Será que aprenderemos?
“Pandemia
é resposta biológica do planeta”,
diz
físico Fritjof Capra
Fernanda Mena
Jornalista
Entrevista
com Fritjof Capra
Físico
e ambientalista austríaco radicado nos Estados Unidos
Autor de “O Tao da
Física” relaciona desigualdade social, economia predatória e devastação
ambiental ao surgimento do novo coronavírus
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FRITJOF CAPRA |
Ícone do pensamento sistêmico, o físico e ambientalista
austríaco Fritjof Capra, 81 anos, interpreta a pandemia da Covid-19 como
uma resposta biológica da Terra diante de emergências sociais e ecológicas amplamente
negligenciadas.
Segundo Capra, as mudanças de paradigma necessárias a essas
emergências já são possíveis, tanto do ponto de vista do conhecimento quanto do
desenvolvimento tecnológico. "Teremos a vontade política que
falta?", provoca ele, em entrevista à Folha de S. Paulo
por e-mail.
Autor de best-sellers internacionais como "O Tao da
Física" e "Ponto de Mutação" (ambos da editora Cultrix),
entre outros, Capra articulou a física moderna a uma visão holística da vida
no planeta e dos fenômenos naturais, inserindo a humanidade e suas ações
nos ciclos de transformação da vida no planeta.
Capra é uma das estrelas deste ano do ciclo de conferências Fronteiras
do Pensamento, cujo tema — Reinvenção do humano —
implica num debate de múltiplas variáveis que, na visão do físico austríaco,
são sempre indissociáveis e interdependentes.
Diretor do Centro de Alfabetização Ecológica, com sede
em Berkeley, na Califórnia (Estados Unidos), Capra desenvolveu uma pedagogia
da ecologia a ser aplicada no ensino formal, primário e secundário.
Convertido em ambientalista por sua própria pesquisa, o
austríaco há décadas denuncia o caráter predatório da economia global
capitalista extrativista e a captura corporativa da política, que sucumbe a
interesses econômicos em detrimento dos recursos naturais do que chama de Gaia — a Mãe-terra da mitologia grega que batizou
uma visão do planeta como um imenso organismo vivo.
Para ele, estão equivocadas as atuais métricas do
desenvolvimento baseadas no crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) a partir
de uma cultura de excessos, que implica em perdas sociais e econômicas.
Eis a entrevista.
Em
quais aspectos o momento presente pode redefinir a condição humana?
Fritjof Capra: Na minha visão, o coronavírus deve ser visto como uma
resposta biológica de Gaia, nosso planeta vivo, à emergência social e ecológica
que a humanidade criou para si própria. A pandemia emergiu de um
desequilíbrio ecológico e tem consequências dramáticas por conta de
desigualdades sociais e econômicas.
Cientistas e ativistas ambientais há décadas vêm alertado
para as terríveis consequências de sistemas sociais, econômicos e políticos insustentáveis.
Mas até agora as lideranças corporativas e políticas teimaram em resistir a
esses alarmes. Agora eles foram forçados a prestar atenção, já que a
Covid-19 trouxe os avisos de antes para a realidade de hoje.
Quais
paradigmas a humanidade precisa mudar e por quê?
Fritjof Capra: Com a pandemia, Gaia nos trouxe lições valiosas
capazes de salvar vidas. A questão é: teremos a sabedoria e a vontade política
necessárias para ouvir essas lições? Mudaremos o modelo de crescimento
econômico indiferenciado baseado no extrativismo para outro de crescimento
qualitativo e regenerativo? Vamos substituir combustíveis fósseis por
formas renováveis de energia que deem conta de todas as nossas necessidades?
Vamos substituir nosso sistema centralizado de agricultura industrial com uso
intensivo de energia por um sistema orgânico de agricultura regenerativa,
familiar e comunitária? Vamos plantar bilhões de árvores capazes de
retirar o CO2 da atmosfera e de restaurar diferentes ecossistemas do
mundo?
Nós já temos o conhecimento e a tecnologia para embarcar em
todas essas iniciativas. Teremos a vontade política que falta?
Num
momento em que o valor do conhecimento científico biológico e tecnológico se
mostram tão importantes, qual é o papel das humanidades?
Fritjof Capra: Isso está diretamente relacionado à sua pergunta
anterior. Se temos todo o conhecimento científico e tecnológico para
construirmos um futuro sustentável, porque não o fazemos simplesmente?
Quando refletimos sobre essa questão crucial, rapidamente
percebemos que o nível conceitual não conta toda essa história. Nós também
precisamos lidar com valores e éticas, e é por isso que as ciências humanas são
mais importantes do que nunca. Literatura, filosofia, história,
antropologia podem todas nos imbuir do compasso moral que tanto falta à
política e à economia atuais.
