Cuidado com a internet
Como
o ódio viralizou no Brasil
Fernando
Pugliero
Deutsche Welle
20-08-2018
Números sugerem
que intolerância e desinformação
parecem ter se
naturalizado na internet brasileira.
O que antes seria
denunciado, hoje é curtido e compartilhado.

Nos últimos 11 anos, quase 4 milhões de denúncias
relacionadas a crimes de ódio na internet foram recebidas pela Central
Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos. Isso significa que, por dia,
pelo menos 2,5 mil páginas contendo evidências de crimes como racismo,
neonazismo, intolerância religiosa, homofobia, incitação de crimes contra a
vida, maus tratos a animais e pedofilia foram denunciadas no Brasil.
Mas não é esse o dado que mais surpreende. Em 2016, o número
de denúncias ultrapassou 115 mil, enquanto em 2017, despencou quase pela
metade, para pouco mais de 60 mil. No primeiro ano da série histórica, 2006, o
total de denúncias ultrapassou 350 mil, o que demonstra uma banalização do
ódio nos últimos anos.
“De 2016 para 2017 houve queda no número de denúncias. Mas
isso não quer dizer que o ódio na internet diminuiu. Pelo contrário, ele
aumentou, mas hoje as pessoas não se indignam mais”, aponta Thiago
Tavares, presidente da Safernet Brasil, primeira ONG do país a criar um
canal anônimo para receber denúncias relacionadas a crimes de ódio on-line.
Para ele, o Brasil vive um momento atípico, no qual o ódio
se naturalizou e é, inclusive, utilizado como plataforma política. “Hoje
existe uma chapa presidencial que alimenta o ódio, o preconceito e a
discriminação para captar votos e espaço na mídia” [essa matéria é de 2018,
ano da eleição presidencial], ilustra Tavares.
Apesar da quantidade de conteúdo de ódio circulando nas redes
ser crescente, há cada vez menos pessoas dispostas a denunciar. “Muito
conteúdo que antes seria denunciado, hoje é curtido, compartilhado e viraliza.
Muitas pessoas que antes se indignavam com conteúdos que pregam o racismo, hoje
ajudam a disseminá-lo a partir da interação nas redes sociais”, complementa.
Passos para conter essas
notícias
A estratégia das autoridades brasileiras para conter a
disseminação do discurso de ódio nas redes é semelhante à utilizada na maioria
dos países do mundo e consiste em três passos.
Primeiro precisa ser recebida a denúncia (que pode ser
feita anonimamente online e é encaminhada ao Ministério Público, que decide
sobre a investigação e instauração de inquérito); depois é solicitada a remoção
do conteúdo (Facebook, Google ou outra plataforma são informados sobre a
existência da página e a apagam); e por último ocorre a responsabilização do
autor da postagem (o crime de racismo, que corresponde a 28% das denúncias,
é inafiançável e imprescritível no Brasil).
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Muitos se escondem quando atacam os outros pela internet, o anonimato ajuda a ocultar responsabilidades |
Impunidade: vergonha nacional
O maior problema, entretanto, é que a taxa de
responsabilização em geral, para crimes relacionados não só a ódio, mas também
à violência, é residual. Em 2017, dos 63.880 homicídios em território
nacional, apenas 7% foram esclarecidos e somente 3% resultaram em
sentença condenatória.
“Há um processo de radicalização em curso, sobretudo da
juventude, e há uma crescente polarização da sociedade”, comenta o presidente da Safernet.
Em janeiro deste ano, a ONG lançou um projeto voltado para
jovens de 16 a 25 anos para combater a disseminação do discurso de ódio na
Internet a partir de contranarrativas.
“Precisamos produzir conteúdos que também
viralizem,
mas que promovam a igualdade e os
Direitos Humanos”, diz Tavares.
A proposta, em parceria com o Google e o Unicef, já percorreu
quatro das cinco regiões do país e premia com bolsas no valor de R$ 12 mil para
tirar do papel projetos voltados a grupos sociais vulneráveis, como mulheres,
negros e índios.
