Enfim, uma análise equilibrada!

“Não há apatia pela disputa política:
há desencanto”

Entrevista com Boris Fausto

Sonia Racy

Historiador fala da crise atual da democracia, adverte que os partidos
“perderam o chão” e se diz atento à mobilidade social e
às novas formas de atuação na sociedade
BORIS FAUSTO
Historiador e Professor da USP aposentado

A meio caminho de uma eleição presidencial, o Brasil convive, hoje, com dois desafios diferentes, mas que se misturam:
a) De um lado, uma política desmoralizada e uma economia que não deslancha.
b) De outro, a impressão, em muitos setores, de que a democracia não dá mais conta de atender, num mundo globalizado e digital, às demandas da sociedade.

Já entrado em seus 90 anos, o historiador Boris Fausto, que viu de perto o intenso sobe desce da democracia brasileira ao longo do século 20, admite: os dois desafios são reais. Mas acrescenta: “A sociedade não tem apatia pela disputa eleitoral. Ela tem é desencanto.”

E ele vê cenários novos pela frente. “Assistimos à emergência de uma nova classe média ligada aos serviços, à tecnologia, aos pequenos negócios – e ela vai ter um peso político no futuro”, diz nesta entrevista a Gabriel Manzano. Esses grupos, segundo ele, “vão ocupar o antigo espaço das classes médias hoje envelhecidas”. A seguir, os melhores trechos da conversa.

As altas taxas de votos nulos e brancos nas pesquisas coincidem com uma onda de teses em que a democracia é acusada de não conseguir atender às demandas de uma sociedade digital e globalizada. Vê relação entre os dois?

Boris Fausto: Não dá para falar da democracia no Brasil sem falar de uma crise que temos no sistema democrático no mundo ocidental inteiro. Ele viveu, de um século para cá, altos e baixos. Primeiro a fase de ascensão da liberal democracia até a crise nos anos 20, depois as etapas de regimes autoritários, inclusive no Brasil. Nazismo, fascismo e estragos da Segunda Guerra Mundial foram seguidos de novo período de êxito do sistema democrático. Por aqui houve um hiato com o regime militar e enfim a redemocratização, que trouxe muitas esperanças, até exageradas. No entanto, a crise que temos hoje é diversa das outras. É mais profunda, representa uma virada.

Por que uma virada?

Boris Fausto: O discurso mudou. O que se diz, agora, é que a democracia não está dando conta. E por que isso acontece? Porque a estrutura da sociedade mudou. Não falo de princípios morais ou de comportamento. Falo no sentido de que não há mais um sistema fabril industrial como o do passado. As classes, tal como existiram naquela fase, desapareceram. Hoje temos mais uma sociedade de massas do que de classes. E isso resultou, no nosso caso, numa crise dos partidos.

Como definiria essa crise?

Boris Fausto: Comecemos lembrando que o Brasil nunca teve coesão social, a consistência e a fidelização de um grupo a uma ideia – enfim, partidos que de fato “representassem” grupos. Mas em décadas passadas, bem ou mal os partidos tinham alguma fisionomia ideológica e de classe. Havia três grandes legendas, PSD, PTB e UDN. Era Juscelino contra Lacerda… A disputa representava, sem erro, a dinâmica social. Hoje são tantos partidos e nenhum tem, de fato, um chão na sociedade. Não representam os representados. Levam a uma desmoralização total da democracia.

A que atribui essa decadência?

Boris Fausto: Aconteceu um grande erro cometido pelo Supremo Tribunal Federal – o de ter derrubado, lá atrás, a cláusula de barreira e permitir o aparecimento de dúzias de partidos. Mas o fenômeno é mais amplo. A sociedade mudou, e também a política. No passado pelo menos havia limites que ninguém se atrevia a ultrapassar, eticamente falando. No atual regime partidário se troca de legenda por tudo ou por nada, para vender apoio, comprar conforto. Implantou-se uma corrupção sistêmica como nunca se viu.

Há duas críticas básicas quanto ao regime democrático: que parte da sociedade não se interessa por política e que desafios cruciais – meio ambiente, explosão demográfica, poder financeiro, crime organizado – são hoje de ordem planetária. O que pensa disso?

Boris Fausto: É fato que os Estados nacionais não dão mais conta dessa realidade mundial. O descompasso é claro e isso põe as democracias contra a parede. A realidade da globalização tromba com a estreiteza dos Estados nacionais e isso vale não só no universo da política mas para todos os outros. Mas dizer para onde isso aponta seria mero exercício de adivinhação. E fica ainda mais complicado com a vitória de um Donald Trump e sua política, apoiada por uma massa que não quer ver essa realidade.

Como se resolveria?

