Um país que mata e destrói
Relatórios mostram um país destruidor e genocida
no campo e a floresta
Felipe Milanez*
Publicações da Pastoral da Terra e do Instituto
Socioambiental revelam aumento da violência contra indígenas, quilombolas e
trabalhadores do campo.
Há
uma nuvem pesada no horizonte, escura, armando uma tempestade. "Escutamos aquele silêncio que nos
preocupa muito, porque nos faz lembrar massacres e momentos trágicos:
latifúndio age assim", afirma Ayala Ferreira, liderança do MST no
Pará.
No
"acampamento pedagógico da juventude Oziel Alves Pereira", organizado
há 11 anos pelo MST na Curva do S, local do Massacre de Eldorado dos Carajás, de 1996, há uma apreensão no ar.
E os dados da crescente violência confirmam o temor: estamos diante de uma sucessão de mortes, associadas com impunidade e o
avanço do latifúndio.
Nesta
segunda-feira 17 de abril, aniversário de 21 anos do massacre, dia internacional da luta pela terra,
duas organizações que trabalham no campo e na floresta – a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Instituto Socioambiental (ISA) – apresentam trabalhos de compilação
de dados fundamentais para se conhecer a violenta conjuntura que o País
atravessa.
Na
32ª edição de seu Caderno Conflitos no Campo, a CPT mostra que todas as formas de
violência no campo aumentaram substancialmente no ano passado:
a)
Se em 2015 ocorreram 50 ASSASSINATOS, em 2016
foram 61.
b)
O número de PESSOAS AMEAÇADAS DE MORTE subiu de 144 para 200, ao mesmo tempo em que entrou
em colapso o programa de proteção do governo federal.
c) Aumentaram
em 25% as TENTATIVAS DE ASSASSINATO (foram
74) e
d)
explodiu o número de AGRESSÕES (de 187 para 571) e uma das maiores preocupações:
a criminalização.
e)
Em 2015, 80 ATIVISTAS FORAM PRESOS, número que chegou a 228 no ano passado. Com destaque para a CRIMINALIZAÇÃO, a invasão
pela polícia civil de São Paulo da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF)
do MST, em Guararema (SP), no final do ano passado.
A Amazônia continua sendo a região mais
violenta, concentrando 80% das mortes, sobretudo em Rondônia, no segundo ano do banho de sangue na região de Buritis.
Para Leonardo Boff, há quatro razões: "O nosso passado colonial violento;
o genocídio indígena; a escravidão, 'a mais nefasta de todas'; e a Lei de Terras que excluiu os pobres e
afrodescendentes do acesso à terra, e os entregou 'ao arbítrio do grande
latifúndio, submetidos a trabalhos sem garantias sociais'".
O
foco da violência também atingiu em
maior número indígenas e quilombolas, o que acende um sinal de alerta para
as falas neofascistas de Bolsonaro e de outros deputados ruralistas. Na Bahia foram mortas duas lideranças
quilombolas (Antonio Gonçalves e Alexsandro dos Santos Gomes), o indígena Luizão Tupinambá e o
professor da UFBA, aliado da luta quilombola, Marcus
Vinicius de Oliveira Silva. No Maranhão, foram quatro lideranças
indígenas e duas lideranças quilombolas assassinadas.
No
país do "crime de Mariana", no holocausto ecológico do Rio Doce, triplicaram nos últimos seis anos os
conflitos pela água. Destaque para o brutal e covarde assassinato de Nilce de Souza Magalhães em janeiro do ano passado.
"Nicinha" era liderança do Movimento
dos Atingidos por Barragens (MAB), em Rondônia, e lutava por direitos das
populações atingidas pela usina Jirau, do Complexo Madeira.
Aonde
a água é escassa, no sertão, a grande
fronteira agrícola da soja, aumentaram 300% os conflitos no que colonizadores
ruralistas separatistas chamam de Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e
Bahia).
Brasil
Socioambiental em conflito
O
ISA lança a 12ª edição do livro Povos Indígenas no Brasil destacando
uma extraordinária entrevista com Ailton Krenak. O povo Krenak que foi
"divorciado do corpo do rio", sofre com a falta de perspectiva de
voltar a ter água para poder existir. "Quando
a atividade de abrir a estrada de ferro Vitória-Minas se iniciou, foi o fim da
vida livre dos Krenak no Rio Doce", relata Ailton.
O
líder indígena aponta o descaso genocida
da Vale-Samarco e, afirma, "não tem reparação": "O capital
está assolando o planeta". Na capa desta edição do livro uma foto
homenageia o líder indígena do Xingu Pirakumã Yawalapiti, falecido em 2015.
