Dinheiros eleitorais


JANIO DE FREITAS 

Financiamento público proporcionará uma fonte a mais de ganhos inconfessos à maioria dos candidatos

A SIMPLES CITAÇÃO de uma cifra deveria derrubar a ideia de financiar com dinheiro público os candidatos e partidos nas eleições, aprovada entre as propostas da comissão de reforma política do Senado.

O montante movimentado por candidatos e partidos nas últimas eleições chegou a R$ 3,3 bilhões. E ainda é preciso ressaltar: a soma só inclui os valores declarados à Justiça Eleitoral, sabidamente (nos dois sentidos) destituída de boa parte do dinheiro arrecado pelos candidatos e partidos -e nem sempre, ou só em menor número de casos, posto na campanha, e não no bolso.

A quantia citada pelo ministro Ricardo Lewandowski, presidente do Tribunal Superior Eleitoral e integrante do Supremo, foi seguida de um comentário também suficiente por si mesmo: "Imagina como isso seria oneroso para os cofres públicos, se aprovado sem a fixação de um teto".

Se ao menos o financiamento com dinheiro público, ou seja, pelo público eleitor e não eleitor, se prestasse de algum modo à melhoria dos padrões da política e de desempenho dos eleitos, seria possível um argumento a favor do sistema proposto. Mas o problema das administrações e dos três níveis de Parlamentos não se resolve com a mudança do financiamento.

O custo para os cofres públicos, além do mais, não impede o mais previsível: a continuidade da arrecadação privada, tanto por conveniência de candidatos como de doadores, que se asseguram dos serviços a serem prestados por seus financiados. Daí resulta que o financiamento público proporcionará uma fonte a mais de ganhos inconfessos para a maioria dos candidatos - ou alguém imagina ser a minoria? Bem, aí está o que e quem seriam os beneficiados pelo financiamento das campanhas com dinheiro público, em vez do sistema eleitoral e dos eleitores.

O INADEQUADO
Começou muito mal o ministro da nova Secretaria Especial da Aviação, Wagner Bittencourt. "Adequado" foi a palavra mais usada em seu primeiro frente a frente com repórteres questionadores. Tudo em relação ao preparo dos aeroportos para a Copa está no tempo adequado, está no ritmo adequado, vai avançar de modo adequado, o trabalho do governo está adequado ao cronograma.

Só o ministro não está adequado à veracidade. Nem aos bons modos, se a pergunta for embaraçosa. O aeroporto de Guarulhos, peça fundamental na intenção paulista de sediar a abertura da Copa, nem projeto acabado tem ainda para sua ampliação. São vários assim, com apenas três anos para obras numerosas, extensas e demoradas.

HUMANIDADES
Um dado aterrador perdido no relatório do Banco Mundial a respeito da situação decorrente do aumento internacional de preços, sobretudo, no caso, dos alimentos frequentes: a cada minuto, mais 68 pessoas estão se juntando ao 1,2 bilhão que já sobrevivem na faixa socioeconômica da pobreza.

Não é impróprio imaginar que outros 68 estejam entrando no nível da riqueza, por decorrência do aumento internacional de preços.

Fonte: Folha de S. Paulo - Poder - Domingo, 17 de abril de 2011 - Pg. A11 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po1704201107.htm

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