Índices
de desmatamento têm aumentado na Amazônia brasileira. Quais são os incentivos
para isso?
Fritjof Capra: Esses crimes são uma consequência direta da obsessão
com o crescimento econômico e corporativo. A devastação de grandes áreas de
florestas tropicais é impulsionada pela ganância de corporações multinacionais
do setor de alimentação, que buscam incansavelmente lucro e crescimento.
Se
o que chamamos de progresso foi atingido às custas de danos ao meio ambiente,
nossa ideia de progresso está errada?
Fritjof Capra: A crença em um progresso contínuo e, em particular, a
obsessão de nossos economistas e políticos com a ilusão de um crescimento
ilimitado em um planeta finito constituem o dilema fundamental que permeia
nossos problemas globais.
Isso equivale ao choque entre o pensamento linear e os
padrões não lineares da nossa biosfera — a interdependência dos sistemas
ecológicos e os ciclos que constituem a teia da vida. Essa rede global
altamente não linear contém inúmeras alças de retroalimentação por meio das
quais o planeta se regula e se equilibra.
Nosso sistema econômico atual, ao contrário, parece não
reconhecer a existência de limites. Nele, um crescimento perpétuo é
perseguido incessantemente através da promoção do consumo excessivo e de uma
economia do descarte que usa de maneira extravagante tanto recursos como
energia, aumentando a desigualdade econômica.
Esses problemas são exacerbados pela emergência climática
global, causada pelas tecnologias de uso intensivo de energia e baseada em
combustíveis fósseis.
Com
a pandemia, projeções apontam para o aprofundamento das já marcantes
desigualdades sociais de nosso tempo. O que as produziu e como reverter esse
processo?
Fritjof Capra: O aprofundamento das desigualdades é uma
característica inerente ao sistema econômico capitalista de hoje. O chamado "mercado
global" é, em verdade, uma rede de máquinas programadas de acordo com
o princípio fundamental segundo o qual ganhar dinheiro tem primazia sobre
direitos humanos, democracia, proteção ambiental.
Valores humanos, no entanto, podem mudar porque eles não são
leis naturais. A mesma rede eletrônica de fluxos financeiros pode ter nela
embutidos outros valores. O ponto crítico não é a tecnologia, mas a política.
Há
sinais de mudanças neste sentido na política de hoje?
Fritjof Capra: Uma nova liderança começou a emergir recentemente em
uma série de movimentos jovens muito potentes, como Sunrise Movement, Extinction
Rebellion, Fridays for Future, entre outros.
Há também a ascensão de uma nova geração de políticos,
curiosamente formada por mulheres, como a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinta
Arden, a primeira-ministra da Finlândia, Sanna Marin, ou a
congressista [democrata] norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez.
A
crise atual prescreve nossa percepção de soberania e de globalização? Como?
Fritjof Capra: Com certeza absoluta! Para prevenir o alastramento da
pandemia, agora e no futuro, teremos de reduzir densidades populacionais
excessivas, como ocorre no turismo de massa e em condições de vida marcadas
pela superlotação. Ao mesmo tempo, necessitamos de cooperação global.
A justiça social se torna uma questão de vida ou morte
durante uma pandemia como a da Covid-19. E ela só pode ser superada por meio de
ações coletivas e cooperativas.
Seu
trabalho explorou a interconectividade entre as ciências e os conceitos e
filosofias considerados não-científicos. Como esse diálogo complexifica nosso
entendimento do planeta e da humanidade?
Fritjof Capra: Eu me formei como físico e fiquei fascinado pelas
implicações da física quântica, que nos mostra que o mundo material não é
uma máquina gigante, mas uma rede inseparável de padrões de relações.
Durante os anos 1980, minha pesquisa virou para a área das ciências da vida, da
qual tem emergido um novo conceito sistêmico que confirma a fundamental
interconectividade e interdependência de todos os fenômenos naturais.
Quando nós entendemos que compartilhamos não apenas as moléculas
básicas da vida, mas também princípios elementares de organização com o
restante do mundo vivo, percebemos o quão firme estamos costurados em todo o
tecido da vida.
O
que o senhor aprendeu com a pandemia?
Fritjof Capra: Tem sido incrível para mim ver como o coronavírus
expôs tantas injustiças ecológicas, sociais e raciais omitidas por décadas
pelas mídias de massa.
Também fiquei espantado de ver como, em um curto espaço de
tempo, a poluição quase desapareceu da baía de São Francisco, na Califórnia
(Estados Unidos), onde eu vivo, assim como ocorreu em várias das grandes
cidades do mundo. Isso me encheu de esperança quanto à capacidade da Terra
de se regenerar.
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