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Muitos se sentem juízes dos outros quando usam as mídias sociais |
As redes sociais como
propagadoras
As redes sociais facilitaram a replicação de informações de
modo escalável. Com isso, proporcionaram uma infraestrutura para que as
pessoas repliquem discursos, muitas vezes sem uma posição crítica. Até
2012, o Orkut, extinto em 2014, hospedava o maior número de páginas denunciadas
por crimes cibernéticos. A partir de 2012, esse trono passou a ser ocupado pelo
Facebook.
Para a pesquisadora de redes sociais Raquel Recuero, é
muito mais fácil replicar um discurso em um momento de raiva, sem que se veja,
diretamente, quem é o outro para quem se fala ou agride. A falta de
contexto dá combustível a esse processo.
"Na vida off-line, há sempre um contexto que traz as
informações necessárias para evitar conflitos e modular uma conversa. Tem
coisas que a pessoa diz para os amigos da academia que não diz para os amigos
do trabalho”, explica. Em espaços como o Facebook, haveria uma confusão dessas
redes de contatos e dos espaços. “Isso significa que publicações são feitas
com um determinado público em mente, mas são lidas por outros públicos. Isso
gera problemas de contexto e comentários inadequados”.
Ferramenta recente, os bots
(diminutivo da palavra “robot”, softwares que simulam ações humanas)
trabalham pela disseminação de discursos de ódio, replicando as postagens e,
dessa forma, ampliando seu alcance.
"A tendência é que os ânimos fiquem mais exaltados
nessas eleições e que as pessoas briguem mais por causa do contexto polarizado.
Apesar disso, já há certo escaldamento, pois muita gente já silenciou
pessoas com as quais não concorda”, afirma a pesquisadora. “Embora a
violência discursiva possa ampliar-se dentro dos grupos, não sabemos se circulará.”
O pelourinho moderno
Mulheres negras de classe média entre 20 e 35 anos e com
ensino superior completo são os principais alvo de ataques racistas via Facebook no Brasil. Pelo
menos 81% das vítimas do ódio virtual têm esse perfil, de acordo com um estudo
recém-concluído pelo pesquisador brasileiro Luiz Valério Trindade, PHD em
Sociologia pela Universidade de Sounthampton, na Inglaterra. “Grande parte
dessas mulheres ascendeu socialmente ocupando espaços sociais que são
associados a privilégios ou ambientes predominantemente brancos ou masculinos”,
explica o pesquisador.
Para chegar a essa conclusão, Trindade analisou 109 páginas
do Facebook e 16 mil perfis de usuários da rede social durante três anos e
meio. O levantamento incluiu também 224 artigos jornalísticos que abordaram
casos de racismo nas redes sociais brasileiras entre os anos de 2012 e 2016,
inclusive o da jornalista da Rede Globo Maria Júlia Coutinho, que foi vítima de
ataques raciais nas redes sociais em julho de 2015, e das atrizes Sheron
Menezes e Taís Araújo.
A maior parte das vítimas não se sente confortável em
denunciar os ataques.
“Diante de uma situação de ofensa racial, a classe social exerce um papel
fundamental na hora de denunciar”, aponta. Nos ataques dirigidos a
celebridades, segundo Trindade, o tempo de identificação dos agressores pela
polícia e posterior denúncia pelo Ministério Público não ultrapassa mais que 6
meses. “Em casos no qual a vítima é uma pessoa humilde e de classe social
mais baixa, ela acaba desencorajada na delegacia a prestar queixa”.
Além de identificar o alvo principal do discurso de ódio, a
pesquisa também constatou que 65,6% dos usuários que disseminam intolerância
racial no Facebook são homens na faixa dos 20 e poucos anos.
“A crença de que o que as pessoas fazem online não tem
impacto off-line é tão forte que muitos desses ofensores imaginam estarem
protegidos pela tela dos computadores. A partir do momento em que os
ataques virtuais entram no radar de um meio de comunicação, os ofensores tomam
uma atitude para se desvencilhar da ofensa”, afirma Trindade.
