Ele merece sua atenção!!!
Ler ou não ler, eis a questão
Leandro Karnal
O homem que tudo tinha para ser medíocre e comum se
tornou
William Shakespeare, o maior autor de todos os tempos
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WILLIAM SHAKESPEARE (23 de abril de 1564 a 23 de abril de 1616 - Stratford-upon-Avon) Poeta, dramaturgo e ator inglês |
Ele não surgiu de família privilegiada. Seu
pai era um modesto fabricante de luvas. O local de nascimento estava distante
de centros cosmopolitas e pujantes. Nunca fez estudos superiores. Jamais cruzou
os mares que cercavam sua ilha. Sua existência transcorreu num universo de
poucos quilômetros. Casou-se com uma namorada já grávida.
Para inspirar mais cuidados sobre um destino
que já se anunciava comum, em vez de
abraçar uma profissão bem-aceita socialmente, manifestava desejo de fazer
versos, atuar e escrever peças. Não tinha brilho no berço e suas escolhas
indicavam um túmulo opaco. As lãs medíocres que teceriam sua vida estavam dadas
ali, em 23 de abril de 1564. Origem não
é destino e família não determina tudo. O homem que tudo tinha para ser
medíocre e comum se tornou William
Shakespeare, o maior autor de todos os tempos. Hoje, 23 de abril, lembramos seu aniversário de nascimento e de morte.
A frase mais conhecida de toda a literatura é
o “ser ou não ser”. Mesmo sem saber
inglês, mesmo sem nunca ter enfrentado o monumento criativo chamado Hamlet, crianças aprendem a frase na
boca de Nigel, a cacatua da animação Rio 2. A frase se transforma em signo
aberto que voa por todos os lados. Da mesma forma, Romeu passa a ser sinônimo de jovem enamorado, Otelo, de ciúmes, Macbeth,
de ambição, e Lear, de sandice
desorientada. Talvez Harold Bloom [professor e crítico literário
norte-americano, 86 anos] tenha razão: Shakespeare
inventou o humano como o entendemos hoje. Coisa de um bardólatra, um amante
obsessivo da obra do filho de Stratford-upon-Avon. Provavelmente seja mesmo.
Estamos condenados a uma cegueira neste mundo. Se vamos ser ofuscados, ao menos
que seja pela luz de William Shakespeare.
Desde a primeira vez que li o Hamlet,
imaginei: e se eu fosse livre como o príncipe dinamarquês? E se eu não estivesse preso a medos, convenções, covardias e
ambiguidades e tivesse o impulso de focar até o fim em uma meta com consciência
e inteligência? Nunca saberei, porque nunca fui tão livre como o
melancólico Hamlet.
No filme As Pontes de Madison (1995, Clint
Eastwood), Meryl Streep interpreta uma pacata dona de casa que se enamora de um
fotógrafo que passa pela cidade. A paixão desestabiliza sua vida. A
protagonista pensa em largar filhos, posição e marido e se lançar à aventura
extrema de uma paixão fora do remanso fluido dos rios pequeno-burgueses. Há um
momento-chave: o carro para e ela está nele com o marido. Ela quer seguir o
coração, largar aqueles seres e correr para seu amor. A personagem, então,
coloca a mão na maçaneta do veículo. Chove e o carro com o fotógrafo está à
frente. O tempo é curto, a angústia dilacerante. Se ela abrir, largará a
honradez da dona de casa interiorana. Fugirá de tudo que a definiu e entrará
numa zona nova, desafiadora e distante da única zona de conforto que conheceu.
O olhar dela expressa tudo, a cena se desenrola por imagens e uma direção de
câmera nervosa. Bem, nossa heroína afasta a mão da porta libertadora e aceita
permanecer onde está e onde ficará até a morte. Venceu a covardia ou a coragem? Dilema de Antígona: sigo o coração ou a lei?
A cena do cinema dialoga com o mundo
shakespeariano. A diferença é que o drama da personagem não é uma cena filmada,
mas um diálogo representado, uma reflexão que se desenrola. Tudo o que o olhar
da esposa-mãe-amante do filme nos diz, indiretamente, o bardo desenvolve com os
diálogos mais dilacerantes da literatura teatral.
As cenas são infinitas. Hamlet passa pelo
odioso padrasto-assassino que, ajoelhado, reza. Pensa em matá-lo e desenvolve a
possibilidade e suas consequências. A mão não está na maçaneta do carro, porém
na lâmina que empunha. Mais longa ainda é a reflexão de Macbeth pouco antes de
matar seu senhor e rei. Ninguém crava um
punhal, mata ou morre, sem construir uma análise discursiva elaborada na obra
de Shakespeare.
A hybris
(o desequilíbrio) que rege a tragédia clássica continua na obra do inglês. O
que diferencia o bardo de Sófocles, autor da Antígona ou do Édipo Rei,
é o salto do mundo interno, tímido no coro das obras gregas e avassalador nas
peças do autor inglês.
É um salto enorme. Mesmo personagens que são criadas a partir de uma crítica ou
preconceito, como Polônio (do Hamlet)
ou Shylock (do Mercador de Veneza), dizem
coisas sábias e ponderadas. As reflexões sobre poder do último rei York,
Ricardo III, estão muito à frente da personagem central de House of Cards [série de TV norte-americana de drama político
criada por Beau Willimon para o serviço de streaming Netflix: 1ª Temporada em
2013 e a 5ª está prevista para maio deste ano]. Talvez pudéssemos supor que o
deputado/presidente Francis Underwood só desnuda a ação política porque houve
um Ricardo III.
Shakespeare é
uma sementeira quase infinita de ideias. Ele é um inesgotável poço de personagens e um guia
luminoso para voar milhas acima das platitudes do mundo atual. William é um gênio da criação e um mestre
da psique humana que possibilita, em poucas linhas, avançar quilômetros na
compreensão do mundo. Eis Shakespeare, homem a quem devo uma parte
expressiva da minha parca consciência.
Desafie-se e
leia uma grande peça dele. Se o momento for adequado (porque nem sempre estamos aptos a
Shakespeare), a luz vai transformar sua vida. Se ainda não for sua hora de
entrar na aventura, paciência, ele espera na estante até você crescer. Somos
todos anões. Subir no ombro de gigantes
permite-nos contemplar um horizonte espetacular.
Happy birthday, Will! Bom domingo a todos
vocês!
Ler William Shakespeare
em português
Há várias edições, porém uma preciosa reedição vale a pena ser
destacada:
Título: William Shakespeare – Teatro Completo
Volumes: 3
Tradutora: Barbara Heliodora
Editora: Nova Aguilar
Ano: 2016
Número total de páginas: 4440
Preço de capa: R$ 390,00
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