O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM O BRASIL?
Psicanalista aponta risco totalitário nesta crise
de orfandade e miséria emocional
Entrevista com Jacob Pinheiro
Goldberg
Psicólogo,
criminalista e assistente social
José Nêumanne
O “às favas com os escrúpulos” do
AI-5 retrata, para psicanalista e criminalista, “o momento mais sinistro da
política brasileira. O desamor pelo Brasil é autofágico e neurótico e a emoção
derrotista avilta a Nação”
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JACOB PINHEIRO GOLDBERG |
A
atual crise ética, política, econômica e financeira do Brasil é tal, na opinião
do psicanalista e advogado criminalista Jacob
Pinheiro Goldberg, que nos faz viver e reviver a mesma situação de
desamparo e orfandade sofrida com a morte do presidente Tancredo Neves,
repositório da esperança nacional. Segundo ele, o País “vive um stress gravíssimo de autoridade que perturba o cidadão,
criando um estado paranoide”. E pondera: “A violência urbana, o crime
organizado, a corrupção, os choques radicais partidários, o desemprego, o sucateamento
da saúde e da educação e o esgarçamento da autoridade nos reportam ao período
da morte de Tancredo Neves, que defini, na ocasião, como de ‘orfandade e miséria emocional’.
Trata-se, a meu ver, de uma situação de
crise não só institucional, mas também de identidade e, por isso, capaz de ameaçar a própria organização
civilizatória do País. Terreno fértil para surtos e surgimento de movimentos
totalitários”.
Jacob Pinheiro Goldberg nasceu em Juiz de Fora
(MG), em 1933, e é também polonês por decisão do presidente da Polônia, por
serviços prestados àquela cultura eslava (seu livro Magya Wygnania foi traduzido pelo professor Henrik Siwierski e foi
presidente do Grupo de Estudos Czeslaw Milosz). Advogado, é autor de O Direito no Divã (Ed. Saraiva),
premiado na categoria de Direito, Prêmio Jabuti de Literatura. Recebeu da OAB a
comenda Benjamin Colluci. Doutor em
psicologia, é professor convidado em universidades brasileiras e estrangeiras.
Assistente social, publicou livros e trabalhos no Brasil e no exterior. Entre
trabalhos sobre sua obra destacam-se a tese de doutoramento da professora da
Universidade Stanford Marília Librandi-Rocha, na USP, “Parábola e ponto de
fuga, a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg” e a dissertação de mestrado de Aline
Moraes Pernambuco, “A Amerika de Jacob Pinheiro Goldberg”. De sua autoria e
sobre sua atuação estão publicados mais de nove mil artigos, conferências e
documentários.
A
seguir, dez perguntas para Jacob Pinheiro Goldberg:
A
crise do Brasil, hoje, foi descrita há mais de meio século pelo chefão do PSD
do Maranhão de então, Vitorino Freire, que definia uma crise grave com a imagem
da vaca desconhecendo o bezerro. De seu ponto de vista de psicanalista e
advogado criminalista, por favor, responda-me: deu a louca no Brasil?
Jacob: Fundei e dirigi o curso de Psicologia e História na USP convencido
de que compreender a sociedade brasileira e a política não poderia ficar
somente no campo sociológico e econômico. Desde sempre, às vezes como militante
e outras como analista, acompanhei de perto flutuações dos processos do poder
no Brasil. Neste mister que me impus como cidadão estive praticamente com todos
os presidentes da República desde então e atores da cena ideológica, seja em
privado ou publicamente. Particularmente, neste
momento me parece que o Brasil vive um stress gravíssimo de autoridade que
perturba o cidadão, criando um Estado paranoide. A violência urbana, o
crime organizado, a corrupção, os choques radicais partidários, o desemprego, o
sucateamento da saúde e da educação e o esgarçamento da autoridade nos reportam
ao período da morte de Tancredo Neves, que defini, na ocasião, como de
“orfandade e miséria emocional”. Trata-se,
a meu ver, de uma situação de crise não só institucional, mas também de
identidade e, por isso, capaz de ameaçar a própria organização
civilizatória do País. Terreno fértil para surtos e surgimento de movimentos
totalitários.