Entre as possíveis ações para “limpar a barra” está a
exclusão da postagem, da conta na rede social, a alteração do status do perfil
de público para privado ou a alegação de que a ofensa se tratou apenas de uma
brincadeira. “Isso sinaliza que aquela pessoa tinha consciência de que o que
ela estava fazendo não era apropriado”, conclui o pesquisador.
Em vez de educação,
smartphone
Sem tradição de debate na esfera pública, boa parte da
população brasileira só começou a participar do debate público de ideias quando
teve acesso à internet. O maior problema, talvez, seja que essa inserção
não se deu através de um processo educacional, mas pela compra de smartphones.
“Sem experiência de debate, a população
começou a acessar a internet
sem se preocupar com os limites da sua
atuação”,
opina o jornalista e doutor em
Ciências Políticas e professor da PUC-SP
Leonardo Sakamoto.
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Publicado em junho de 2016 no Brasil pela Leya |
Ele também é autor do livro O que aprendi sendo xingado na
internet, que explica, por exemplo, como funciona o padrão de distribuição
de informação on-line e alguns dos processos que facilitam o divisionismo de
opinião. Desde 2015, ele afirma ter sofrido milhares de ataques virtuais e
também no mundo real.
Os episódios estão ligados com sua atuação na rede – Sakamoto
também é blogueiro e diretor da ONG Repórter Brasil, especializada em
comunicação e projetos sociais. “Começaram a divulgar que eu recebia dinheiro
para defender o governo e que a organização da qual participo há 17 anos não
exista. Esse tipo de informação falsa se dissemina e, um dia, você acaba sendo
cuspido na rua, derrubado ou perseguido em supermercados”, lamenta. “As pessoas
sempre deixam claro o porquê de estarem fazendo isso.”
A experiência de Sakamoto revela a estreita ligação entre notícias
falsas e a disseminação do discurso de ódio.
“O debate anônimo, sem fontes,
desqualificado e que visa a desinformação na internet
é um grande formador de opinião no
Brasil.
As pessoas não se preocupam com a
qualidade daquilo que consomem e do que repassam desde que o conteúdo vá ao
encontro daquilo que elas acreditam”, analisa.
Ele compara o conteúdo online a um pedaço de carne. “No
mercado, você olha o que está comprando, pergunta a procedência, sente o cheiro
e toca. Na internet, o conteúdo é consumido olhando apenas a embalagem.”
Para ele, o fenômeno dos "fake news" é apenas a
ponta do iceberg de um sistema de desinformação. “As pessoas acham que notícia
falsa é qualquer mentira. E daí aparece gente como Donald Trump utilizando esse
conceito para menosprezar ou reduzir a importância dos veículos de comunicação
e da mídia como um todo”, aponta.
As pessoas não sabem distinguir
entre notícia e opinião,
entre fato e invenção
No conceito acadêmico, “fake news” são publicações que
viralizam em rede social a partir de informações comprovadamente falsas com
formato que simula o estilo jornalístico com o objetivo de enganar o público
ocultando a sua autoria. “Mas as pessoas não sabem a diferença entre notícia
e opinião. O problema é anterior às ‘fake News’, pois as pessoas não
sabem o que é ‘news’ e isso atrapalha porque o público
acha que algo é mentiroso porque não concorda com uma opinião.”
Criar uma legislação para combater a propagação desse tipo de
conteúdo, entretanto, não parece ser a solução. “O governo brasileiro não pode
criar uma lei dizendo o que é notícia falsa. Se o fizer, é como se definisse o
que é verdade e o que é mentira. Isso é o começo do fim de qualquer
democracia”, observa. “Grandes empresas como Facebook e Google também não podem
definir o que é verdade e o que é mentira”, pondera Sakamoto.
Ele defende que a qualificação do debate público é a saída
mais sustentável. “Em países como a Alemanha, as pessoas estão mais
preparadas para o debate público, e o medo de consumir notícias falsas é menor.
No Brasil isso não acontece. Se a gente tivesse um debate público mais qualificado,
nós evitaríamos a propagação de ódio, intolerância e a desinformação”, opina.
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