Isto ninguém comenta!
Mais
de 4.000 pessoas com covid-19
morreram
à espera por um leito de UTI
em
seis Estados brasileiros
Beatriz Jucá
Dados
levantados pelo EL PAÍS mostram como a pressão no SUS alijou pacientes no Rio,
Minas, Espírito Santo, Rio Grande do Norte,
Bahia
e Maranhão durante a crise sanitária
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Profissionais de saúde vestindo equipamentos de proteção transportam o corpo de uma pessoa no Rio de Janeiro, em maio. FOTO: RICARDO MORAES / REUTERS |
Ao menos 4.132 pessoas morreram antes de conseguir chegar a
um leito de terapia intensiva para o tratamento de covid-19 durante a pandemia
do novo coronavírus em seis Estados brasileiros: Rio de Janeiro, Rio Grande do
Norte, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e Maranhão. O número, levantado pelo
EL PAÍS com dados das secretarias estaduais da saúde, tenta dar pistas sobre o
tamanho da pressão sofrida pelo SUS desde fevereiro, quando começou a crise
sanitária no Brasil.
O jornal procurou as 27 unidades da federação para saber
quantas solicitações por uma UTI com perfil de covid-19 foram canceladas por
morte do paciente em suas centrais de regulação ― setor que recebe todos os
pedidos das unidades de saúde da rede estadual e os distribui conforme vários
critérios, incluindo a gravidade do paciente. Essas mais de 4.000 mortes à
espera por um leito retratam a situação em menos de um terço do país, já
que apenas seis Estados informaram este dado, que pode incluir tanto os casos
de desassistência por conta do colapso do sistema de saúde, quanto situações em
que pacientes já chegaram tão graves que não houve tempo para colocá-los na
terapia intensiva.
Em um país de proporções continentais como o Brasil, a
epidemia se desenha em diferentes velocidades ao longo dos últimos seis meses.
Os impactos observados até agora são muito distintos entre os Estados,
historicamente marcados pela desigualdade que permeia o sistema de saúde. Nos
primeiros meses da crise ― especialmente em abril e maio ―, Amazonas, Ceará e
Rio de Janeiro protagonizaram histórias duras da pandemia, com hospitais
superlotados. Registraram longas filas de espera por um leito de UTI, onde são
tratados os pacientes com a manifestação mais grave da covid-19. Em alguns
locais, unidades de pronto atendimento chegaram a funcionar praticamente como
hospitais, improvisaram leitos de estabilização para pacientes que
precisavam ser entubados e instalaram até contêineres frigoríficos para
armazenar corpos. Simplesmente não havia leitos de UTI suficientes para
atender à demanda, embora gestores locais afirmassem que trabalhavam para
expandir o sistema de saúde. Desde então, taxas de ocupação hospitalares têm
caído, seja por sinais de arrefecimento de casos graves que demandam internação
ou pelas vagas de UTI criadas durante a crise.
No Rio de Janeiro, ao
menos 2.340 pacientes infectados pelo novo coronavírus morreram antes de
chegar a um leito de terapia intensiva. Segundo dados repassados pelo Governo
do Estado, a constatação do óbito foi a principal causa de cancelamento de
solicitações feitas à central de regulação estadual. E corresponde quase à
metade dos 5.080 cancelamentos feitos nos últimos meses relacionados aos leitos
de covid-19. Esses cancelamentos ocorrem por diversos motivos, como alta
hospitalar, melhora clínica, falta de condições de transporte, desistência,
fora do perfil, dentre outros. Nos últimos meses, as taxas de ocupação de
leitos públicos no Rio de Janeiro vêm diminuindo, o que motivou o fechamento de
ao menos dois hospitais de campanha, na capital e em São Gonçalo.
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Pacientes com Covid-19 no Hospital Sancta Maggiore (SP): apenas 47% da população do estado segue política de isolamento social, e hospitais podem entrar em colapso em dez dias (01/04/2020) Foto: Edilson Dantas |
Amazonas e Ceará,
que também enfrentaram problemas de saturação em seus sistemas de saúde, não
responderam quantas pessoas foram retiradas da lista por um leito por óbito até
o fechamento dessa reportagem.
Na Bahia, o Estado
informou que 734 pessoas faleceram antes de serem transferidas para UTIs
de covid-19, mais da metade delas (482) somente nos meses de junho e julho.
Foi neste período que o Estado viu o coronavírus ganhar velocidade, quando as
curvas tanto de casos quanto de óbitos ficaram mais íngremes. Em agosto, a
Bahia se tornou o segundo Estado do país com mais infecções, em números
absolutos. A Secretaria Estadual afirma que nem todos os pacientes que morreram
à espera por uma cama na terapia intensiva de covid-19 tinham o resultado
positivo do teste RT-PCR e alega que, por isso, não é possível dizer que todos
estivessem de fato infectados. O Ministério da Saúde, porém, já não exige este
tipo de exame para determinar o diagnóstico. Com base em exames de imagem e
outros testes laboratoriais, a doença pode ser diagnosticada clinicamente por
um médico. Porém, esses pacientes mencionados nesta reportagem aguardavam um
leito em uma unidade direcionada ao tratamento de infectados com o coronavírus.
No Rio Grande do Norte,
314 pessoas morreram à espera de uma UTI ― cerca de 14% de todas as
mortes por coronavírus registradas no Estado. Embora o primeiro óbito tenha
sido identificado ainda no final de março, foi a partir de junho que a
epidemia ganhou força no Estado potiguar, pressionando o sistema de saúde.
