O que se passa na Igreja do Brasil hoje?
A perda de capilaridade social e a desafeição dos
católicos. Desafios da Igreja no Brasil em tempos
de Papa Francisco
Entrevista
com Pedro Ribeiro de Oliveira
Doutor em Sociologia, professor emérito de
Ciências da Religião
Patricia
Fachin
Da indiferença a uma mudança de postura da Igreja
Católica no Brasil
sob a inspiração de Francisco
“Nos dois primeiros anos do pontificado
de Francisco, a maior parte da Igreja (pelo menos no Brasil) apenas fez de
conta que estava em sintonia com ele, porque sua linha pastoral continuou a
mesma de outros tempos”, diz o
sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira à IHU On-Line. Contudo, pontua, depois da publicação de três documentos
pontifícios de “grande impacto”, “é cada vez mais clara a mudança de rumo que
Francisco imprime à Igreja e isso repercute no Brasil”.
Um exemplo dessa modificação,
segundo o sociólogo, pode ser visto “na posição
política da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB desde a visita
da presidência da CNBB ao Papa, em 2016: ela ganhou coragem e voltou a pronunciar-se sobre o momento político sem
poupar críticas a Temer e seu governo, mostrando sua distância em relação à
atitude dos dois cardeais que foram visitá-lo no palácio da Alvorada”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Pedro Ribeiro de Oliveira sugere uma “refundação”
das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs para alavancar o projeto de uma
Igreja em saída e comenta a atuação do laicato na instituição. “O problema do
laicato é que nós somos e queremos ser Igreja, isto é, membros de pleno direito
como são os ministros ordenados – bispos,
presbíteros e diáconos –, mas esses
parecem não levar a sério a definição da Igreja como Povo de Deus”, avalia.
Para ele, “muitos leigos e leigas se submetem a uma Igreja clerical, desde que
o clero abençoe seu estilo de vida (no caso dos ricos) ou os console em seu
sofrimento (no caso dos pobres)” e, portanto, “movimentos de santificação pessoal convivem bem com o clericalismo,
enquanto as CEBs e Pastorais sociais não se submetem a ele”.
Pedro Ribeiro de Oliveira é doutor em Sociologia,
professor aposentado dos Programas de Pós-Graduação em Ciências da Religião da
Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF e da Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais - PUC Minas. É membro do ISER-Assessoria, da Equipe de
Formação da Prelazia de São Félix do Araguaia e da Coordenação Nacional do
Movimento Fé e Política.
Confira a
entrevista.
IHU On-Line: Por
quais razões o senhor afirma que a Igreja perdeu a “capilaridade social” que
teve à época da ditadura?
Pedro Ribeiro de Oliveira: Para explicar a
capilaridade social, uso a comparação com as raízes da árvore: elas penetram no
solo, absorvem a umidade e a fazem chegar até o alto da copa. Nas raízes reside o segredo do vigor da
planta: à medida que elas perdem a capilaridade, a árvore seca. A Igreja Católica teve grande capilaridade
social até meados do século passado, quando as associações piedosas – Apostolado da Oração, Congregação
Mariana, Liga Católica, Vicentinos, Irmandades
etc. – congregavam grande quantidade de fiéis. A modernização esvaziou aquelas
associações, mas a Igreja recuperou a
capilaridade social por meio das dezenas de milhares de Comunidades Eclesiais
de Base - CEBs presentes nas zonas rurais e periferias urbanas. Dinamizadas
pelas Pastorais Sociais – como a Pastoral da Terra, Operária, Indigenista, da
Juventude e outras – elas penetravam o
tecido social brasileiro e funcionavam como artérias de ligação entre as bases
populares e os dirigentes eclesiásticos. Se uma liderança de CEB sofria
ameaças por sua luta em defesa dos Direitos Humanos, logo essa informação
chegava ao conhecimento da CNBB, que se mobilizava em sua defesa. No sentido
inverso, quando a CNBB propunha uma campanha em favor dos pobres ou da ordem
democrática, podia contar com a mobilização de toda a rede de comunidades
espalhadas pelo País para pressionar o governo militar, o Congresso e a
sociedade.
