Não ao exorcismo mágico. Sim, à bênção espiritual
Juan Masiá
Clavel*
Rita (nome fictício para resguardar a privacidade): Uma pergunta, padre,
o senhor crê no diabo?
Pe.
Juan: Por
que me pergunta isso, Rita?
Rita: É que necessito encontrar um
padre que acredite no diabo para que me possa fazer um exorcismo, e me livre
destas convulsões que me dão e desta fúria que vem a mim por quebrar coisas e
ficar com raiva da minha família e me faz querer machucar as pessoas. Minha mãe
me disse que se deve fazer um exorcismo, que estou possuída por Satanás. Porém,
meu pai, que é de outro país e não é católico, disse que eu devo ir é ao
médico, que isto é enfermidade mental. Uma vez fui a um padre pedir-lhe que me
desse água benta, mas ele disse-me que não deveria acreditar em bobagens. Por
isso eu pergunto isso ao senhor.
Pe. Juan: Sim, compreendo, porém você se
dá conta, filha, que me está fazendo três perguntas distintas ao mesmo tempo.
Vamos por partes. Você perguntou-me três coisas:
1. Perguntou-me se existe o
diabo e se eu creio que ele exista.
2. Perguntou-me se eu lhe
posso exorcizar.
3. Perguntou-me se eu posso
ajudar-lhe a curar-se porque está sofrendo muito. Não foi assim?
Rita: Sim, padre, então o que me
diz?
Pe.
Juan: Comecemos
pela terceira pergunta. Se lhe ajuda que eu fale com você para me contar o que
está acontecendo com você, e orarmos juntos para que Deus a ajude a se livrar
do mal (como dizemos em nosso Pai Nosso, "livrai-nos do mal"), estou à sua disposição
para o que puder lhe ajudar. Vamos rezar juntos com fé e confiança em que o
poder de Deus é mais forte que qualquer poder maligno que nos atormente (o
mesmo vale se esse poder maligno é um diabo ou é o lado obscuro de cada um de
nós). O importante é crer no poder de
Deus, e no poder que Deus pôs dentro de nós para que nos curemos. Por isso,
Jesus dizia, quando curava uma pessoa: «tua
fé no poder de Deus é o que te curou».
Rita: Bom, é alguma coisa, padre,
porém...
Pe.
Juan: Já
sei, a segunda pergunta, você quer é um exorcismo.
Rita: Sim.
Pe.
Juan: Veja
só, eu não posso fazer-lhe um exorcismo como magia para expulsar fora de você
um diabo que lhe tenha possuído. O que
posso, sim, lhe fazer é algo muito melhor e mais eficaz, que é da parte de
Deus: a bênção, melhor dizendo, rezar junto com você para que Deus lhe
bendiga. Para isso, o que é necessário é que você e eu creiamos, que tenhamos
fé no poder de Deus.
Rita: E o senhor me dará essa
bênção com água benta e com a arma da cruz?
Pe.
Juan: Sim,
porém a água não é magia, mas um
símbolo precioso da bênção e da vida que Deus quer derramar sobre você como no
batismo. E a cruz não é um amuleto
nem uma arma para matar demônios, mas o sinal de Cristo crucificado e vivo para
sempre, que lhe quer dar a vida. E a bênção
não é como se eu dissesse «abracadabra», a bênção é uma oração e uma ação de graças,
um remédio de Deus para seu corpo e seu espírito, um derramar sobre você de
graça, paz e alegria.
Rita: Então, bendiga-me, padre. E
posso vir também outro dia, pois pode me acabar o efeito?
Pe.
Juan: Pode
vir sempre que quiser. Porém, saiba que isto não é como a bateria do celular,
que se deve recarregar. A energia da bênção de Deus, ele lhe está dando
continuamente, o próprio Deus lhe está recarregando a bateria a cada momento. A bênção que lhe dou agora é um sinal de
que essa bênção é Deus quem lhe está dando sempre. Assim, levanta o coração
a ele quando estiver bem para dar-lhe graças e quando está mal para pedir-lhe
ajuda e pode estar certa de que você o tem sempre ao seu lado para abençoar-lhe.
