ATO DE CORAGEM E ÉTICA: Mulher descreve ao 190, em tempo real, execução feita por Policiais Militares em cemitério
Caso ocorreu no mês passado e foi revelado com exclusividade no Estadão.com.br; policiais assassinos foram presos horas após o crime
Ligação feita em 12 de março para o 190, o Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), revela em tempo real execução praticada por policiais da 4.ª Companhia do 29.º Batalhão. A testemunha está sob proteção policial. Ela ligou para o Copom e descreveu o crime, que foi gravado. O caso foi revelado com exclusividade no Estadão.com.br.
"Olha, eu estou no Cemitério das Palmeiras, em Ferraz de Vasconcelos, e a Polícia Militar acabou de entrar com uma viatura aqui dentro do cemitério, com uma pessoa dentro do carro, tirou essa pessoa do carro e deu um tiro. Eu estou aqui do lado da sepultura do meu pai."
De onde estava, a testemunha não conseguia ver a placa nem o prefixo da viatura. Mas, enquanto falava com o 190, teve sangue-frio de esperar. ""Pera" só um pouquinho, porque eles vão passar por mim agora. Espero que não me matem também. A placa é DJM 0451, o prefixo é 29.411, M 29.411."
Após perceber que haviam sido vistos pela testemunha, um dos policiais vai na direção dela. Corajosa, ela pergunta: "O senhor que estava naquela viatura? O senhor que acertou o disparo ali? Foi o senhor que tirou a pessoa de dentro? Estava próximo de onde estávamos. Eu estou falando com a Polícia Militar."
O policial diz que estava socorrendo a vítima e tenta levá-la à delegacia. "Estava socorrendo? Meu senhor, olhe bem para a minha cara. Eu não vou (para a delegacia). Ele falou que estava socorrendo. É mentira, senhor. É mentira. Eu não quero conversar com o senhor. E o senhor tem a consciência do que o senhor faz." O áudio termina com o atendente do 190 pedindo para a testemunha ligar na Corregedoria.
Após o crime, os PMs acusados da execução registraram boletim de ocorrência de roubo seguido de resistência e morte no 50.º Distrito Policial, na zona leste. Alegaram que o homem morto havia resistido à prisão. Segundo o BO, os PMs Ailton Vital da Silva e Filipe Daniel da Silva [foto acima], da 4.ª Companhia, foram chamados pelo Copom para atender a um caso de roubo de carga no Itaim Paulista, zona leste.
A viatura M 29.411 (a mesma vista no cemitério), segundo o BO, passou a seguir a van branca que havia sido roubada. Na perseguição, a van tentou entrar em um condomínio residencial, derrubou a cancela e bateu em dois carros. O condutor da van, no relato dos policiais, fugiu efetuando disparos e teria sido ferido, morrendo no hospital. Mas a iniciativa da testemunha fez a versão dos policiais cair por terra. Os dois PMs envolvidos na ocorrência estão presos no Romão Gomes.
Ontem, após a divulgação do áudio no Estadão.com.br, a Secretaria da Segurança Pública convocou coletiva de imprensa. Aos jornalistas, o tenente-coronel Roberto Fernandes, comandante do 29º Batalhão, disse que teve convicção de que os policiais cometeram o crime após ouvir o depoimento deles e o áudio da testemunha. "Houve contradições. Pequenos detalhes das versões de um e de outro não bateram."
Expulsão
De acordo com o comandante, o Conselho de Disciplina da PM vai avaliar a possibilidade de expulsão dos dois policiais da Polícia Militar no prazo de 45 dias. "É inconcebível esse tipo de atitude de um policial formado para salvar vidas."
