Vaticano condena “cultura profundamente amoral” do sistema financeiro global
Joshua J.
McElwee
National
Catholic Reporter
17-05-2018
Dois dicastérios do Vaticano denunciam o sistema financeiro global
em um documento, condenando a forma como os
mercados servem prioritariamente à minoria mais rica do mundo e dão ênfase ao
lucro a ponto de criar «uma cultura profundamente amoral».
Também dando destaque teológico às críticas
frequentes do Papa Francisco de que «esta
economia mata», a Congregação para a
Doutrina da Fé e o Dicastério para o
Serviço do Desenvolvimento Humano Integral advertem que os mercados globais estão retornando a
picos anteriores de «egoísmo míope», dez anos após a crise financeira de 2008.
«Os mercados,
a hélice poderosa da economia, não conseguem governar a si mesmos», afirmam os escritórios do
Vaticano no documento, intitulado Oeconomicae et quaestiones pecuniariae
e divulgado no dia 17 de maio.
Para ler, baixar e imprimir este importante documento
clique aqui
«É hora de iniciar a recuperação do que é autenticamente
humano, para expandir os horizontes da mente e do coração», observam. «É dever dos agentes competentes e das
pessoas responsáveis desenvolver novas formas de economia e finanças, com
regras e regulamentos para o progresso do bem comum».
O novo documento, cujo subtítulo é «Considerações para um discernimento ético
sobre alguns aspectos do sistema econômico-financeiro atual», apura algumas
das críticas feitas por Francisco ao sistema capitalista ao longo dos cinco
anos de papado.
Em mais de 16 páginas, os dois escritórios do
Vaticano abordam tanto a visão geral do
sistema de mercado mundial como aspectos
técnicos que afirmam estarem aumentando a desigualdade global.
Os dicastérios também apresentam os
ensinamentos de Francisco firmemente assentados na tradição mais ampla da doutrina social católica, citando
extensivamente dezenas de documentos papais anteriores sobre questões
econômicas, tais como o Quadragesimo Anno,
de Pio XI, Populorum Progressio, de
Paulo VI, Sollicitudo Rei Socialis,
de João Paulo II, e Caritas in Veritate,
de Bento XVI.
O ARGUMENTO CENTRAL DO DOCUMENTO é que o sistema econômico deve «visar, acima de
tudo, a promoção da qualidade de vida global que, antes da expansão
indiscriminada dos lucros, leva ao bem-estar integral e cada um e da pessoa
como um todo».
«Nenhum lucro é legítimo quando não se dirige ao objetivo da promoção
integral da pessoa humana, o destino universal dos bens e a opção preferencial
pelos pobres»,
afirma.
Enquanto o documento reconhece que muitos investidores
são "animados por intenções boas e corretas", afirma também que os mercados globais se tornaram «um lugar
onde o egoísmo e o abuso de poder conseguem prejudicar muito a comunidade».
Além disso, afirma que embora algumas
técnicas de criação de riqueza moderna não sejam «diretamente inaceitáveis do
ponto de vista ético», podem ser «exemplos próximos à imoralidade, ou seja,
geram o tipo de abuso e engano que pode prejudicar as partes menos favorecidas».
«O dinheiro em si é um instrumento bom... e é
um meio de construir a liberdade e as possibilidades de expansão da pessoa»,
acrescenta. «No entanto, os meios facilmente
depõem contra a pessoa».
«Da mesma forma, a dimensão financeira do
mundo empresarial, enfocando o acesso ao dinheiro através da bolsa de valores,
é, como tal, positiva», afirma. «No entanto, este fenômeno hoje pode acentuar
as más práticas financeiras que se concentraram principalmente em operações especulativas de riqueza virtual».
O documento é mais enfático ao falar do modo como se dá a formação dos que gerem o
sistema financeiro, dizendo que «o objetivo de meramente gerar lucro cria
uma lógica perversa e seletiva que muitas vezes favorece o avanço de empresários muito capacitados, mas ambiciosos e sem
escrúpulos».
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CARDEAIS LUIS LADARIA & PETER TURKSON Apresentação do documento sobre as finanças internacionais - Vaticano |
Essa formação, diz o
documento, ajuda a «criar e difundir uma
cultura profundamente amoral - na qual muitas vezes não se hesita em cometer um
crime quando os benefícios previstos ultrapassam a pena esperada».
«Esse comportamento
polui gravemente a saúde de todo sistema econômico-social», acrescenta. «Põe em perigo
a funcionalidade e prejudica em grande medida a realização eficaz do bem comum,
sobre a qual se baseiam todas as formas de instituição social».
Dentre as práticas financeiras mais
criticadas pelos escritórios do Vaticano está o uso de contas no exterior para evitar a tributação sobre o patrimônio.
«Hoje, mais da
metade do mundo comercial é orquestrado por pessoas notáveis que reduzem sua
carga tributária ao transferir a receita de um local para o outro», afirmam. «Parece evidente
que todos removeram recursos consideráveis da economia real e contribuíram para
a criação de sistemas econômicos
baseados na desigualdade».
«A evasão
fiscal por parte dos principais interessados, os grandes intermediários
financeiros, que se movem no mercado, indica uma remoção injusta de recursos da economia real, o que prejudica a
sociedade civil como um todo», acrescentam.
«Tudo isso... indica uma estrutura que, como é formada hoje, parece ser totalmente inaceitável
do ponto de vista ético», afirmam.
O documento conclui chamando as pessoas, até
mesmo os consumidores ainda modestos, a trabalhar no sentido de tornar o sistema financeiro mais justo.
«Diante da solidez e da abrangência dos
sistemas econômico-financeiros atuais, poderíamos nos sentir tentados a nos
deixar levar pelo cinismo e achar que com a pouca força que temos pouco pode
ser feito», observa. «Na realidade, cada
um de nós pode fazer muito, principalmente se não ficarmos sozinhos».
Dando o exemplo de alguém escolhendo o que
comprar numa loja, diz que «é necessário
nos treinarmos a escolher mercadorias de investidores que tenham uma jornada
digna do ponto de vista ético».
O documento do Vaticano, datado de 6 de
janeiro e aprovada por Francisco, é assinado pelos líderes de dois dicastérios:
dom Luis Ladaria e cardeal Peter Turkson, juntamente com
os vices.
Traduzido do
inglês por Luísa Flores Somavilla.
Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.
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