Rita: Bem, estou indo mais
tranquila.
Pe.
Juan: E
não necessita que falemos da pergunta que restou, aquela se existe o diabo e se
este padre crê ou não crê no demônio?
Rita: Bom, o certo é que por
curiosidade... além disso, outro dia disseram pelo rádio que o Papa Francisco
disse que o diabo existe e não sei o que pensar depois do que o senhor me
disse...
Pe.
Juan: Isso
podemos esclarecer, veja, justamente na reunião de catequese, após a missa de
hoje, vamos ler e comentar uma carta muito boa que acaba de escrever o Papa
sobre a importância de viver bendizendo a Deus que nos bendiz e de descobrir a
santidade na vida cotidiana. Pega, lhe dou a página que explica o que disse o
papa sobre o poder de Deus mais forte que o poder do mal, seja um diabo ou não.
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JUAN MASIÁ CLAVEL Teólogo, Bioético e Presbítero Jesuíta espanhol |
(Transcrevo o resumo da
catequese sobre o final do Pai Nosso:
Livra-nos do
mal e de todo o maligno)
PONTOS DA CATEQUESE SOBRE O PODER MALIGNO
1. Diz que o poder diabólico
se expressa em um ser pessoal, porém não
que o diabo seja um deus maligno. Não se pode dizer que o diabo seja um
deus maligno ou uma divindade do mal combatida em igualdade de condições com o
Deus bom. Quando a influência de outras religiões dualistas penetrou na cultura
popular do povo do Antigo Testamento, houve necessidade de dizer ao povo que
acreditava no Deus único que nem anjos
nem demônios podem ser divindades, mas criaturas, por isso se simbolizou o
poder diabólico como «anjo caído».
2. O Papa não afirma o
fenômeno da possessão demoníaca. Pelo contrário, diz que «O diabo não necessita possuir-nos. Envenena-nos com o ódio, com a
tristeza, com a inveja, com os vícios» [Papa Francisco. Gaudete et Exsultate, n. 161].
3. Mais que perguntar-se se
existe, teríamos que perguntar quantas
vezes todos e cada um de nós, ao deixar-se levar pelo seu lado obscuro,
expressou o poder diabólico em sua vida.
4. Deve-se dizer que o diabo,
mais que «um ser» é toda uma legião (como se insinua no Evangelho Segundo
Mateus 5,9: meu nome é legião, porque
somos muitos. Meus muitos «eus», os do meu lado obscuro, o do meu eu
enganado, arrastado, seduzido, perdido... todos esses são os demônios,
expressão na forma de seres pessoais (não de divindades malignas) do poder do
mal, que pode e deve ser vencido pelo poder divino.
5. O Papa não recomenda exorcismos de magia contra Satanás, mas a bênção
espiritual dos sacramentos. Para o combate, diz, temos as armas poderosas
que o Senhor nos dá: a fé que se
expressa na oração, a meditação da Palavra de Deus, a
celebração da Missa, a adoração eucarística, a reconciliação sacramental, as obras de caridade, a vida comunitária, o compromisso missionário [n. 162].
6. O principal em toda essa
parte final da carta do Papa não é a questão de se existe ou não o diabo, mas o
tema do discernimento em nossa vida,
de se atuamos de acordo com o BOM ESPÍRITO ou o MAL ESPÍRITO dentro de nós.
*
JUAN MASIÁ CLAVEL é padre jesuíta, Professor de Ética
na Universidade de Sophia (Tóquio) desde 1970, ex-Diretor da Cátedra de
Bioética da Universidade Pontifícia Comillas, Assessor da Associação de
Doutores Católicos do Japão, Conselheiro da Associação de Bioética do Japão,
Pesquisador da Associação de Médicos Católicos do Japão. Centro de Estudos
sobre a Paz da Seção Japonesa da Conferência Mundial das Religiões pela Paz
(WCRP), Colaborador do Centro Social "Pedro Claver", da Companhia de
Jesus em Tóquio.
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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