Missa da Noite de Natal – Anos A, B e C – HOMILIA
Evangelho: Lucas 2,1-14
Alberto Maggi *
Frade da Ordem dos Servos de Maria (Servitas) e renomado biblista italiano
Deus se humaniza para salvar
a todos
Enquanto o poder diviniza a si mesmo para dominar melhor os seres
humanos, Deus se humaniza para salvá-los. Esta é a mensagem da véspera de
Natal que a Igreja escolheu com o Evangelho de Lucas, capítulo 2, o nascimento
de Jesus.
Lucas 2,1-3:** «Aconteceu
que naqueles dias, César Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento
de toda a terra. Este primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era
governador da Síria. Todos iam registrar-se cada um na sua cidade natal.»
“César Augusto” é Otaviano, o primeiro que assumiu como
subtítulo “Augusto”, isto é, “digno de veneração”. É o poder que se diviniza. Por “terra” entendemos toda a terra habitada, ou seja, o império.
Portanto, é o poder que se diviniza para melhor dominar as pessoas e,
acima de tudo, para subjugá-las e arrecadar impostos. Porque o censo, na
época, servia para isso, para o pagamento de todos os impostos.
E o evangelista também nos dá algumas indicações a respeito desse censo,
mas o que o evangelista quer transmitir não é tanto um relato histórico, quanto
teológico. O censo, na Bíblia, sempre foi visto como um ataque a Deus,
pois Deus era o Senhor da terra e dos seres humanos. Então, aqui, há uma
usurpação e o movimento dos zelotes nasceu como uma resistência, como
um protesto contra essas formas de censo.
Lucas 2,4-5: «Por ser da família e descendência de Davi, José
subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até a cidade de Davi, chamada Belém, na
Judeia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.»
Aqui, está uma surpresa, pois o evangelista escreve: “à cidade de
Davi, chamada Belém”. Contudo, na Bíblia, a cidade de Davi sempre foi
Jerusalém, a capital onde este rei começou sua monarquia, seu reino. Bem, o
evangelista não concorda, a cidade de Davi é Belém.
Em Belém Davi era pastor, em Jerusalém ele era
rei; o evangelista quer deixar
claro que aquele que está para nascer não terá as características de um rei,
mas as de um pastor.
Lucas escreve: “para registrar-se com Maria, sua noiva”
[literalmente em grego: tē emnēsteumenē = aquela que lhe era
prometida], e aqui é surpreendente encontrar esta expressão. O matrimônio
judeu era realizado em duas etapas: a primeira, o noivado, e
a segunda, as núpcias.
Bem, aqui está um casal que permaneceu na primeira fase do
casamento: o noivado. Este termo “noiva” suscitou grande escândalo na
comunidade cristã primitiva, por isso, no século IV, foi substituído pelo mais
adequado “esposa”, porque, de outra forma, parecia um casal irregular, que não
tinha progredido para a segunda etapa do matrimônio.
Lucas 2,6: «Enquanto estavam em Belém, completaram-se
os dias para o parto,»
Existem algumas tradições, lindas, românticas, sentimentais sobre o
Natal, que, porém, correm o risco de distorcer a mensagem do evangelista. Não
é que quando chegaram a Belém se completaram os dias do parto, mas, escreve o
evangelista “enquanto estavam naquele lugar”. A viagem de Nazaré a Belém
era feita a pé, enfim, uma mulher nos últimos meses de gravidez,
certamente, não poderia fazer aquele caminho.
Lucas 2,7: «e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o
enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na
hospedaria.»
Então, eles chegaram quando Maria ainda tinha
condições de realizar toda aquela viagem. Por que o evangelista escreveu
que este filho é o “primogênito”? Isso significa que, depois, há outros
filhos? Não. É que “primogênito” é o filho do sexo masculino nascido
primeiro, o qual deve ser consagrado – de acordo com o que o livro de
Êxodo no capítulo 13, versículo 2 prescreve – ao Senhor. Portanto, Jesus
será sagrado para o Senhor.
