Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor – Ano A – Homilia

Evangelho: João 20,1-9

1 No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo.
2 Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: «Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram.»
3 Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo.
4 Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo.
5 Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou.
6 Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão
7 e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte.
8 Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou.
9 De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos.

JOSÉ MARÍA CASTILLO
Teólogo espanhol

O QUE É A RESSURREIÇÃO

O fato, mesmo, da ressurreição não o conta nenhum autor do Novo Testamento. Porque não se pode relatar um acontecimento que não está ao nosso alcance. Não existem meios de comunicação entre «este mundo» e o «outro mundo», como existem entre os extremos mais opostos e distantes do universo inteiro. Aquilo que os evangelhos nos relatam das aparições são a «experiência» do Ressuscitado, que tiveram e viveram as primeiras testemunhas da ressurreição.

O testemunho daquelas primeiras testemunhas, prolongado durante séculos, é o fio condutor que nos une ao Ressuscitado. Por isso, a importância decisiva que tem para os crentes em Jesus Cristo, manterem-se fiéis e perseverar, sem desânimo, na fé daqueles que viveram aquelas primeiras experiências de Jesus como o Vivente, que supera a força inevitável de destruição e de aniquilação que é a morte. A aspiração suprema do ser humano é viver. E viver feliz. A resposta a essa aspiração é Jesus ressuscitado.

Os relatos das aparições não são mais que testemunhos, desconexos nos detalhes, do que representou, para as primeiras testemunhas da fé, esta experiência fabulosa de saber-se possuidores da solução que para todo o mundo, durante todas as gerações, foi vivido como anseio supremo do mais e melhor que se possa possuir. Algo mais valioso e mais motivador que todas as riquezas e poderes deste mundo.

Além daquilo que foi dito, jamais deveríamos esquecer que os seres humanos, tal como somos e existimos, necessitamos da ESPERANÇA para poder viver. Um ser humano, que tenha perdido toda possível esperança, perde inevitavelmente as motivações que necessitamos para seguir fazendo o que de nós depende para continuar vivendo. Também, neste ponto capital, devemos isso a Jesus e sua memória, a maior dívida que se possa dever a alguém. Jesus mantém forte em nós o instinto de conservação e a força para superar toda desesperança.

A ressurreição não é o retorno de Jesus a esta vida. Jesus não volta mais a esta terra, nem entra de novo na história humana, nem aquilo que acontece é que Jesus «revive». Não. Jesus «ressuscita». Quer dizer, transcende o espaço e o tempo. Por isso, transcende as condições «desta vida». Ele supera a morte para sempre. E, assim, inaugura as condições da «outra vida». Nada sabemos, nem podemos saber, do que é ou como é essa nova vida. A única coisa que podemos dizer é que se trata da «plenitude da vida». Isto é, é uma vida sem limitações e que, portanto, preenche todos os anseios de vida que os humanos sentem, ainda que nem nos demos conta de que tais anseios estejam em nós.

Tudo isto quer dizer, obviamente, que a ressurreição não é um «acontecimento histórico», mas que é uma realidade que se situa «além da história». A ressurreição aconteceu. E acontece. Porém, não em nosso mundo, mas além do nosso mundo. Como é lógico, isto não é conhecível pela razão ou pelos sentidos do ser humano. Isto somente é alcançável pela FÉ. É, portanto, algo exposto sempre à obscuridade, à dúvida, aos sentimentos de insegurança. Por isso, a fé na ressurreição (a de Jesus e a nossa) é o cume, o ápice da fé cristã.

Porém, o mais importante do domingo da Ressurreição não é o proveito que esperamos e queremos para nós. Há algo prévio a tudo isso. Algo que é o que faz possível todo o resto. Antes da nossa transformação, houve a exaltação do próprio Jesus. A ressurreição não consistiu em que Jesus «voltou» a esta vida. Isso seria simplesmente «reviver». Porém, não. A ressurreição de Jesus nos diz que aquele humilde camponês da Galileia «foi constituído Filho de Deus em plena força a partir de sua ressurreição da morte: Jesus, Messias, Senhor nosso» (Romanos 1,4). Jesus, que foi a «imagem» de Deus na terra (Colossenses 1,15), alcança a «plenitude» de Deus neste dia. E, por isso, o Senhor Jesus é a plenitude de todos os nossos melhores anseios!

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Parroquia de San Vicente Mártir de Abando – Bilbao (Espanha) – Domingo, el dia del Señor – Comentarios sobre el Evangelio de domingo – Internet: clique aqui; La religión de Jesús: comentário al Evangelio diário – Ciclo C (2015-2016). Bilbao: Desclée De Brouwer, 2015, págs. 195-196 (impresso).

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