Culpa de quem ? ? ?
Em três anos, principais empresas citadas na
Lava Jato demitiram quase 600 mil
Fernando
Scheller
Segundo analistas, a operação, somada à crise econômica
e à redução
do preço do petróleo, causou um efeito negativo ainda
maior nos
setores de construção e de óleo e gás
A recessão, a queda do preço do petróleo, a
redução dos gastos do governo e a Operação Lava Jato, que investiga esquema de
corrupção envolvendo a Petrobrás, empreiteiras e agentes do governo, tiveram
efeito devastador no emprego. Levantamento do jornal O Estado de S. Paulo com dez das maiores empresas citadas na Lava
Jato mostra que, somente entre
funcionários diretos e terceirizados dessas companhias, o corte de vagas entre
o fim de 2013 (antes da deflagração da Lava Jato, em março de 2014) e dezembro
de 2016 foi de quase 600 mil pessoas. Analistas apontam que o efeito foi
ainda maior, quando se consideram as vagas indiretas.
Empresas do
setor de óleo e gás, como a Petrobrás, foram afetadas pela redução da cotação
do petróleo, que hoje está próxima de US$ 50. Já as grandes construtoras e incorporadoras tiveram de lidar com o alto endividamento
da população, que deixou de comprar imóveis, e com a conclusão – ou
interrupção – de projetos de infraestrutura, diante da deterioração das contas
do governo.
A conta de
600 mil postos de trabalho fechados mostra um impacto considerável –
equivalente a 5% do total de pessoas que entraram na fila do desemprego entre
2013 e 2016,
que foi de 11,2 milhões. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), o total de desocupados no País era de 1,1 milhão em
dezembro de 2013; no fim de 2016, o número havia crescido para 12,3 milhões.
Após um período de longa bonança, as companhias envolvidas na Lava Jato vivem
momentos de dificuldade e tentam se reestruturar. As construtoras Queiroz Galvão, Engevix, OAS e Mendes Júnior estão entre as que pediram recuperação judicial. A Sete
Brasil, empresa criada pela Petrobrás para a construção de sondas de petróleo,
está na mesma situação.
Falta de equilíbrio
Os cortes de vagas são impressionantes, diz Adriano Pires, diretor do Centro
Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), porque muitos projetos de expansão se basearam em previsões pouco realistas.
Pires afirma que, após a descoberta do
petróleo do pré-sal, instalou-se um clima de euforia que levou à tomada de
decisões de governo – e de negócio – sem sentido econômico.
Pires cita como exemplos a determinação de
que a Petrobrás fosse operadora dos campos do pré-sal e a criação da Sete
Brasil. “A Petrobrás não tinha condições
de fazer o trabalho de exploração sozinha. Essa decisão espantou investimentos
estrangeiros que hoje seriam bem-vindos”, frisa o diretor do CBIE. O sinal
verde para a construção das sondas do pré-sal, lembra Pires, foi baseada em uma
previsão de produção de quase 5 milhões de barris de petróleo por dia até 2020.
Em 2013, a projeção foi reduzida a 4,2 milhões; dois anos depois, houve novo
corte, para 2,8 milhões de barris diários.
Essa falta de
critério,
segundo o economista Sérgio Lazzarini, professor do Insper, influenciou o Banco Nacional do
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que acelerou a concessão de
empréstimos, e também o Banco do Brasil e a Caixa, que inflaram o crédito mesmo
quando a economia já dava sinais de exaustão. “O que essa gastança nos
trouxe de benefícios? Acho que esse modelo de desenvolvimento mostrou que é
preciso dosar a participação do Estado na economia”, diz Lazzarini.
Os efeitos colaterais da Lava Jato – o
desemprego, a revelação de intricados esquemas de corrupção e o abalo à
reputação de grandes companhias – levaram, pelo menos momentaneamente, a uma
mudança no curso da economia. Hoje,
diz o professor do Insper, o lema é a
redução de gastos públicos e a abertura de vários setores a investimentos
externos, entre eles infraestrutura e companhias aéreas.
A manutenção deste caminho não é garantida,
na visão de Lazzarini. Ele acredita que ainda
há risco de uma “guinada” populista no País como reação à crise. “Basta ver
o que aconteceu nos Estados Unidos, com Donald Trump. Quando se olham os candidatos para a eleição presidencial de 2018, é
muito difícil fazer uma previsão para onde vamos.” [...]
