uma das mais replicadas.
Em
tradicionais grupos militaristas do Facebook, como um chamado «Eu apoio
o general Mourão», uma transmissão ao vivo feita em Minas Gerais, na última
quarta-feira, mostra um caminhão coberto por uma faixa verde amarela com a
frase “Intervenção Já”. "Nós vamos derrubar este governo do
crime", diz um dos narradores.
Outro,
gravado no Rio Grande do Sul, mostra uma faixa de 60 metros aberta em
frente a uma sequência de caminhões estacionados. Eles também pediam o fim
do atual sistema democrático no Brasil.
“Liberdade de expressão”
Junto
às manifestações políticas radicais e militaristas, grupos ligados aos
grevistas também expõem uma escalada de violência nos acampamentos em beiras de
estrada.
Em
um dos vídeos que circulam nos aplicativos de mensagem, visto pela reportagem
no grupo «Família Estradeira», um homem que se apresenta como de Leopoldina
(MG) mostra uma pessoa sendo linchada com chutes na cabeça e na barriga
após supostamente tentar roubar carga dos caminhões aglomerados em um posto de
gasolina.
Um
dos motoristas tenta intervir: «Cem homens batendo em um só. Isso é judiar»,
mas é interrompido. «Ele caiu no chão só, não bagunce o nosso coreto»,
responde outro.
A
BBC Brasil conversou com porta-vozes da Associação Brasileira dos
Caminhoneiros (Abcam) sobre os
discursos pró-intervenção militar em grupos e acampamentos ligados à greve.
«Acredito
que a intervenção militar seja uma bandeira levantada por alguns caminhoneiros
porque essa pode ser a alternativa que eles veem para sanar esses constantes
casos de corrupção no país. Mas não posso dizer que a Abcam apoia a
intervenção», avalia Carolina Rangel, porta-voz da associação.
«Se
o caminhoneiro X, Y ou Z acredita que a intervenção é o melhor caminho, a gente
aceita. A gente não tolhe o direito de manifestação política de ninguém, é
liberdade de expressão.»
Rangel
afirma que é «consenso entre as lideranças da Abcam uma insatisfação em
relação ao governo, não só este como o anterior».
«Não
temos ligação com nenhum partido político, nem com o MST, nem os pró-Lula, nem
os Fora Temer. Não temos nenhuma ligação ou envolvimento político dessa
natureza. A nossa insatisfação reflete a da população como um todo.
Apesar de grande parte dos brasileiros não abastecerem seus carros com diesel,
que é o nosso pleito específico, todo mundo está sendo onerado com o aumento
dos combustíveis e com a inflação em geral», diz a porta-voz à BBC Brasil.
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Pauta inicial reivindicava redução no preço do diesel, mas escalada da greve atraiu outros grupos |
Alta no Google
Na
manhã desta quinta-feira, «intervenção militar» era a segunda pesquisa mais
feita por brasileiros no Google. [Onde é que
estamos com a cabeça e a nossa memória histórica?]
Publicações
sobre o tema feitas por páginas militaristas chegavam a mais de 20 mil
compartilhamentos no Facebook.
Uma
delas mostrava um sindicalista ligado a Central Única dos Trabalhadores
(CUT) sendo expulso de um acampamento de caminhoneiros em Brasília,
enquanto era chamado de oportunista.
«É
até bom saber que os caminhoneiros que estão na ponta estão levando a política
da Abcam de não ter vínculo com partido político, ou com a CUT, ou o Movimento
dos Sem-Terra. Não levantamos nenhuma bandeira, a não ser a do transportador
autônomo, que é reduzir impostos e preço do combustível», disse a porta-voz
da associação.
Em
um dos grupos no Facebook - o «Caminhões Top (Só Elite)» –, um motorista
publicou um brasão do Exército e convocou os colegas.
«Temos
uma grande chance em nossas mãos de aproveitar esta greve para pedir
intervenção militar, nova constituinte, e novas eleições sem os comunistas, e
junto com esta intervenção a caçada a todos estes ladrões que estão no governo
(...) O Exército entraria em ação em uma semana, vejam, podemos estar a uma
semana do fim desta roubalheira toda, está em nossas mãos, quem apoia
compartilha e curte.»
A
reação de apoio impressiona: «A situação que o Brasil está hoje era para o
Exército já ter tomado de conta dos poderes», dizia um. «A nossa bandeira
jamais será vermelha.»
De
outro lado, alguns dos usuários tentavam demover os militaristas: «Militar
no poder nunca mais», «Eles são só come e dorme, não vão resolver nada,
não se iludam», reagiram alguns – logo classificados como comunistas e com
palavrões pelos demais.
Na
página «Adeptos da INTERVENÇÃO CONSTITUCIONAL DAS FFAA», criada há pelo
menos dois anos para apoiar militares, a greve dos caminhoneiros se transformou
no principal assunto desde o início da semana.
«Os
caminhoneiros podem mudar o rumo do país. Eles são a nossa voz, a voz dos
intervencionistas», diz um dos membros. [Isso é o que eu chamo de manipulação de um movimento!!!]
Governo em alerta
A
força da mobilização dos caminhoneiros em quase todo o país pareceu surpreender
ao próprio governo federal.
Após
declararem que os efeitos da greve não seriam tão profundos, ministros como Eliseu
Padilha (Casa Civil), Carlos Marun (Secretaria de Governo) e Valter
Casimiro (Transportes) receberam organizações ligadas à categoria.
Antes
do encontro, o próprio presidente Michel Temer discutiu o assunto com
Padilha e com o ministro da Fazenda, Eduardo La Guardia, além do secretário da
Receita Federal, Jorge Rachid, e os instruiu a pedir uma trégua de três dias
aos caminhoneiros para que pudesse ser encontrada uma solução.
Os
comentários de Temer repercutiram mal nos grupos de caminhoneiros. «Não tem
trégua. Ladrão!».
Não
há uma organização que possa ser apontada como líder da paralisação.
A proposta de greve começou a circular de forma espontânea em redes sociais e
grupos de Facebook e WhatsApp de caminhoneiros, como os acessados
pela reportagem.
Além
da Associação Brasileira de Caminhoneiros (Abcam), uma das principais
entidades envolvidas é a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos
(CNTA), que congrega a maioria dos sindicatos de motoristas autônomos, e a União
Nacional dos Caminhoneiros do Brasil (Unicam).
O
movimento acabou engrossado pelos caminhoneiros de frota também –
isto é, por aqueles que são contratados, com carteira assinada, por
transportadoras.
«Começou
com os autônomos. Mas como a situação está ruim para todos, as empresas (e
os motoristas contratados por elas) também aderiram. E aí surgem várias
associações, várias pessoas querendo representar. Tem também alguns que são
pré-candidatos (às eleições de 2018)», diz o caminhoneiro Ivar Schmidt, um
dos principais líderes dos protestos de caminhoneiros de 2015, que afirma não
estar à frente das movimentações atuais.
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