A perda dessa capilaridade social deveu-se à orientação imprimida à
Igreja pelos pontificados de S. João Paulo II e de Bento XVI, no sentido de
conter o avanço das reformas decorrentes do Concílio Vaticano II.
Eles implementaram o projeto de restauração identitária, que fez a Igreja refluir para o campo
propriamente religioso e perder muito da sua incidência nas lutas de transformação
social.
Como o senhor caracteriza
esse projeto de restauração identitária? Ele ainda se mantém na Igreja,
direcionada pela CNBB, diante da atual conjuntura nacional?
Pedro Ribeiro de Oliveira: Esse conceito
refere-se a um conjunto de medidas que reforçam a centralidade romana em
detrimento da presença diversificada no mundo. As medidas mais importantes foram:
a)
nomeação de bispos alinhados a essa orientação centralizadora para as dioceses
mais importantes,
b)
a adoção do Código de Direito Canônico, reformado pela Cúria, como norma
pastoral para todas as dioceses,
c)
a adoção do Catecismo da Igreja como norma doutrinal,
d)
o retorno do modelo de seminário exclusivo para a formação do clero,
e)
normas litúrgicas para coibir inovações posteriores ao Concílio e
f)
apoio a Movimentos Religiosos de santificação pessoal.
Essas medidas são
verdadeiramente estratégicas, porque configuram
uma instituição eclesiástica monolítica: centralizada no Papa e nos padres
(paróquias), retira a autonomia do bispo (tanto na sua diocese quanto nas
Conferências episcopais) e privilegia
leigas e leigos interessados apenas em sua salvação. É certo que a renúncia
de Bento XVI tirou a força do projeto de restauração identitária, mas aquelas
medidas enrijeceram de tal forma a Igreja Católica, que acabaram por impedir
não só a renovação iniciada durante o Concílio Vaticano II como também as
propostas pastorais de Francisco.
O papa Francisco tem
insistido no discurso de que a Igreja deve ser pastoral e uma “Igreja em
saída”. Na prática, o que isso significa?
Pedro Ribeiro de Oliveira: Sua proposta é
clara como um cristal bem lapidado: se a
missão da Igreja é levar ao mundo todo a Boa-notícia do Reinado de Deus, seu
movimento deve ser para fora dos templos e sacristias. O espaço principal
de atuação do Povo de Deus é o lugar onde vivem as pessoas, independentemente
de sua confissão religiosa. Os cristãos e cristãs devem anunciar com alegria o
Evangelho e colaborar com o projeto de construção do Reino de Deus na história.
Francisco é enfático: antes correr o
risco de se sujar por ter ido às praças e ruas, do que definhar por não sair da
sacristia. Em suma, trata-se de juntar-se aos movimentos sociais,
respeitando sua laicidade, para que “não
haja família sem casa, camponês sem terra, trabalhador sem direitos”. É o
que ensina e faz o Papa.
Infelizmente, o projeto de colocar a Igreja em saída tem
sido interpretado de maneira a perder seu caráter inovador. Tomo como
exemplos dessa deturpação os eventos religiosos de massa destinados a encher as
ruas e praças de católicos, ou o padre que leva o confessionário para a praia
alegando que assim a Igreja vai onde estão os turistas. É um pouco ridículo,
mas assim é...
Como essas propostas de
Francisco têm repercutido na Igreja brasileira? Quais são as estruturas sociais
e eclesiais que potencializam ou inibem uma Igreja em movimento?