Fonte: O
Estado de S. Paulo – Economia & Negócios – Domingo, 23 de abril de 2017
– Pág. B1 – Internet: clique aqui.
«Custo da má gestão de Dilma é maior do que
o da Lava Jato»
Entrevista com Eduardo
Giannetti da Fonseca
Economista,
escritor e filósofo
Mônica
Scaramuzzo
Para economista, equívocos nas políticas macro e
microeconômica são
os responsáveis pela crise atual
![]() |
EDUARDO GIANNETTI DA FONSECA |
O economista Eduardo Giannetti da Fonseca diz que os impactos da Operação Lava
Jato, que apura corrupção na Petrobrás, podem ter efeitos negativos sobre a
economia brasileira, que esboça uma reação, mas afirma que as investigações em curso não deram origem à atual recessão pela qual o
Brasil passa. Segundo ele, a má condução do governo Dilma Rousseff, com
políticas equivocadas, colocou o Brasil nesta profunda crise, gerando a alta
taxa de desemprego.
A seguir, trechos da entrevista.
Um levantamento feito pelo “Estadão” mostra que as
principais empresas envolvidas na Lava Jato demitiram quase 600 mil pessoas. As
novas delações poderão piorar esse cenário?
Eduardo
Giannetti: O
impacto (negativo) indireto sobre o emprego é ainda maior. Afeta toda cadeia,
desde os fornecedores até o consumo que deixa de ser feito porque a atividade
não aconteceu.
Com as delações que vieram à tona semana retrasada, o
impacto da Lava Jato na economia pode ser maior daqui para a frente?
Eduardo
Giannetti: Acho
que seria um erro de análise atribuir a atual crise econômica e o desemprego à
Lava Jato. Estaríamos em crise e com
alta taxa de desemprego, independentemente da Lava Jato. Não foi a operação
que criou esse problema. Ela ajudou a agravar, uma vez que as decisões tomadas
no âmbito da corrupção que a operação está revelando foram péssimos
investimentos. Um exemplo é a refinaria
Abreu e Lima. Foram gastos dezenas de milhões de reais e nenhum real de
retorno. A Lava Jato não causou a crise
econômica.
Em outras palavras, a Lava Jato não está diretamente
ligada à crise econômica...
Eduardo
Giannetti: Não
é o preponderante. Ela é mais o sintoma da crise do que a causa original. Uma
coisa é importante esclarecer: o custo
econômico da incompetência do governo Dilma é muito maior do que toda a
corrupção brasileira, por mais que você superestime essa corrupção. Estamos
falando de toda ordem de magnitude. Mesmo na avaliação mais ambiciosa do
tamanho da corrupção no País não chega nem perto do custo que teve para a
sociedade o acúmulo de equívocos macroeconômicos e de política microeconômicas
do governo Dilma.
![]() |
DILMA ROUSSEFF |
O sr. se refere só ao governo Dilma ou à gestão
petista?
Eduardo
Giannetti: O
quadro (econômico) começou a se deteriorar no segundo mandato do governo Lula,
após a saída de Palocci (ex-ministro Antônio Palocci). O cenário se agravou e
gerou a crise que estamos vivendo no primeiro mandato do governo Dilma, com a
adoção da chamada nova matriz macroeconômica e com os erros de políticas microeconômicas nas áreas de energia elétrica, de
petróleo e gás, das concessões, do uso do BNDES para favorecer parceiros.
Acredito que a corrupção gere muito mais indignação porque é um desvio de
responsabilidade moral.
Mas foi o governo Lula que estimulou as políticas de “campeãs
nacionais”. Isso já não era um indício do início do problema?
Eduardo
Giannetti: O
segundo mandato do Lula foi um ensaio. Mas a realização em larga escala desses
projetos foi no mandato da Dilma. O Lula
ainda tinha um álibi de lidar com o impacto da crise econômica global de 2008 e
2009. Podia justificar que eram medidas anticíclicas para diminuir a crise.
No governo Dilma já não foi nada disso.