“Envolveu-o em faixas”: os detalhes dos panos são uma referência ao livro da Sabedoria para
indicar que Jesus nasceu como todos os outros. De fato, no livro da
Sabedoria lemos que: “Envolto em faixas, fui criado entre cuidados; nenhum
rei começou a existência de outra maneira. Para todos é uma só a entrada na
vida, e uma só a saída” (7,4-6). Então Jesus nasceu como todas as
outras crianças.
“E deitou-o numa
manjedoura”, mesmo a manjedoura é uma
lembrança do profeta Isaías, onde ele diz que: “O boi conhece o seu dono, e
o burro, o cocho (= manjedoura) de seu senhor; mas Israel não
conhece, o meu povo não entende!” (1,3). Por meio dessas referências, o
evangelista quer deixar claro que Jesus, como escreve João em seu
prólogo, veio entre os seus, mas os seus não o aceitaram, não o
reconheceram.
“Porque não havia lugar
para eles...”. No passado, a tradução
incorreta da palavra grega por “hospedaria” deu origem à história desse casal
que não conseguia encontrar um lugar. “Não havia espaço no alojamento”. A habitação palestina normalmente é feita assim: há uma parte
esculpida na rocha, que é a parte mais saudável, segura e limpa, onde os
alimentos são armazenados – e onde fica a manjedoura – em seguida, uma
parte em alvenaria, uma única sala, onde toda a vida da família acontece.
Portanto, nessa sala única, se cozinha, se dorme e se come. Quando uma mulher dá à luz, de acordo com o livro de Levítico (12,1-8), ela é impura, então tudo que ela toca, ou as pessoas de quem ela se aproxima, tornam-se impuras e não podem estar ali. É por isso que não há lugar para ela lá no alojamento [= na sala única da casa] e ela tem que ir para o interior da residência, onde está a manjedoura.
Lucas 2,8: «Naquela região havia pastores que passavam a noite
nos campos, tomando conta do seu rebanho.»
Quando o evangelista nos apresenta aos pastores, ele não tem a intenção
de retratar os belos personagens de nosso presépio. Naquela época, o Talmud prescrevia
que nenhuma condição no mundo era mais desprezada como a do pastor. Os
pastores, longe da sociedade civil, não eram pagos, viviam de furtos, não
tinham direitos civis. Não podendo ir à sinagoga ou ao Templo para se
purificarem, eram o emblema, a imagem do pecador impuro. Para eles não
havia salvação.
Lucas 2,9a: «Um anjo do Senhor apareceu aos pastores, a glória
do Senhor os envolveu em luz,»
Desse modo, quando o Messias viesse, esses
pastores, junto com os cobradores de impostos, seriam os primeiros da
lista a serem eliminados. O evangelista escreve: “Um anjo do Senhor”. Pois bem, é a terceira vez que esse personagem aparece. Por “anjo
do Senhor” nunca queremos dizer um anjo enviado pelo Senhor, mas é o próprio
Deus quando se comunica com os seres humanos. Portanto, a fórmula “anjo
do Senhor”, tanto no Antigo como no Novo Testamento, sempre indica o
Senhor quando ele se relaciona com os seres humanos.
É a terceira vez que o “anjo do Senhor”
aparece, e sempre em relação à vida. A primeira vez, para anunciar a vida
de João a seu pai, a Zacarias; a segunda, para anunciar a vida de
Jesus a Maria e, agora, o Salvador aos pastores.
“Apresentou-se a eles.” Este anjo do Senhor era representado, no Antigo Testamento, com uma
espada desembainhada, pronta para punir os pecadores. Bem, quando Deus se
apresenta diante dos pecadores, não os ameaça, não os castiga, não os abate,
mas – e aqui estão as notícias, as Boas Novas de Jesus – “a glória do Senhor
os envolveu em luz”.
Lucas 2,9b-10: «e eles ficaram com muito medo. O anjo, porém,
disse aos pastores: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o
será para todo o povo:»
Lucas desmente toda a teologia anterior de um Deus que julga, ameaça ou
pune. Quando Deus encontra os pecadores, ele não faz nada além de envolvê-los
com sua luz, a luz de seu amor. Mas os pastores não sabem disso e, de fato, o
evangelista escreve que “ficaram tomados de grande temor”, porque sabiam
o que os esperava. Porém, o anjo os tranquiliza mencionando-lhes a grande
alegria da Boa Nova que afasta o grande medo.