Pedro Ribeiro de Oliveira: O setor eclesial
mais afinado com a proposta de Igreja em saída é o de quem se identifica com as
CEBs e Pastorais Sociais. Nele estão
bispos, padres, religiosas, leigos e leigas. Esse setor tem certa influência na Igreja devido a sua capilaridade
social, embora seja numericamente pequeno. Mas está havendo mudança. Nos
dois primeiros anos do pontificado de Francisco, a maior parte da Igreja (pelo
menos no Brasil) apenas fez de conta que estava em sintonia com ele, porque sua
linha pastoral continuou a mesma de outros tempos. Passados dois anos e três
documentos pontifícios de grande impacto, é cada vez mais clara a mudança de
rumo que Francisco imprime à Igreja e isso repercute no Brasil. Constato, por
exemplo, a mudança na posição política
da CNBB desde a visita da presidência da CNBB ao Papa, em 2016: ela ganhou
coragem e voltou a pronunciar-se sobre o momento político sem poupar críticas a
Temer e seu governo, mostrando sua distância em relação à atitude dos dois
cardeais que foram visitá-lo no palácio da Alvorada.
Não sei avaliar
exatamente a correlação de forças entre os setores identificados com o projeto
de Igreja em saída e os setores identificados com a restauração identitária,
mas tudo indica um significativo avanço
do projeto de Francisco entre os bispos e no laicato. Ainda não vejo igual
avanço entre os padres, que parecem se contentar ao ver igrejas cheias, ainda
que seja para “missas de cura e libertação”. É claro que na sociedade a
figura e a mensagem de Francisco têm grande aceitação, mas isso pouco
representa em termos de força transformadora na Igreja Católica. Nessa
conjuntura, ainda não são muitos os
bispos e padres que ousam seguir o exemplo de Francisco na construção de uma
“Igreja pobre para os pobres”. É preciso mais criatividade de quem apoia o
projeto de Francisco para desempatar esse jogo...
Quais são os potenciais de
ressurgimento das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) no atual contexto?
Pedro Ribeiro de Oliveira: Prefiro falar de refundação das CEBs, porque em sua
maioria elas perderam o antigo vigor, mas não morreram. Prova disso é a
preparação do 14º Encontro Intereclesial,
previsto para janeiro de 2018, em
todas as regiões do país. Realisticamente, temos
que considerar o nítido envelhecimento de seus membros e a sua perda de
prestígio na Igreja, porque as celebrações das CEBs não enchem igreja como
os cultos de louvor, cura e libertação.
Refundar as CEBs significa retomar e atualizar a intuição teológica que
lhes deu origem, ou seja:
a)
celebração dominical na comunidade local conduzida por seus animadores e
animadoras,
b)
incentivo à leitura bíblica na ótica do oprimido (como faz o CEBI, por
exemplo),
c)
coordenação pastoral colegiada, desde as bases comunitárias até os organismos
paroquiais e diocesanos, e
d)
articulação com Pastorais sociais que façam a mediação entre o campo eclesial e
o sócio-político.
Uma refundação assim está em total sintonia com o projeto de Francisco,
mas requer ousadia do bispo para governar a diocese segundo o Evangelho, sem
deixar-se prender pelas proibições do Direito Canônico.
O papa tem estimulado a
participação dos leigos na Igreja e tem chamado atenção para que eles não sejam
clericais. Como os leigos têm atuado no Brasil? Que avaliação faz do Conselho
Nacional do Laicato do Brasil – CNLB? Eles são muito clericais? Qual é a origem
desse clericalismo?
Pedro Ribeiro de Oliveira: O problema do
laicato é que nós somos e queremos ser Igreja, isto é, membros de pleno direito
como são os ministros ordenados – bispos, presbíteros e diáconos –, mas esses
parecem não levar a sério a definição da Igreja como Povo de Deus. Parecem ainda acreditar que são os
representantes de Cristo, como se Ele não tivesse ressuscitado e precisasse de
mediadores para se fazer presente na história humana. Daí o clericalismo,
tão criticado por Francisco. Lembro que ser contra o clericalismo não é negar a
importância do presbítero e do bispo como agentes da unidade eclesial, mas sim opor-se aos privilégios que cercam os
clérigos como se fossem dotados de poderes divinos.