Antes
de Lula ser preso, e até mesmo antes de ele ser condenado, o senhor observou
nele certa obsessão pelo sacrifício. Isso, de certa forma, influiu no estilo da
defesa dele, que em nenhum momento respondeu a nenhuma das acusações que lhe
foram feitas, mas apenas tentou fazer dele um “perseguido político”. O senhor
diria que ele imagina que esse viés suicida seduz seu público de devotos?
Jacob: Estive, pessoalmente, em
dois momentos de análise do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num programa
de duas horas na Rádio Globo, em que mergulhamos em leituras complexas tanto em
sua personalidade carismática como na sua perspectiva e visão do Brasil, e no
programa de Silvia Poppovic na TV Bandeirantes, quando, ao terminar, ele me
abraçou comovido pelos comentários que produzi em relação ao que entendi de sua
infância.
Posteriormente,
publiquei vários trabalhos equacionando a sua
imagem, que, na minha opinião, flutuou muitas vezes entre o estadista e o
mistagogo, correspondendo à tradição política nacional que se encarnou de
forma dramática em muitas lideranças. À direita, Carlos Lacerda; à esquerda,
Prestes; e, com singularidade comparável a Perón na Argentina, Getúlio Vargas.
Nesta
configuração podemos simplificar em duas categorias: a tipologia suave de
Fernando Henrique e a vulcânica de Lula. Muito da projeção psíquica brasileira tão bipolar, como já afirmei: ou campeão do mundo ou a cloaca do universo.
A vocação sacrificial muitas vezes marca,
e até tragicamente (nossa história política está atravancada de cadáveres, de
suicídios a assassinatos), o pathos e
o ethos da cultura brasileira e,
arrisco-me a afirmar, da contingência humana.
Fugir
deste destino e sublimar o fado é, talvez, um grande desafio, hoje, para nosso
país, e inclusive para Lula enquanto pessoa, “Viver pela pátria” e não “morrer pela
pátria”, eis aí a maturidade da inversão duma herança capaz de nos transformar
na potência da América do Sul. Quanto ao processo jurídico, trata-se de
opções processuais que somente seus advogados podem avaliar como mais
adequadas. De qualquer forma, consigne-se que, além de Lula, o sistema jurídico também está sendo
acompanhado e julgado pela opinião pública, dada a exposição pela TV, de
forma inédita no Brasil.
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GETÚLIO VARGAS & LULA - gestos semelhantes não por acaso |
A
seu ver, é incomum a notória e notável transformação do malandrinho esperto
Lula no corrupto de dimensões internacionais que ele se tornou, usando as
escassas poupanças de um país pobre, de cujo povo ele se julga um símbolo?
Jacob: Internacionalmente, os
sistemas políticos estão em crise institucional.
Figuras
lendárias são submetidas a constrangimentos inimagináveis, principalmente
diante da revolução provocada pelas redes sociais. Políticos e artistas,
banqueiros e ídolos populares não escapam das críticas e de uma invasão de
privacidade que vai do campo sexual ao econômico. Sem dúvida, a paisagem da nossa concepção de “herói e
vilão” está submetida a uma permanente lavagem cerebral em que todos os valores
são questionados.
A
declaração de que não é mais uma pessoa, mas uma ideia, acompanhada de
comparações com Nelson Mandela, Tiradentes e até Jesus Cristo, provém de um
estado patológico de megalomania ou resulta apenas de um truque hábil de grande
comunicador, que Lula é? Ou ainda, quem sabe, as duas coisas?
Jacob: Lula consubstanciou a
carência de uma parcela miserável da nossa sociedade. O que fez e vem fazendo
com esta fé depositada é julgamento para as urnas e para a História. Reconhece
sua competência no papel e o faz com determinação.