Lucas 2,11-14: «Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um
Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: Encontrareis um
recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”. E, de repente,
juntou-se ao anjo uma multidão da coorte celeste. Cantavam louvores a Deus,
dizendo: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por
ele amados”.»
E qual é a grande alegria? Quem nasceu? O
carrasco, o messias castigador? Não, “o Salvador”. Jesus não será
um juiz, mas será um Salvador. No final desse diálogo se dá a manifestação
visível de Deus que está longe nos céus, e que na terra haja paz, ou seja,
felicidade. Mas para quem?
A tradução errada, no passado, dizia: “para
homens de boa vontade”. Era, portanto, uma tradução que se baseava no
mérito: quem merecesse receberia, quem não merecesse não receberia. Não, o
amor de Deus, que se manifesta no desejo de que os seres humanos sejam
plenamente felizes, diz respeito a toda a humanidade, porque todo ser humano é
amado pelo Senhor.
Não há ser humano ― esta é a
mensagem ― qualquer que seja a sua condição, o seu comportamento, que possa se
sentir excluído do amor de Deus.
* Traduzido e editado do
italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão
Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“A glória de Deus é a vida do homem e a vida do homem é a visão de Deus.”
(Santo Irineu: ca. 130-202 ― bispo, teólogo e escritor ― Adv. Haer. IV, 20, 7)
Tanto o nascimento quanto a morte de Jesus de Nazaré são desconcertantes para o sistema de poder e para o sistema religioso da época de Cristo! Ele é morto como um subversivo, um agitador que deseja lançar o povo contra César, contra o império, desaconselhando o pagamento de impostos e desejando ser rei, por exemplo (cf. Lc 23,2). Ele nasce Senhor (grego: Kyrios) e Salvador (grego: Sōtēr), contrapondo-se ao imperador romano (Lc 2,11), a Augusto César, a quem cabiam esses títulos!
Como frei Maggi destacou, logo no início de seu comentário, enquanto o poder humano quer se fazer passar por divino, a fim de melhor dominar e oprimir os seres humanos; Deus se faz ser humano, se humaniza, justamente para salvar esse ser humano dominado! Jesus nasce, segundo a teologia de Lucas, envolvido no plano de espoliação tributária do Império Romano. Por isso, ele nasce na periferia, entre os mais periféricos dos periféricos (os pastores), desapercebido, desacolhido por aqueles que, de direito e por saber, deveriam ser os primeiros a saudá-lo: as lideranças religiosas dos judeus.
Não por acaso, Jesus ficará contente em perceber que são os pequenos,
os fracos, os humildes, aqueles que ninguém dá valor, os
primeiros a dar ouvidos, de verdade, à sua mensagem:
“Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas
coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).
Jesus nasce como toda e qualquer criança (envolvido em faixas), justamente, para valorizar, tornar digna a vida de todo ser humano na face desta Terra! Não há quem esteja fora do alcance da vontade humanizadora, portanto, salvadora de Jesus Cristo! Em João 6,39, Jesus deixa claro isso:
“E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum
daqueles que ele me deu, mas o ressuscite no último dia.”
Concluo com estas sábias e perspicazes
palavras do teólogo espanhol José María Castillo:
«Não é a história dos vencedores que começa em Belém. Foi em uma aldeia da Galileia, em Nazaré, da qual “nada de bom poderia sair” (Jo 1,46), daí veio a solução que nossos desejos de poder e de dominação imperial precisam. Não seguimos Augusto, mas Jesus.»
Oração após a meditação do Santo Evangelho
«Assim como há mais de dois mil
anos atrás, hoje um Mensageiro de Deus diz aos nossos ouvidos:
“Na
terra,
P roteção
A mor
Z elo
a todos
por Ele amados!” (Lucas 2,14).
NATAL
é isso:
Sentir-se
e
comportar-se como irmãos e irmãs uns dos outros!»
Fraternalmente,
Pe. Telmo José Amaral de
Figueiredo
Diocese de Jales – SP
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