Filme manda Papa para o divã. E o Vaticano aprova
Um Papa deprimido que não se considera à altura da missão que lhe foi dada busca um psicanalista. E o encontra: é nada menos do que o célebre Nanni Moretti (foto acima) um dos diretores mais importantes do cinema europeu e grande personagem crítico da "esquerda" italiana.
A reportagem é de Julio Algañaraz, publicada no jornal Clarín [Buenos Aires, Argentina], 25-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Também como ator, Nanni ouvirá as angústias do Pontífice na ficção do filme que irá começar a ser filmado e que irá se chamar "Habemus Papam", a fórmula que um cardeal proclama da sacada da Basílica de São Pedro quando anuncia, com a multidão reunida na praça, que um novo pontífice foi eleito.
A surpresa é que a cúpula da Cúria Romana não é hostil ao projeto de Nanni, considerado detentor de um caráter difícil.
No sábado [em novembro de 2009], viu-se Moretti na Capela Sistina diante do Papa verdadeiro, Bento XVI, que o havia convidado, junto com 260 artistas italianos. O Papa lhes dirigiu um discurso de grande envergadura intelectual sobre a fé, a cultura e o gênio artístico. O superinteligente e aberto Dom Gianfranco Ravasi, promovido a "ministro" da Cultura do Papa e, portanto, iminente cardeal, entregou uma medalha do pontificado a um sorridente Moretti. Foi o artista com o qual ele mais conversou. "Nos últimos tempos, vimos-nos várias vezes: ele me deu o roteiro do filme para ler", disse o arcebispo. "A sua ideia é interessante, porque não se detém na questão do poder, mas busca uma visão psicológica", revelou.
"Pelo que eu li, não é uma provocação, mas claro que será preciso ver o filme. Não é uma polêmica sobre o suposto poder do novo Papa. A crise pessoal nasce do esplendor, da grandeza do dever que lhe deram. Tanto é assim que, no final, o Papa pede que rezem por ele". Depois, Dom Ravasi fez um anúncio importante. Pela primeira vez, a Igreja estará presente na Bienal de Veneza a partir do ano que vem, com seu próprio pavilhão.
Sabe-se pouco sobre o filme "Habemus papam". Há poucos dias, volantes foram distribuídos no centro de Roma pedindo idosos entre 65 e 85 anos de idade, de todas as nacionalidades. Latino-americanos, asiáticos, africanos: deles, sairão os cardeais eleitores reunidos na Capela Sistina no Conclave, que elege o novo Papa. Não se sabe quem será o eleito para interpretar o Pontífice. Talvez, ele sairá do grupo dos cardeais, talvez não. Também buscam-se pessoas para que representem os fiéis. Pessoas mais jovens.
Nanni Moretti ganhou vários festivais com seus melhores filmes. Alguns acreditam que se "Habemus Papam" terminar a tempo, terá assegurado o Festival de Cannes ou o de Veneza.
Nanni é um homem de esquerda, mas muito crítico com a esquerda italiana. E acusa: "Uma classe política que permitiu o que acontece (com Berlusconi) não é séria. E não é sério um país que permite tudo isso".
Segundo a revista Familia Cristiana, o autor de "Querido Diario" sabe equilibrar "sua veia polêmica e irônica com a verdade dos sentimentos". Talvez o Vaticano espera que essa fórmula expressa o gênio de Moretti em "Habemus Papam".
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - On-Line - Dia 26/11/2009 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=27846
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Vaticanista sugere a Bento XVI assistir ao filme "Habemus Papam"
Bento XVI deveria ver Habemus Papam, o filme "genial" de Nanni Moretti sobre um papa confrontado à depressão, após ter sido eleito, estima Marco Politi, vaticanista do jornal italiano Il Fatto.
A entrevista é da AFP, 14-04-2011.
Eis a entrevista.
Qual é sua opinião sobre o filme de Nanni Moretti?
É um filme genial. É uma pesquisa sobre o sentido do poder, da solidão, sobre a necessidade de afeição. Um grande filme com um Michel Piccoli soberbo. O sedutor, que conhecíamos durante tantas décadas, está irreconhecível; mas deixa entrever sua capacidade de interpretar, o trabalho de ator e a sede de vida que marcaram Michel Piccoli, tanto como sedutor quanto, agora, como papa.
Quais são os elementos interessantes do filme sobre a Igreja contemporânea?
Acho interessante que o elemento feminino apareça de forma recorrente no filme. Ao mesmo tempo, Moretti se faz intérprete de uma busca da sociedade que pede uma Igreja capaz de amor e de compreensão e que esteja em contato com todos. Por causa disso, então, acho que o secretário do papa deveria levar para ele o videocassete e fazê-lo ver, porque é estimulante.
Como o filme será acolhido no Vaticano segundo o senhor?
Este filme exprime um grande respeito pela Igreja. Diria mesmo que, no fundo, é fruto dos 27 anos de pontificado de João Paulo II, que conseguiu tornar de novo a Igreja interessante para milhões de pessoas, inclusive para os não crentes. "Interessante" significa também poder discutir, debater. A Igreja não ficou mais à margem, mas foi levada ao centro da cena.
Por sua vez, Bento XVI, que é tão diferente de João Paulo II, alimenta interrogações sobre o que deve ser a Igreja no mundo contemporâneo. Acho que Moretti, enquanto artista, teve a intuição de fazer compreender a qual ponto a responsabilidade de um papa é grande, assim como o peso de um pontificado para os ombros de um único homem.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - On-Line - Dia 20/04/2011 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=42588
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