Boris Fausto: Talvez com a criação de organismos internacionais que tivessem poder de decisão. Mas a experiência da ONU revela também os limites disso. A instituição vive paralisada por um mundo de vetos. Os cinco países do Conselho de Segurança adquiriram o poder de impedir qualquer coisa que não lhes agrade. Imagino aqui duas hipóteses. Uma otimista: nós vamos ter de chegar lá, porque os fatos vão se impor. Veja como os chineses estão se virando para enfrentar a calamidade da poluição. A hipótese pessimista é o que já disse Claude Lévi-Strauss: que um dia o mundo vai acabar (risos).

Outra cobrança é que a democracia ficou muito lenta ante o avanço da cultura digital. Estas enfraqueceram as formas tradicionais de organização e luta política. Concorda?

Boris Fausto: Sim, e o quadro das eleições deste ano no Brasil é um exemplo disso. A fragmentação que vemos no universo político nunca ocorreu antes. Mas é bom lembrar que temos na sociedade grupos unidos por religião, por outras causas comuns, nas quais os filiados mantêm um nexo com seu representante. Daí a atividade das bancadas da bala, a ruralista, os evangélicos. A sindicalista foi ativa, hoje está numa crise enorme.
 
Charge representando as três bancadas de deputados federais e senadores mais fortes no Congresso:
do boi, ligada aos ruralistas (chapéu), da bala, ligada aos militares e defensores do militarismo (fuzil)
e da Bíblia, representada mais por parlamentares evangélicos (colar com a cruz)
Esses grupos são os verdadeiros partidos de hoje?

Boris Fausto: É o que temos. Haveria uma quarta força que se mostra ativa na cena política, o PT – mas ele ignorou sua missão original, virou um campeão da corrupção sistêmica e mergulhou em profunda crise. A conclusão que me ocorre disso tudo é praticar um sadio ceticismo, que não é o niilismo.

Um passo adiante seria uma reestruturação partidária?

Boris Fausto: Sim, mas é bom lembrar que a sociedade avançou muito em novos aspectos. Temos uma boa oferta de organizações sociais, movimentos contra o racismo, das lésbicas, dos gays. A pergunta é: por que esses grupos não conseguem atuar no mundo das decisões políticas?

Talvez porque, no geral, enfrentem a apatia da sociedade?

Boris Fausto: Não me parece. A sociedade não tem uma apatia ao plano eleitoral. Ela tem é desencanto, que é uma coisa diferente. As pessoas querem votar. Quantos votos teve a Marina em 2014, por exemplo? Acho que se os partidos cumprissem direito a sua parte a sociedade estaria hoje animada com a disputa eleitoral. E claro que esse eleitorado teria também a ilusão – a palavra é essa – de que um presidente resolve tudo.

O estudioso Jason Brennan Banner divide a sociedade em três grupos: os “hobbits” (desinteressados), os “hooligans” (fanáticos) e os “volcans” – a minoria que debate e busca o equilíbrio. Ele diz que só estes deveriam poder votar…

Boris Fausto: Esse quadro faz sentido nos Estados Unidos, acho. Aqui, bem menos. O que vejo no Brasil é uma crescente onda no sentido de “que se vayan todos. Você tem uma saída para isso, que é o voto facultativo: se eu não me interesso, não vou votar. Mas valeria a pena introduzir no Brasil o voto facultativo? Pessoalmente, acho que não. Porque as minorias organizadas iriam tomar conta da política, do poder. Acho que tem outro dado a considerar. É que a sociedade brasileira tem uma classe média que é móvel.

E o que significa uma classe média móvel?

Boris Fausto: Falo de uma classe média emergente, ligada aos serviços, à tecnologia, a pequenos negócios… Para onde ela vai? Que tamanho vai ter? Não sabemos, mas isso acabará tendo um peso político aí pela frente. Eles vão ocupar o espaço das classes médias arcaicas que não têm mais lugar. E estas incluem os setores ligados ao funcionalismo público, igualmente em declínio e dependente de um Estado mergulhado em imensa crise fiscal.

A classe intelectual, nisso tudo, tem cumprido seu papel de investigação, análise e orientação para o País?

Boris Fausto: Acho que está aquém desses problemas. Sobretudo contaminada por um vírus do tipo “tenho razão e não quero saber o que você pensa”.

Ou seja, ela tem uma visão autoritária?

Boris Fausto: Não diria necessariamente autoritária, mas que se resume ao seguinte: o Lula fez grandes transformações para as classes pobres e então é razoável aceitar a corrupção como um mal menor. Ora, deveriam fazer uma análise serena, segurar essa simpatia toda, avaliar o que mudou de fato e o que é propaganda… Essa função falta no nosso meio acadêmico. Falta ouvir o outro. A identificação ideológica com os mais pobres permite aceitar coisas inaceitáveis. [São os fins justificando os meios empregados! Tem razão, Boris Fausto!]

Fonte: O Estado de S. Paulo – Caderno 2 – Direto da Fonte: Sonia Racy – Segunda-feira, 14 de maio de 2018 – Pág. C2 – Internet: clique aqui

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