Um
outro efeito brutal do avanço do capital sobre o planeta é apresentado nos
dados precisos produzidos pelo ISA sobre os efeitos de Belo Monte, entre 2011 e 2016. Com o avanço da construção da usina, barrou-se o Xingu, as terras
indígenas estão desprotegidas, ribeirinhos foram deslocados, a cidade de
Altamira transformada em um caos, sem saneamento, com hospital fechado,
aumento da violência...
Esse
avanço que atinge populações e a natureza é ainda mais violento contra as
mulheres, e nesse sentido, o Povos
Indígenas do Brasil do ISA inova ao
iniciar o volume com o pensamento de doze mulheres indígenas, recolhido por
pesquisadoras e pela equipe do instituto.
Também
têm destaque as reflexões produzidas por mulheres aliadas à luta dos povos
indígenas, como Marta Azevedo,
ex-presidente da Funai, que escreve recomendações para o próximo Censo de 2020
(as mudanças propostas pelo atual governo Temer visam excluir dados
fundamentais para se compreender a população brasileira e as desigualdades); a
linguista Bruna Franchetto, sobre as
iniciativas indígenas de fortalecer as línguas; e a advogada indigenista Erika Yamada, sobre a necessidade da
regulamentação do direito de consulta.
Todas
elas, além de outras pesquisadoras e pesquisadores comprometidas e
comprometidos, escrevem nessa edição. Coletivamente, a equipe de edição do ISA
escreveu um texto fundamental em defesa dos direitos indígenas constitucionais,
cujo ataque "aprofunda-se no governo Temer".
Nesses
cinco anos de documentação do ISA, também se destaca o aumento da pressão e da exposição a riscos e a vulnerabilização dos
povos indígenas que vivem em isolamento, um tema que tem sido abordado
recorrentemente nessa coluna.
No
último corte orçamentário da Funai, algumas Frentes de Proteção Etnoambiental
foram colocadas em iminência de serem desativadas, o que acende o alerta do
risco de genocídios iminente.
O
indigenista da Funai Fabricio Amorim
escreve dois artigos importantes sobre os processos de contatos e conflitos no
Vale do Javari e os desafios da ação oficial de proteção aos povos indígenas
isolados.
E Elias Bigio, ex-coordenador da área na
Funai, alerta para a extrema
vulnerabilidade dos indígenas de um povo que fala uma língua Tupi Kawahiwa,
no Norte do Mato Grosso, e está em fuga permanente das ações genocidas de
grileiros e madeireiros, apoiados por ruralistas, como o ex-deputado José Riva.
Bigio
relaciona a forte campanha contra os índios na região ao risco da destruição dos vestígios da ocupação e até à morte dos
indígenas – que significaria a execução completa do genocídio.
Cinema
e luta na Amazônia
Na
"Curva do S", no Pará, aconteceu esse ano o III FIA-Cinefront, festival internacional de filmes sobre ecologias
e lutas sociais, uma ação de extensão da Universidade
Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), em parceria com movimentos
sociais, e do qual sou curador. O diretor homenageado esse ano foi Jorge Bodanzky. Em Marabá, na aldeia
Akrantikatejê, do povo Gavião, e na Curva do S, ele mostrou pela primeira vez
na região alguns de seus trabalhos clássicos.
Iracema, uma transa
amazônica,
foi projetado oficialmente pela primeira vez, em Marabá, onde foi filmado 43
anos atrás, numa sessão apoteótica no Cine Marrocos, na Sexta-Feira Santa. No
Sábado de Aleluia, no acampamento da juventude do MST na "Curva do S"
da estrada PA 150, onde ocorreram sessões educativas, ele apresentou o
documentário A Igreja dos Oprimidos.
Comentado
pelo professor Airton Pereira e pela juventude presente, o filme trouxe a memória das décadas de violência na região. Na
posse da chapa do sindicato dos trabalhadores rurais de Conceição do Araguaia
em 1985, a sina da morte foi registrada numa imagem: Oneide segurava a foto de
seu esposo morto, Raimundo Ferreira Lima (Gringo),
assassinado em 1980, e no palco estavam imagens de João
Canuto (assassinado em 1985), Expedito Ribeiro (assassinado
em 1991) e Felipinho, das ligas camponesas,
assassinado poucos anos atrás...
"Esse
filme era a minha infância", disse Maria Raimunda, liderança do MST no
Pará. "E agora continuamos a viver
essa angústia da morte e da violência".
*
Felipe Milanez é Professor de Descolonização do Conhecimento,
Sociedade e Ambiente na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Integra a
Rede Europeia de Ecologia Política (Entitle). Escreve sobre conflitos e
resistências ecológicas.
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