Foi uma convicção equivocada de alocação de recursos e intervenção com mão
pesada nos setores elétrico e de óleo e gás, na alocação de crédito... Depois,
uma inflação muito alta, reprimindo os preços administrados, o que obrigou a
aumentar os juros durante a recessão. De novo, a crise atual não tem nada a ver com a corrupção. Não é a primeira vez
que o Brasil passa por crises. Foi assim no governo Geisel (Ernesto
Geisel). Dilma gerou uma nova década perdida.
Mas as revelações da Lava Jato agravaram o desemprego?
Eduardo
Giannetti: Agravaram
sim.
A situação poderá ficar mais crítica com futuras
delações, como a do Palocci?
Eduardo
Giannetti: A
Lava Jato é um exemplo da deformação
patrimonialista do Estado brasileiro. Governos
que comandam junto com segmentos do setor privado o uso dos recursos na
economia. Por dois motivos basicamente: o setor privado buscando um atalho
de crescimento por meio de acesso privilegiado; e os governantes buscando a
perpetuação no poder por meio da cooptação do setor privado. É uma via de mão
dupla. Fazem um conluio para se
beneficiar – uns com lucro e outros no poder. Isso não envolve todo o
empresariado nem todos os políticos. E, de fato, estão faltando dois elos ainda da cadeia da corrupção brasileira: o
setor financeiro e o judiciário, que devem ser apurados.
Uma vez que se jogue luz sobre esses dois elos, o
cenário econômico e político pode piorar?
Eduardo
Giannetti: Acho
que à medida que se instaure no Congresso uma ideia do salve-se quem puder, em
que se blindariam os políticos da Lava Jato, corre-se o risco de o governo
Temer ficar esvaziado, afetando a governabilidade. O governo está correndo desesperadamente para manter as condições de
governabilidade. E ele já sabia que tinha um prazo de validade definido
para poder usar o capital político. Com a Lava Jato e com o que ocorreu semana
retrasada, esse capital político foi depreciado.
O governo terá condições de dar continuidade às
reformas?
Eduardo
Giannetti: O
governo já esteve em condições melhores de aprovar a agenda de reformas. Quanto mais o tempo passa, menos ele fica
operacional. Ficou mais complexo daqui para frente.
Está mais vulnerável?
Eduardo
Giannetti: Sim.
E ele está buscando se reagrupar para reconstituir os mecanismos de sustentação
do Congresso Nacional. Mas o risco está
em um cenário do salve-se quem puder, em que o Congresso passa a ser muito mais
regido pela lógica da sobrevivência a qualquer preço do que uma agenda de
reformas que também pode ter custos eleitorais mais à frente.
Mas a equipe econômica está empenhada em fazer os
ajustes.
Eduardo
Giannetti: Por
mais crítico que se seja ao governo Temer, ele acertou na área econômica. Não
só no Ministério da Fazenda, como nas estatais brasileiras, BNDES, Banco
Central e com uma agenda correta, baseada na “Uma ponte para o futuro”.
Mas há risco sistêmico?
Eduardo
Giannetti: A
economia está esboçando reação. Provavelmente,
estamos saindo neste primeiro trimestre de uma sequência de 11 trimestres de
PIB negativo. Uma pena que uma tempestade política coloque em risco essa
recuperação. Institucionalmente, para o Brasil, o mais importante é que esse
movimento de apuração se complete. Seria um enorme retrocesso se, em nome de
qualquer pretexto, houvesse um conluio de acordo para terminar esse processo
tão doloroso que é o da apuração e da punição. O que vai causar prejuízo econômico é a paralisia do governo.
Como o sr. vê o cenário eleitoral para 2018?
Eduardo
Giannetti: A
única coisa segura é que a expectativa sobre 2018 está mais aberta do que já
era porque os nomes que seriam
competitivos e estariam concorrendo provavelmente não chegam vivos até lá.
Os acordos de leniência podem ser uma saída para o
Brasil começar do zero?
Eduardo
Giannetti: Não existe começar do zero. Mas você não pode condenar
uma Petrobrás e outras empresas pela má ação de parte da diretoria. O País perder as grandes empreiteiras é
ruim. Tem de investigar e punir, mas não confundir desmandos de uma
diretoria com a nação brasileira.
Comentários
Postar um comentário