É claro que muitos leigos e leigas se submetem a uma Igreja clerical,
desde que o clero abençoe seu estilo de vida (no caso dos
ricos) ou os console em seu sofrimento
(no caso dos pobres). Clericalismo e conservadorismo caminham de braços dados. Movimentos de santificação pessoal convivem
bem com o clericalismo, enquanto as CEBs e Pastorais sociais não se
submetem a ele.
Se a Igreja quer mesmo ser Povo de Deus atuante na história humana, tem
que suprimir o clericalismo. Francisco tem dito isso, mas sabe que não
é fácil passar do ideal à prática. Penso que uma medida eficiente para promover essa mudança é
fechar os seminários e colocar os vocacionados na pastoral, oferecendo-lhes a
formação na ação. Esse modelo foi implementado por Dom Helder
Câmara, quando arcebispo de Olinda e Recife. Os vocacionados viviam como qualquer jovem leigo, sendo acompanhados
por professores e professoras que ensinavam a Teologia a partir da reflexão
sobre sua experiência de vida, utilizando para isso os sábados e os períodos de
férias. Com um custo muito inferior ao dos atuais seminários – que são
viveiros do clericalismo – a Igreja
poderá formar presbíteros, diáconos e diaconisas seguindo o método “ver,
julgar, agir e celebrar”. E assim formar agentes da unidade eclesial para
as necessidades do mundo atual.
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PAPA FRANCISCO - quando esteve em visita ao Brasil |
Como avalia os quatro anos
do pontificado de Francisco? Quais diria que são as três questões mais
positivas do pontificado e os seus três desafios?
Pedro Ribeiro de Oliveira: Ele retomou a
proposta de aggiornamento [=
atualização] de João XXIII atualizando-a e fundamentando-a com a Teologia do
Concílio Vaticano II. A isso chama de projeto de Igreja em saída. Mas a oposição clerical adotou a estratégia da
inércia: fazer de conta que as normas dadas por João Paulo II e Bento XVI ainda
estão em vigor.
Penso que o projeto de Francisco só conseguirá avançar sob duas condições:
1ª)
A primeira é fazer seu sucessor na mesma linha pastoral. Por isso está dando formato mais universalista ao
colégio de cardeais.
2ª) A
segunda condição é conquistar o apoio
efetivo das bases da Igreja. Esta condição é mais complicada, porque depende de bispos com ousadia para
substituir as velhas estruturas curiais e paroquiais por estruturas
participativas, padres que abandonem o clericalismo e leigos e leigas com
coragem e competência para assumir sua missão na Igreja e no Mundo. Francisco dá exemplo de liberdade e
criatividade, mas ainda tem sido pouco seguido.
Não sei definir
quais seriam as questões mais e menos positivas de seu pontificado. Mas com
certeza seu maior desafio é o de
convencer a Igreja Católica que o mundo está em estado de guerra:
* guerras localizadas,
* étnicas,
* contra a droga ou o terrorismo, mas todas mortíferas,
* dentro do quadro maior da guerra da espécie
humana contra a Terra, nossa casa comum.
Francisco já
abordou esse tema por várias vezes, mas ainda
não conseguiu convencer as bases da Igreja que não basta falar de paz nos
corações enquanto a violência está solta pelo mundo, produzindo miséria,
refugiados, mutilações e mortes. De Roma ele percebe a realidade global,
mas as Igrejas locais continuam olhando para dentro delas mesmas e, no máximo,
o que ocorre na sua vizinhança. Imagino
o grau de angústia do Papa!
Deseja acrescentar algo?
Pedro Ribeiro de Oliveira: Sim. Não creio
que de um momento para o outro a Igreja Católica do Brasil retome o rumo
libertador que a caracterizou nas décadas de 1970 e 80. Acredito que isso só
acontecerá depois do susto que ela
tiver, ao constatar no censo demográfico de 2020 o grande aumento da desafeição
dos católicos.
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