Leia, com atenção
Para
que fazer transferências de padres?
Dom José
Carlos de Souza Campos
Bispo Diocesano de Divinópolis – MG
Apesar de
publicado em 2015, este artigo permanece sempre
atual, pois há
muita incompreensão sobre esse assunto.
Leia-o e medite-o!
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Dom José Carlos de Souza Campos |
Por que o Bispo precisa transferir
padres?
Esta pergunta, olhando as reações a
essa prática comum na Igreja, poucos se fazem ou buscam respostas.
Normalmente ficam em posturas mais afetivas ou possessivas: “nosso padre”, “ele
estava bem aqui”, “ele não pode sair”, “o senhor não pode tira-lo de nós”…
Apesar de haver também os que querem ver longe o padre que têm e apresentam até
listas de “queremos estes”. Este tempo é sempre de fadiga e de caras feias.
Mas de aprendizado e de graça!
Vamos jogar alguma luz sobre isso! O
Bispo não transfere porque tem prazer em fazer isso, porque simplesmente
“faz parte” ou porque quer exercitar sua capacidade de reorganizar a diocese a
cada ano. Antes de reclamar ou reagir, pense nestas dez palavras:
1) A
transferência não é um ato arbitrário e autoritário que recai e pesa sobre a
pessoa do bispo. As decisões e transferências são pensadas e construídas num
CONSELHO DE PADRES, demandam longas conversas e, às vezes, várias reuniões.
Não estamos brincando com pessoas. Os padres são colaboradores indispensáveis e
preciosos do bispo, que não tem de cuidar desta ou daquela paróquia, mas de
todas, ao mesmo tempo. Todas as transferências foram conversadas,
construídas com cada padre. Ninguém foi transferido “a ferro e fogo”,
acorrentado e arrastado. Até isso, é bom não esquecermos, pois Jesus o
previu a Pedro (Jo 21,15-19). Acerca dos transferidos, houve uma ou mais
propostas, uma justificativa, um convite, uma decisão tomada a dois ou a três.
Sei o quanto é difícil transmiti-la ao povo, mas ela não foi impositiva e
vertical.
2)
Normalmente, e isso é humano e bom, criam-se amizades fortes e importantes com
o padre durante o tempo, curto ou longo, de permanência, mas não se pode
esquecer que o padre não é “seu” ou “nosso”, mas é da Igreja, da Diocese e
colaborador do bispo. Isso não é arbitrário, é da natureza da nossa vocação
sacerdotal e episcopal.
3) O Direito
Canônico fala de uma estabilidade ao pároco (seis anos e mais seis), mas
isso não significa que não possa sair antes disso, se há acordo entre o bispo e
este padre para outro lugar de missão. Os administradores paroquiais não
gozam desta estabilidade canônica. Por isso, a prática entre nós tem sido
fazer os padres, por um ano, administradores paroquiais e, se houve bom ajuste
e empatia, faze-los párocos ao final deste período.
4) Neste
período, podem aparecer outras necessidades, podem aparecer situações que
obriguem a repensar a presença dele ali, podem existir desarranjos e
incompatibilidades, e isso obriga a repensar a colocação. Isso não precisa ser
trazido à baila. São situações e motivos que ficam guardados no coração do
Bispo, até que Deus o faça esquecer. Não precisamos expor as pessoas.
Nem apresentar motivos para explicar o que não deu certo. Não é necessário
dar os motivos. Basta tê-los. Isso capacita a consciência para agir.
Ninguém tem botão de “ajuste automático”. Os ajustes se fazem a modo humano,
com riscos, acertos e erros.
5) A
justificativa de o padre ser bom e querido, ter pouco tempo ali, ter
feito bons trabalhos, tudo isso é louvável, mas os critérios são mais
abrangentes. A vida paroquial é um leque de responsabilidades, competências
e interlocuções. Ninguém é bom em tudo (ou poucos são bons em tudo!). Daí a
necessidade de se avaliar a permanência ou não por critérios que ultrapassam o
afetivo e o prático. A vida paroquial, sobretudo para os que estão sozinhos
numa paróquia, exige múltipla atenção e variada atuação por parte do padre.
Aprender isso é um caminho. Nem sempre feito no lugar onde o padre se encontra
no momento.
6) É mais
fácil apresentar o pedido de transferência quando a permanência já se
esticou e até ultrapassou tempos legais. A mudança fará bem a todos, ao
padre e à comunidade. Isso obriga a repensar relações, modos de servir e
processos novos. Ninguém goza de estabilidade indefinida, nem os bispos!
Prazos ajudam a gente a rever muitas posturas, manias e relações.
7) Os padres
que são vigários paroquiais, se têm e mostram vontade e capacidade, podem e
devem assumir tarefas e lugares mais exigentes. Não se pode deixá-los sempre
nesta condição, se estão aptos para “outras águas”.
8) Há também
a postura fechada que assegura que a paróquia “nunca será a mesma” se o
padre sair. Nem a paróquia nem ninguém é o mesmo nunca. Cada dia, cada
pessoa, cada situação põem acréscimos novos (bons ou maus). Como posso saber
que o outro que vem é, por antecipação, incapaz de continuar e fazer avançar um
processo iniciado? Não é precipitação e preconceito? Vidas e relações experimentamos
não a partir de fora, mas a partir de dentro.
9) Se um
determinado sacerdote é dotado de muitas qualidades e competências a ponto de
trazer grandes alegrias e avanços a uma comunidade, ele não pode ser
possuído por esta comunidade como um “bem inalienável”. Outros lugares
precisam dele e dos seus dons. Ele pode ser o pastor que a comunidade
vizinha precisa em vista de suas demandas pastorais, espirituais,
administrativas, humanas…
10) A última
coisa, mesmo tendo ainda outras considerações, é que nós, padres diocesanos,
não estamos desobrigados da dimensão missionária da nossa vocação
sacerdotal. Por mais que eu tenha meus gostos e meu perfil, não posso me
limitar ao universo de duas ou três paróquias que “teriam meu estilo”. A
missão se vive em tempos e modos diferentes. Numa paróquia com a qual eu me
identifico menos, talvez não fique tanto tempo como numa outra mais conforme
meu perfil, mas isso não me dispensa de pequenas experiências. Elas têm uma
força de testemunho diante do povo de Deus, dos demais irmãos padres e dos
seminaristas.
Quando chegar a minha vez de ir, mesmo
querendo ficar entre os meus, vou pensar eu também nestas palavras! Abraço a
todos!
Tomara que isso circule, como
circulam comentários de crítica e inaceitação.
+ Dom José
Carlos
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