O comandante fez questão de ressaltar a importância da confiança do cidadão paulistano nos serviços de 190 da Polícia Militar, a exemplo da denúncia realizada pela senhora do cemitério que segue protegida pela Justiça. "Aqui não passamos a mão na cabeça." / COLABORARAM MARCELO GODOY E FELIPE FRAZÃO
Números da violência:
6.054 pessoas morreram em resistências seguidas de morte entre 2000 e 2010
18 pessoas morrem para cada policial morto em São Paulo
9 pessoas morrem para cada policial morto nos EUA
1 em cada 9,7 homicídios foi cometido por policial em 2010
Fonte: ESTADÃO.COM.BR - 05/04/2011 - Internet: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110405/not_imp701837,0.php
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Relato do Pai:
"É obrigação da polícia prender, não matar" - Leia em:
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110405/not_imp701848,0.php
Mulher relata em tempo real execução feita por PMs:
Em ligação ao telefone 190, em março deste ano, mulher narra ao vivo um assassinato cometido por policiais militares no Cemitério das Palmeiras, em Ferraz de Vasconcelos.
Ouça a íntegra, acessando e clicando no sinal de "play":
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Tributo a uma mulher desconhecida
Edmundo Leite
Não sei o nome nem quem é a protagonista da denúncia estarrecedora registrada pelo 190 da Polícia Militar, e noticiada pelo Estadão. Seja quem for essa mulher, qual for sua história de vida, entrou para um panteão em que poucos teriam lugar.
Seu gesto de coragem ao celular e na frente do policial assassino é um editorial pronto, um libelo contra a injustiça e a violência, um “Eu acuso” de Zola dos tempos modernos. Com uma simples ligação telefônica, rompeu uma eterna lei do silêncio que costuma imperar em casos semelhantes: “Diz que já é normal fazer isso aqui, mas não é normal eu assistir isso…”
Não é normal eu assistir isso… Fora a dignidade de não aceitar a violência como coisa normal e de denunciar um crime covarde cometido por quem deveria combatê-los no momento em que a barbárie era cometida, há a coragem indignada de contestar a versão estapafúrdia que o policial quis apresentar ao se perceber flagrado por esse mulher desconhecida. “… Não, não. Eu estava socorrendo o rapaz.
Socorrendo? Meu senhor, olha bem pra minha cara.”
Claro que já não falta – inclusive em mensagens aqui no Estadão – gente dizendo que a polícia está certa em matar bandido mesmo infringindo a lei. Não está. A mulher desconhecida lembrou isso aos policiais e à sociedade. Lembrou que não podemos aceitar o crime, sobretudo de quem deve combater o crime.
Em muitos lugares do mundo existem monumentos ao soldado desconhecido, em homenagem à bravura dos anônimos que lutaram por uma causa que talvez nem soubessem direito qual era. Um monumento a essa mulher desconhecida deveria ser erguido na Zona Leste de São Paulo. Espero que não num cemitério.
Fonte: ESTADÃO.COM.BR - 04/Abril/2011 - Internet: http://blogs.estadao.com.br/edmundo-leite/2011/04/04/tributo-a-uma-mulher-desconhecida/
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Impunidade favorece cultura do extermínio
Bruno Paes Manso
O grau de letalidade dos policiais paulistas fica evidente quando comparado com o de outras polícias no mundo. Nos Estados Unidos, para cada pessoa que a polícia mata, são realizadas 37.751 prisões. Em São Paulo, uma morte ocorre a cada 348 prisões.
A PM introduziu matérias de direitos humanos e treinamentos para reduzir a violência na corporação. Mas enfrenta resistências no dia a dia. A impunidade e a fragilidade na investigação dos casos favorecem a cultura do extermínio.
O BO do caso testemunhado no Cemitério das Palmeiras é claro a esse respeito. Diante do depoimento dos PMs sobre roubo e suposta resistência seguida de morte, na delegacia foi registrado que "os fatos tipificavam o explícito cumprimento do dever legal por parte dos PMs". Se não fosse a testemunha, seria mais um caso sem provas a ser arquivado pela Justiça paulista.
Fonte: ESTADÃO.COM.BR - 05/Abril/2011 - Internet: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110405/not_imp701855,0.php
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