Essa
linha de atacar, em vez de se defender, similar à filosofia de grandes generais
e alguns técnicos de futebol – de que a melhor defesa é o ataque –, tem origem
em algum recôndito da alma do líder e pode ser responsável por parte de seu
sucesso?
Jacob: Usando a linguagem
futebolística que lhe é peculiar, e faz parte de sua identificação folclórica,
é da natureza sanguínea e da biografia do self-made
man, o atacante. Quem o imaginar goleiro perde o jogo…
É
comum dizer-se que no Brasil sempre se furtou o erário, mas nunca se soube a
dimensão da corrupção dos agentes públicos. Com o conhecimento que o senhor tem
de políticos e gestores públicos, essa é uma verdade, ainda que parcial, ou
mera lenda urbana?
Jacob: Na análise de políticos
sempre priorizei os aspectos psicológicos de seu comportamento. Creio que a
corrupção é matéria de polícia e Justiça, que devem se incumbir da tarefa.
Ressalvo patriotas e idealistas, de esquerda e direita, que aprendi a admirar,
muitas vezes injustiçados e incompreendidos. Dou o testemunho de grandes
figuras icônicas e sei que posso surpreender, mas assim vi, entre muitos
outros, Luiz Carlos Prestes e Carlos Lacerda.
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MARECHAL LOTT |
O
senhor sempre acompanhou de perto e guarda enorme admiração pelo marechal
Henrique Dufles de Teixeira Lott, o típico exemplo da boa política, mas também
do político ingênuo, derrotado numa eleição presidencial por Jânio Quadros, que
fez da loucura seu instrumento de marketing político. Seria esse embate
presidencial de 1961 o começo do fim das aventuras abortadas de boa política no
Brasil e o ponto de inflexão da completa negação da ética na política e na
gestão do Estado?
Jacob: O marketing político é o responsável por grande parte das farsas, das
manipulações e dos crimes na prática partidária. Creio que Jânio Quadros, e
escrevi sobre isso, foi uma figura sacrificada pelos tumultos e conflitos da
nossa sociedade. Tivemos uma relação humana de respeito. Já o marechal Lott foi, depois de meu pai, o
exemplo maior de retidão e amor ao Brasil que reverenciei, inclusive como
presidente: fui do “Comitê General Stoll Nogueira”, do grupo da esquerda
nacionalista do Exército.
O
Brasil trocou o “ordem e progresso” de nossa Bandeira Nacional pela
frase-síntese da política nacional contemporânea, que é o celebérrimo “às favas
com os escrúpulos” com que o dublê de oficial e político Jarbas Passarinho
saudou o Ato Institucional Número 5, da ditadura militar?
Jacob: Essa frase retrata o
momento mais sinistro da política brasileira. O desamor pelo Brasil é autofágico e neurótico e a emoção derrotista
avilta a Nação.
Como
psicanalista e advogado criminal, o senhor seria capaz de descrever, historiar
e comentar as razões e motivações da tragédia da insegurança nacional, de cujo
iceberg o Rio de Janeiro é apenas a ponta visível?
Jacob: Quando Brizola pediu à dra.
Terezinha Zerbini que me indicasse pelo movimento negro e feminino do PDT
candidato a senador (do que declinei), me disse num café no Hotel Maksoud: “Quando o morro descer no Rio, o Brasil se
desintegra”.
Era
o momento da morte de Ayrton Senna. Respondi: “Antes, governador, deveríamos subir o morro”. Repito o conceito.
Existe
algum liame lógico, seja na motivação mental, seja na realização do delito,
entre corrupção desenfreada e insegurança pública generalizada?
Jacob: Sim. A corrupção contamina, da mesma forma que a honestidade contagia.
O
ser humano é sempre recuperável para seu feito: à imagem e semelhança de Deus.
Justiça e compaixão. Ordem e progresso.
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