A situação chegou a ficar crítica, mas há semanas dá sinais de arrefecimento,
com as taxas de ocupação de leitos críticos em queda. Segundo a plataforma
Regula RN (que atualiza dados de hospitais a cada cinco minutos), apenas 40% de
todos os leitos críticos exclusivos para covid-19 estão ocupados. Também no
Nordeste ― uma das regiões brasileiras mais impactadas pela pandemia e com
sistemas de saúde mais frágeis ―, o Maranhão
conta ao menos 97 pacientes com covid-19 que faleceram antes de
conseguir chegar à terapia intensiva.
Nos últimos meses, a trajetória do vírus tem mudado no
Brasil. Enquanto Norte e Nordeste dão sinais mais evidentes de estabilidade, o
novo coronavírus ganha força em parte do Sudeste e nas regiões Sul e
Centro-Oeste, com crescimento no número de casos e óbitos. O Rio Grande do Sul chegou
a afirmar que 174 pessoas morreram enquanto aguardavam um leito, mas
depois recuou e disse que o número corresponde na verdade a todos os que
morreram enquanto aguardavam um leito desde março, seja com perfil covid-19 ou
não. Já o Paraná afirma que 643
solicitações por UTIs para tratar pacientes com a covid-19 foram canceladas
na sua central de regulação, mas não especifica quais os motivos da retirada
desses pacientes da fila de leitos.
No Sudeste, Minas Gerais informa que 296 pacientes morreram antes de serem
transferidos para um leito de UTI. Lá, os óbitos por covid-19 dobraram em
um mês. Minas viveu uma guinada de perspectiva sobre a pandemia. Começou a registrar
os primeiros casos e óbitos ainda no início da crise, mas até maio as
autoridades gabavam-se de ter a “situação sob controle”, quando dados oficiais
apontavam apenas 250 mortes. O Estado apresentava baixos índices de testagem e,
a partir de maio, quando os testes cresceram, os números da pandemia também
começaram a subir. Desde fevereiro, foram criados 1.767 novos leitos de UTI do
SUS em Minas. A taxa de ocupação dos leitos de terapia intensiva na última
semana de agosto era em torno de 65%, segundo o painel estadual.
Já o Espírito Santo informou o número de pessoas que morreram antes
de chegar a um leito de terapia intensiva: 351. A resposta foi dada por
meio da Lei de Acesso à Informação a uma solicitação feita por este jornal
especificamente sobre os leitos de covid-19 entre os meses de fevereiro e
agosto. Depois de publicada esta reportagem, o Governo do Espírito Santo enviou
uma nota para o jornal na qual diz que esse número se refere “a óbitos
ocasionados por todos os agravos de saúde no período de maio a 18 de agosto
deste ano”. Afirmou ainda que “em nenhum momento faltou leito de UTI ou
enfermaria para paciente Covid-19 no Estado”. “Manifestamos desculpas pelo
envio do dado sem o devido esclarecimento sobre a origem do registro, pois foi
extraído de um sistema novo que está sendo utilizado pelo Estado, o que
justifica a ausência de dados dos meses de janeiro a abril”, informa a nota do
Governo, que não apresentou novos números referentes apenas aos casos de
covid-19.
O Estado de São Paulo,
porta de entrada para o vírus no Brasil e que concentra desde o início da crise
os maiores números absolutos de casos e óbitos por covid-19, também não
apresentou seus dados, assim como as demais unidades da federação não
mencionadas na reportagem.
Na região Norte, o Acre até respondeu o contato da
reportagem, mas não apresentou números. Por e-mail, a Secretaria da Saúde do
Estado afirmou apenas que não faz cancelamento de solicitação de leitos. Não
respondeu se usa outra nomenclatura para as solicitações não atendidas e nem
apresentou dados sobre os pacientes que estavam na lista da central de
regulação e saíram por algum motivo.
O
acesso a um leito de terapia intensiva não garante a sobrevivência do
paciente grave
com
covid-19, mas oferece cuidados mais específicos enquanto ainda não há
medicamento
ou vacina com eficácia comprovada cientificamente para combater a doença.
Durante a crise, médicos e pacientes relataram um cenário
de escassez, com a falta de leitos de UTI e até mesmo rodízio de ventiladores entre
pacientes para dar um suporte respiratório aos pacientes infectados pelo
coronavírus. Seis meses depois de registrar o primeiro caso de infecção por
coronavírus, ainda é difícil se aproximar do tamanho do colapso no sistema de
saúde brasileiro, quando nem todos os Estados abrem os dados dos que
morreram enquanto esperavam tratamento intensivo.
As taxas de ocupação de leitos de UTI têm caído em uma
significativa parte do país, seja por uma possível desaceleração da epidemia ou
pela abertura de novas vagas. O Infogripe, um grupo de pesquisa da Fiocruz que
acompanha as internações por síndrome gripal no país, alerta que é preciso
manter as políticas de prevenção porque mesmo regiões que já enfrentaram
uma fase mais dura de contágio podem viver uma segunda onda de internações. O
Brasil já soma, desde o começo da pandemia, mais de 115.000 mortes por
covid-19.
[Hoje, dia 31 de agosto, já temos 121.381 óbitos e 3.908.272 infecções causadas pelo
novo coronavírus desde o início da pandemia].
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